Luana Flores fala sobre o conceito por trás de 'Cria do Sol Quente': 'Ativando a criança interior nos adultos'

Brincante de cultura popular revela como quatro anos de composição se transformaram em um álbum político, alegre e atemporal

21 jul 2026 - 08h49
(atualizado às 10h43)

Depois de atravessar festivais pelo Brasil e pelo mundo com o elogiado Nordeste Futurista (2021), Luana Flores saiu da bateria, do back — daquele lugar em que sempre esteve como DJ e percussionista — e descobriu que tinha algo muito maior a dizer. Cinco anos depois, está em outro ponto da trajetória: mais fortalecida, mais confiante, com um álbum de estreia que levou quase quatro anos para ganhar forma. Cria do Sol Quente chegou em julho de 2026 como prova de que, às vezes, é preciso tempo para descobrir quem se é de verdade.

A paraibana toca ritmos da cultura popular de sua região, participa de folguedos e entende música como brinquedo. Quando faz suas "colagens sonoras", democratiza a produção. Quando põe rabeca e beat eletrônico no mesmo espaço, estabelece uma continuidade natural. E quando escolhe apenas mulheres, pessoas LGBT e nordestinas para as parcerias, faz política dançante. Eis o grande segredo de Luana: provar que é possível falar de território, identidade e resistência enquanto faz as pessoas dançarem, rirem e se moverem.

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Em conversa nos estúdios da Rolling Stone Brasil, ela conta como o álbum se construiu como um enigma, como o título nasceu de uma música que ainda não sabia que era o próprio título, por que a criança interior pode ser um ato revolucionário e por que a categoria "música do mundo" ainda a inquieta. Luana não quer rótulos, quer ser brincante — e deixar que a gente também brinque.

Seu álbum chegou há pouco tempo, como está sendo esse pós-lançamento para você?

Nossa, tá sendo uma loucura. Eu acabei de lançar e já vai rolar o show de lançamento. Tá tendo uma repercussão muito legal, umas parcerias muito boas também para desenvolver esse trabalho — um trabalho de quase quatro anos de gestação. Muita coisa aconteceu, muitos movimentos. Mas é muito gostoso parir esse trabalho, receber feedbacks super positivos da galera e sentir que eu lancei uma semente potente no mundo.

É seu primeiro álbum, mas você lançou um EP em 2021. Qual é a diferença que você sente entre lançar um EP e um álbum de estreia?

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É uma mistura de tudo. Porque é interessante: é um álbum de estreia, mas eu lancei um EP em 2021 e teve uma repercussão muito boa. Então muita gente pergunta: "Mas é de estreia?" É de estreia. Porque quando a gente lança um EP, é aquela coisa de apresentar um pouquinho, um gostinho de como é o seu trabalho. Um álbum já é algo mais maduro, uma história mais fortalecida, digamos assim. E eu tô me sentindo muito realizada de ter essa oportunidade.

Você citou esse show de lançamento no dia 10/08, no Sesc em São Paulo. Como está a expectativa para ele?

A expectativa tá muito alta. Porque lançar um álbum e já ter um show de lançamento logo no Sesc em São Paulo é um grande presente. E eu não tô indo sozinha: tô chegando acompanhada de três grandes artistas. A Jéssica Caetano, de Pernambuco, que está no disco, e duas artistas que eu admiro muito: a Passarinha (Sara Porpino) e Bruna Alimonda. Então eu tô chegando de bonde.

A setlist já está fechada?

Esse será o primeiro show do meu álbum recém-lançado. Então eu sinto que esse show vai ser um mix entre Nordeste Futurista e Cria do Sol Quente. Ainda tem músicas de Nordeste Futurista para cantar e fortalecer essa narrativa, e também música nova — que, na verdade, eu já tava cantando antes de lançar. Já senti a vibe da galera, a energia. E isso fortaleceu a narrativa do álbum.

Como você faz para transformar um conceito que demorou quatro anos para nascer em um show ao vivo?

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É muito louco. Porque meu trabalho tem uma característica muito forte de mexer. Eu gosto de pensar que a gente vai mexer o corpo, vai dançar, mas também vai mexer os pensamentos, as ideias, o discurso. Então, quando eu me apresento, eu trago muito o meu território. Falo muito sobre território no meu trabalho. E quando eu digo "cria do sol quente", é para localizar de onde eu venho e trazer essa energia solar para o trabalho. Eu sinto que o disco tem muito a cara do show. Muita gente já me conhece por um show vibrante, energético. É muito gostosa essa brincadeira.

Você disse que mudou muito desde 2021. Qual foi a maior transformação nesse período?

