Em uma entrevista recente à Rolling Stone, o cantor e compositor Charlie Puth descreveu sua carreira até o momento como "quase uma década correndo atrás do próprio rabo". De fato, Puth já foi criticado por parecer excessivamente preocupado em manter sua imagem, seja buscando visualizações com vídeos que mostram seu processo de composição ou tentando gerar engajamento nas redes sociais com fotos sem camisa.
Essa autoconsciência se refletiu na percepção de suas inegáveis canções pop bem elaboradas, que podem parecer excessivamente pensadas e até mesmo inautênticas em alguns momentos. Mas seu novo álbum, Whatever's Clever!, é um ótimo recomeço, seu trabalho mais pessoal, entregue com uma confiança contagiante, impulsionada por seu talento nato como um mestre das melodias.
Puth e o co-produtor BloodPop dão vazão à sua paixão por pastiches pop vibrantes, e desta vez ninguém poderia acusar Puth de nos negar um vislumbre de seu verdadeiro eu. Ele preenche o disco com sabedoria e experiência acumuladas, tanto musical quanto emocionalmente.
A faixa de abertura, "Changes", define o tom com Charlie cantando sobre como lidar com as inevitáveis mudanças de direção da vida sobre um teclado radiante com sonoridade oitentista, um coral gospel que parece ter saído diretamente da sessão de gravação de "Man in the Mirror", de Michael Jackson, e um toque de piano à la Bruce Hornsby na ponte.
"Beat Yourself Up" transmite pensamentos igualmente sinceros sobre um swing pop sofisticado que lembra Scritti Politti ou Swing Out Sister. "Você tem que sentir a alegria / E rir até doer / E agradecer a Deus por cada dia que você está nesta Terra", canta Charlie. Perfeito!
Essa música expõe os conselhos de sua mãe. "Cry", com um solo de saxofone de Kenny G, é dedicada ao seu pai, que presenteou o jovem Charlie com ensinamentos valiosos como: "Qualquer que seja a dor que você encontrar / É melhor se levantar quando cair". Seu irmão é mencionado em "Hey Brother", uma suave demonstração de ternura fraternal que poderia facilmente tocar ao lado de Bread e Dan Fogelberg nas rádios dos anos 70.
Puth se casou recentemente, e seu novo amor tem grande peso aqui. Na balada soft rock praiana "Washed Up", ele exalta o objetivo compartilhado com sua esposa de superar quaisquer dificuldades e tempestades que possam surgir em sua jornada. Há duas belas canções, com influências de Sade, sobre o início de um casamento: "Home", com a participação especial da cantora Hikaru Utada, é um retrato íntimo da felicidade doméstica, enquanto "Sideways" fala sobre sua profunda dedicação, mesmo quando as coisas em casa ficam tensas. Essas imagens de encontrar solidez na vida real contrastam fortemente com a balada ao piano "Don't Meet Your Heroes", que fala sobre uma das maneiras pelas quais a fama pode destruir as ilusões que o levaram a alcançar o sucesso em primeiro lugar.
Nem todas as tentativas de nostalgia aqui funcionam tão bem quanto o esperado. "Love In Exile", uma pitada de yacht rock com Michael McDonald e Kenny Loggins, parece uma jogada bonitinha que já passou da validade retrô há alguns anos. "Until It Happens to You", com uma narração irritante de Jeff Goldblum, copia sem graça a versão de Phil Collins para "You Can't Hurry Love".
Ele encerra o álbum com uma música que é ao mesmo tempo a mais metalinguística e a mais genuína: a crítica "I Used to Be Cringe". Acompanhado por um violão acústico com um toque nostálgico, Charlie olha para trás e observa: "Eu costumava ser cringe / Só para ter um lugar à mesa". Esse momento de desabafo inteligente lembra uma piada clássica do lendário comediante Mitch Hedberg: "Eu costumava usar drogas. Ainda uso. Mas eu costumava usar também". Charlie Puth pode ou não ter superado seus dias de cringe. Mas este disco prova que, se as melodias forem vibrantes e concisas, isso não importa muito. Escute abaixo: