Para celebrar os 20 anos da morte de J Dilla, Busta Rhymes lançou o álbum colaborativo Dillagence II, com produções deixadas pelo lendário produtor e participações de nomes como Lauryn Hill e D’Angelo. O projeto celebra três décadas de parceria entre ambos e busca dar o devido reconhecimento ao legado de Dilla. Inscrito para o Grammy, o disco representa a chance de vitória inédita para os artistas em uma cerimônia que coincidirá simbolicamente com o aniversário de nascimento de Dilla.
Busta Rhymes está pensativo. É uma noite de quarta-feira em meados de outubro, e o artista, conhecido pela presença expansiva, deixa momentaneamente de lado toda aquela exuberância para uma pausa de reflexão. Suas palavras são ponderadas, mas carregam a clareza e a perspectiva de um artista que atravessou diversas eras, com a profundidade de quem viveu tudo isso.
A mudança no clima poderia ser atribuída ao sobrenatural, já que J Dilla, o icônico produtor já falecido, se tornou o centro da nossa conversa. Ao falar do peso emocional de fazer música para fortalecer e perpetuar o legado do amigo e colaborador de longa data — que morreu em fevereiro de 2006, em decorrência de complicações de uma longa batalha contra o lúpus —, Busta quase fica sem palavras.
"Quer dizer, eu sempre"… começa ele, deixando a voz sumir antes de retomar o fio da meada. "Ele não está aqui há 20 anos, então, sempre que trabalho com a música dele, é uma experiência emocionalmente incrível, porque estou trabalhando em umas paradas que acho que só ele seria capaz de fazer. Ninguém vivo consegue fazer como ele fazia, mesmo depois de tanto tempo que ele se foi. É sempre essa sensação quando trabalho com a música do Dilla e com as produções que ele deixou".
Com uma relação profissional que remonta à estreia solo de Busta, The Coming, as expectativas eram altas sempre que o artista do Brooklyn se unia ao parceiro de Detroit. Dilla produziu faixas de vários álbuns de Busta, incluindo When Disaster Strikes…, Anarchy e It Ain't Safe No More…, cultivando uma química tão natural quanto atemporal.
Essa magia sobreviveu às décadas desde a morte de Dilla, enquanto Busta continua homenageando o companheiro que se foi ao fazer o que os dois faziam de melhor. Mais recentemente, essa tradição teve continuidade com Dillagence II, a primeira colaboração oficial de estúdio entre Busta Rhymes e Dilla em um álbum completo.
Lançado pelo selo Conglomerate, de Busta, Dillagence II credita o falecido Dilla como produtor principal e traz novas contribuições de diversos colaboradores, incluindo Lauryn Hill, Common, Lil Wayne, Big Sean, Anderson .Paak, Ludacris, Jimmy Jam e Terry Lewis, Karriem Riggins, Honey Bxby, Talib Kweli e C.S. Armstrong, além de uma participação póstuma de D'Angelo.
Inscrito para avaliação na categoria de Melhor Álbum de Rap do Grammy de 2027, Dillagence II representa a mais recente oportunidade de Busta Rhymes e J Dilla acrescentarem um gramofone dourado à coleção de troféus. Nenhum dos dois ganhou um Grammy, apesar das diversas indicações ao longo de suas respectivas carreiras.
Busta Rhymes fala sobre o legado e a influência de J Dilla, a criação de Dillagence II, seu recado à Academia da Gravação e por que ele e Dilla receberem o reconhecimento que merecem na noite do Grammy seria algo que aconteceria na hora certa.
Você lançou Dillagence II neste ano. Como foi mostrar mais uma vez a química entre você e Dilla?
Na verdade, lançamos há pouco mais de um mês e meio, em 25 de agosto. É relativamente novo, está fresquinho, e estou animado e muito orgulhoso de representar nossa química, resgatar aquela sensação e apresentá-la às pessoas que fizeram parte da minha jornada com o Dilla. Temos uma relação de trabalho de 30 anos e uma história de criar juntos no estúdio, com essa música, desde meu primeiro álbum solo, The Coming.
Além de você e da família, quem ajudou a montar o projeto nos bastidores?
Na parte da produção, o trabalho foi produzido principalmente pelo Dilla. Também preciso reconhecer o Karriem Riggins — ele produziu duas faixas sozinho e também coproduziu uma música com o Dilla que tem eu, Common e Jon Batiste. Ele produziu uma música que fiz com Jesse, do Watch the Duck. A que tem Jon Batiste conta com coprodução de Karriem Riggins, "What We Got in Common". Jesse, do Watch the Duck, [trabalhou em] "Run Em Down" e também produziu a faixa chamada "Drugs". Também preciso dar um salve para Kev Brown e Black Milk, porque eles coproduziram "SPAZZ", que foi a primeira música de divulgação de Dillagence II.
Também quero dar um salve para um produtor chamado Count. Quer dizer, teve mais dois irmãos que coproduziram com ele a faixa do Dilla com meus filhos, chamada "Royalty", que tem a participação dos meus dois filhos, CIE e Trillian. Tenho que dar um salve para Big Sean e Anderson .Paak, Ludacris, Lauryn Hill, Lil Wayne.
Tem sido muito, muito apoio. Talib Kweli. C.S. Armstrong também. Toda essa galera que chegou junto. E, por último, mas não menos importante, preciso dar um salve para Ma Dukes, [mãe do Dilla], porque ela conduz o álbum e praticamente falou o que estava no coração dela do começo ao fim.
Quando começou o processo de gravação de Dillagence II?
Começou com um telefonema da Ma Dukes em novembro de 2025, porque neste ano se completam 20 anos da passagem do Dilla. Ela entrou em contato para me pedir ajuda para pensar em uma forma de celebrar esse marco para o J Dilla. Começou comigo tentando fazer só uma música e acabou evoluindo para esse projeto, Dillagence II. Eu me sinto muito honrado e imensamente abençoado por estar em uma posição em que a Ma Dukes me pede algo assim, porque sempre quero representar o Dilla, e isso é uma constante positiva em todos os meus projetos: a presença dele.
Poder fazer isso e acrescentar esse trabalho ao meu legado e ao dele é provavelmente uma das experiências mais incríveis para mim. Especialmente neste momento, porque, enquanto faço isso por ele, também estou comemorando o aniversário de cinco álbuns neste ano, e o Dilla participou de três desses cinco discos.
Então, a celebração dele vai além dos 20 anos de sua passagem. É quase uma ode a toda a nossa trajetória de trabalho. Ao legado dele individualmente, ao meu legado individualmente e ao nosso legado e à nossa história de trabalho em conjunto.
Como é o processo de escolher, entre as faixas guardadas no acervo, aquelas sobre as quais você vai rimar? Você já tem essas faixas ou precisa recorrer à Ma Dukes?
Tudo o que gravei eu já tinha, com exceção de uma ou duas faixas que me deram [depois que] souberam que esse projeto estava acontecendo.
Um salve também para a família do D'Angelo, por me abençoar com a oportunidade de trazer a primeira participação dele desde sua passagem. Foi um presente que recebi. Eu nem sabia que aquilo existia. Esse é um dos exemplos do que eu estava falando, mas praticamente todo o resto eu já tinha.
As batidas do Karriem Riggins foram coisas que ele me deu para contribuir com esse projeto também, e a produção do Kev Brown e do Black Milk foi algo que acabei juntando para virar uma música só, com as batidas mudando por etapas.
Todas as faixas do Dilla eram músicas e produções que ele tinha deixado comigo, porque ele sempre me mandava batidas desde que nos conhecemos. Elas foram se acumulando com o tempo. Além do que eu já tinha e do que recebo, a gente acaba fazendo música a partir daquilo que mais inspira, do que mexe com a gente, desperta emoção e dá aquela empolgação para criar. Foi basicamente assim que aconteceu.
Vocês gravaram as participações do álbum presencialmente? Onde os vocais foram gravados?
Foi uma combinação das duas coisas. Algumas foram presenciais e outras não, porque todo mundo está na correria, cada um fazendo o que precisa para cuidar da própria carreira também… Se [não estamos] no mesmo lugar, a gente se adapta à agenda um do outro e fica mandando a música de um lado para o outro. Mas, quando as agendas coincidiam, dava para nos encontrarmos. A gente fez questão de fazer isso acontecer. A faixa com meus filhos: gravei com eles pessoalmente. A com Anderson .Paak, fizemos pessoalmente. Algumas com Karriem Riggins, acho que fizemos duas delas pessoalmente.
Como é poder colocar alguém que não conheceu Dilla pessoalmente para cantar sobre a música e as batidas dele?
Foi bom ser essa ponte para quem nunca o conheceu poder fazer parte desse trabalho, porque eram fãs dele e conseguiram acrescentar algo que eu sentia que seria uma contribuição significativa para a obra dele. Sou muito criterioso com quem quero colocar nas músicas dele, porque sinto uma grande responsabilidade de garantir que ninguém deturpe o trabalho dele. Foi bom porque, de novo, Dilla deixou uma marca e uma assinatura nessa cultura que impactaram muita gente. Mesmo pessoas que não o conheceram, nunca trabalharam com ele e talvez nunca tivessem tido acesso ao trabalho dele. Para mim, poder ser essa ponte foi uma honra, um prazer e um privilégio.