Nossa, muita coisa. Em 2021 ainda foi um período meio pandêmico, né? A gente tava muito no virtual. O que mudou muito é que, quando eu lancei Nordeste Futurista, eu ainda não tinha tanta experiência com o show. Eu sempre fui a DJ, a percussionista, a baterista que ficava atrás. Então, quando eu comecei a ocupar esse lugar de cantar, Nordeste Futurista me deu isso de presente. Eu comecei a me provocar, a me apresentar cantando, tocando. Rodei muitos lugares, muitos festivais no Brasil e fora do Brasil. E isso me trouxe maturidade de palco e mais segurança do que eu quero comunicar pro mundo. A Luana de agora tá realmente mais fortalecida, mais empoderada.

E falando do álbum agora, quando nasceu a ideia de um disco? Você lembra onde você estava?

Eu tava na praia, na Bahia. Já faziam dois anos desde Nordeste Futurista, e eu tava naquela inquietação de lançar um álbum. Sempre foi um sonho. Mas não é tão simples, né? Precisa de investimento, de organização. Eu cheguei a pensar em lançar um álbum de remix — a ideia era o Nordeste Futurix. Quem sabe eu ainda chego por aí. Mas aí foram vindo composições novas, foram vindo coisas novas, e eu pensei: "Nossa, véi, acho que eu quero lançar um álbum, na verdade" — uma história diferente. E isso começou também a partir da parceria com o Ramiro Galas, produtor do Piauí radicado em Brasília. A gente começou a fazer músicas juntos. Ele me mandava uns beats, eu botava uma letra, chamava colaborações… e essas composições foram acontecendo.

Mas você descobriu o nome do álbum muito depois, certo? Como foi esse processo?

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Pois é. Só agora, só esse ano, é que eu entendi qual é o nome do disco. Porque até então eu tava só compondo, só produzindo, e não sabia. Foi um processo meio enigmático para descobrir.

Eu demorei a entender o nome do álbum, mas ele já tava ali o tempo todo — só eu não via. Em 2022, eu lancei um álbum visual do Nordeste Futurista: um filme com a trilha sonora do meu EP. E, para finalizar, eu senti necessidade de compor uma música nova. Nela eu já cantava: "Sou cria de um sol quente, minha arma é um repente, queimando num lampião". Essa música ficou só no álbum visual. Passou o tempo, passou um ano, e eu pensei: "Poxa, eu quero gravar essa música e chamar a Cátia de França para fazer comigo". Eu chamei, ela topou, a gente gravou e lançou no fim de 2023. E eu quis trazer essa música pro álbum novo, que ainda não tinha nome. Aí eu chamei o Chico Correa, produtor de João Pessoa, para fazer um remix. Nesse processo, eu pensei: "Véi, na verdade eu já tô dizendo — eu e a Cátia já estamos dizendo — que nós somos cria de um sol quente". Então acho que é isso.

E aí começaram a vir os significados. Vieram vários insights, tipo: "Por que ser cria do sol quente?". Eu comecei a pensar na cria de criação, de criatividade, da criatura, da criança. E essa questão da criança tava vindo muito forte no meu trabalho — não no sentido de construir um público infantil. Isso acontece naturalmente. Meu som é para todos os públicos. Até pro cachorro caramelo.

E, no fim, eu fui vendo que eu tava ativando as crianças nos adultos: ativando a nossa criança interior. Eu passei a ver isso como um lugar de potência criativa, criadora. E "do Sol" porque localiza território, eu venho de um lugar onde o sol nasce primeiro, ali no ponto mais oriental das Américas, cartão-postal da Paraíba. E "Sol Quente" porque quem é cria do Sol Quente sabe como é o sol batendo no quengo. No fim, "cria do sol quente" é uma construção de identidade territorial e coletiva. Eu sou cria. Nós somos.

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Foto: Rolling Stone Brasil

No Apple Music, o álbum foi catalogado como "música do mundo". O que você pensa sobre essa categoria?

Boa pergunta. É muito difícil dizer qual é o estilo da música que eu faço. Eu tenho dificuldade na hora de registrar e falar: "Véi, que música é essa?" Porque tem forró, mas não é só forró. E "regional"… regional é o quê, né?

Eu fiquei procurando e, normalmente, quando artistas fazem fusões entre música da cultura popular e eletrônico, isso costuma cair em "música do mundo". De certo modo, dialoga, porque eu trago ritmos da cultura popular da minha região e também ritmos globais, eletrônicos. Mas ainda assim é um termo que me inquieta. Inclusive, o nome Nordeste Futurista nasceu dessa inquietação de tentar dizer qual era o meu estilo. Eu dizia "Nordeste Futurista" — e, enfim, virou várias outras coisas e ainda vai virar mais.

No álbum tem rabecas, pífanos, percussões, beats eletrônicos. É muito versátil sonoricamente. Como você faz para encaixar tudo isso sem perder a coesão?

Eu acho que chega naturalmente. Porque, quando eu digo que toco ritmos da cultura popular da minha região, é isso: eu sou brincante de cultura popular. E, no geral, cada folguedo popular é um brinquedo: coco de roda, reisado, guerreiro… são folguedos, são brinquedos. Quem brinca é brincante.

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Então, por estar ali e participar da sonoridade, naturalmente eu escuto essa "fona": rabeca, pífano… E trazer esses instrumentos e conectar com o universo eletrônico é trazer também a essência desses ritmos que são brincados nesses folguedos. Por isso, no caldeirão de possibilidades, acaba dando certo.

Você trabalha bastante com colagem sonora — áudios de WhatsApp, barulhos de máquinas. De onde vem tanta criatividade para ouvir um som e falar: "isso aqui vai ficar legal"?

Sei não. Sei lá, do astral, de conexões aí. Mas é interessante: eu entendi recentemente que o que eu faço é colagem. Observando artistas visuais, que pegam uma revista, começam a cortar e criam um cartaz a partir disso, eu comecei a entender que eu faço isso com o som.

E, para mim, tem muito a ver com acessibilizar a produção musical. Tipo: "Véi, um áudio de WhatsApp, uma pessoa cantando… vamos lá: peguei aqui, picotei, peguei outro recorte e coloquei aqui". E também tem a questão da beatmaker, da DJ que tá ali se sampleando, pegando colagens de outros trabalhos. Enfim, naturalmente.

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A Gabi Amaranto já falava: "Eu vou me samplear, vou te roubar". Mas, quando a gente faz colagem, a gente recria. Aquele som vira outra coisa. E eu me sinto nesse universo por essa questão de construir autonomia criativa.

No material de divulgação, você disse que os conceitos foram se revelando conforme as canções nasciam. Como é compor sem saber para onde você está indo?

Composição é algo muito particular de cada pessoa. Para mim, é muito… eu me sinto como se eu fosse receptora de mensagens, sabe? Entre céu e terra. Às vezes eu vou tomar um banho de rio e, do nada, vem uma melodia, vem uma letra. Eu vou recebendo aquelas informações. E muita coisa que eu escrevo eu só vou entender lá na frente.

Acho que são mensagens atemporais que o planeta precisa ouvir, e elas vão se revelando à medida que eu vou me abrindo para me conectar com essa força.

https://www.youtube.com/watch?v=zw5W4xRemXI

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O disco tem muitas artistas — mulheres, nordestinas, LGBT. Isso foi uma escolha política ou artística?

Foi tudo junto. Eu gosto muito de trabalhar com mulheres nordestinas LGBT. Isso acontece naturalmente. Eu gosto também de trabalhar com artistas de várias idades, sobretudo as mais velhas. Eu sinto uma potência muito grande nesse encontro. Eu já começo o disco com a Cátia de França, que é uma artista da vanguarda brasileira, paraibana. Para mim, é uma honra trazer ela pra abrir os caminhos, me benzer ali.

Gosto de trabalhar com mulheres instrumentistas. Tem a Jéssica Caetano, com quem eu já tenho uma conexão de longa data, do Sertão de Pernambuco. Tem a Juliana Linhares, do Rio Grande do Norte, que eu admiro muito. Tem o Tiquinha Rodrigues, rabequeira.

E tem uma coisa inédita nesse disco: eu trouxe uma participação internacional, uma MC rapeira da Argentina. Foi muito massa fazer essa conexão, expandir a música nordestina, brasileira, latina, e se firmar nesse lugar. Enfim: muitas participações especiais, tudo pensado nessas conexões que me atravessam.

Como você concilia a seriedade de temas políticos com a leveza de uma música dançante?

Você falou uma palavra interessante: leveza. E aí vem essa pesquisa que eu fiz sobre a "cria": cria, criatura, criatividade, criança. A criança traz leveza, traz o brincar.

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E eu retomo aquilo que eu disse: eu sou brincante de cultura popular. Então, naturalmente, a alegria me atravessa. E é interessante pensar que, fazendo um contraponto com as participações, eu não trouxe só gente da música. Eu também trouxe a mestra Níri Souza, de cultura popular — uma mestra brincante, em que a última música é só ela rindo.

E isso é muito massa, porque o disco termina no alto astral, numa energia de leveza e alegria — que eu sinto que o mundo tá precisando cada vez mais. Leveza, alegria, expansão. A ideia do disco, de Cria do Sol Quente, é transmitir essa energia: que a gente pode falar de política, de território, de identidades, com leveza, sabedoria, criatividade e brincadeira.

Daqui 10, 20 anos, como você quer que as pessoas olhem para esse disco?

Eita. Eu sinto que é um disco atemporal. Daqui a 20 anos ele ainda vai fazer sentido. 20, 30… sei lá. Para mim, é um presente que eu dou, e que eu recebo de volta, num sentido de aprendizado.

Eu acho que é um disco que provoca cura, provoca transformação. E a transformação dos outros também me transforma. Então, eu sinto que é uma troca bonita.

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E eu espero que muitas crianças sejam ativadas nesse movimento de alegria. Que essa semente germine, vire árvore, dê fruto, que as pessoas comam esse fruto e nasçam outras árvores. Enfim: reflorestar a natureza e a música também.

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