Você mencionou que ele não está aqui fisicamente há 20 anos, mas, se estivesse, como acha que ele encararia essa tendência da inteligência artificial? Você acha que usaria ou rejeitaria?
Não sei, porque isso não existia quando ele estava aqui. Não posso dizer o que acho que ele faria, seria especulação. O que sei é que o Dilla sempre usava as ferramentas à medida que elas evoluíam. Ele trabalhou com a SP-1200. Ela existia antes da MPC. E, quando a MPC chegou, ele evoluiu e passou a trabalhar com ela. Se formos seguir esse padrão, tenho bastante certeza de que ele teria continuado a evoluir.
Dillagence II está sendo avaliado para o Grammy. O que significaria o álbum receber esse reconhecimento?
Significaria tudo, porque nenhum de nós dois recebeu um Grammy. A cerimônia vai acontecer e ser transmitida justamente no aniversário dele. Seria… Nem consigo expressar como isso seria, porque, de novo, primeiro, nunca ganhei um Grammy e, segundo, quais são as chances de o Grammy ser transmitido justamente no aniversário dele? Seria uma parada de outro mundo.
Qual seria seu recado aos votantes do Grammy sobre por que Dillagence II merece uma indicação?
Esqueci de mencionar que Jimmy Jam e Terry Lewis também contribuíram com a produção de "This Woman", feita com D'Angelo. Eles acrescentaram teclados lindos e deram um brilho a mais à faixa. Acho que, quando você tem todas essas pessoas incríveis chegando para fazer parte dessa magia e pensa em como o álbum foi construído e nas pessoas que se ofereceram para participar desse trabalho, isso mostra o quanto essa música significa para as pessoas, dos ícones à nova geração, e o quanto a química entre Dilla e Busta Rhymes ressoa.
Sabe, [o artista convidado] La Reezy tinha um ano quando o Dilla morreu. Agora tem 21. Isso não é comum. Não é algo que as pessoas normalmente possam dizer sobre como o impacto do seu trabalho e da sua contribuição criativa transformou a cultura e a música. Ele nem tinha nascido quando lancei meu primeiro disco, entende? Ele entender o que é Busta Rhymes, o que eu faço, e eu conhecer o trabalho do La Reezy antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente foi parte do motivo de eu escolhê-lo para o disco. Alguém me mandou uma publicação do Instagram em que ele estava gravando um vídeo pendurado na lateral de um daqueles bondes, rimando sobre uma batida do Dilla. Isso mostra como impactamos de fato a cultura por meio do nosso trabalho e do dom que conseguimos compartilhar e continuamos compartilhando. Temos Jimmy Jam e Terry Lewis, que colaboraram em uma música comigo e com D'Angelo em Dillagence II.
D'Angelo e Dilla tinham a própria história de trabalho e criação juntos. Mesmo para além de Busta Rhymes, todos fazemos parte desse mesmo ecossistema. Jimmy Jam e Terry Lewis decidiram que queriam participar três dias antes do lançamento e nos presentearam com a contribuição deles.
Isso mostra como a música ressoa de maneira incrível em todos os níveis dessa cultura musical e como esse trabalho envolve Ma Dukes, a mãe do Dilla, a família Yancey, os responsáveis pelo espólio dos Yancey, a família Archer e os responsáveis pelo espólio dos Archer, com a família do D'Angelo.
Todas essas pessoas incríveis que decidiram participar dizem muito. Independentemente de quando você ouve a música e sente o que ela te faz sentir, você entende que esse é um momento que realmente não existe em nenhum outro lugar da música. Nem culturalmente, nem no âmbito da indústria. É algo que, para mim, fala por si só, e acho que é isso que a música deve fazer. Ela deve falar com você e fazer você sentir, pensar, aprender e compreender algo que só pode encontrar naquele trabalho.
Então, quanto aos votantes do Grammy, meu recado seria agradecer antecipadamente por votarem na música e celebrarem conosco um momento que nasce do lugar mais genuíno possível, porque essa música foi criada para representar a beleza da arte musical. Esse era o único propósito desse trabalho.
Não se tratava de tentar fazer um disco por algum motivo específico. Muitas vezes, você vê artistas fazendo discos para tocar no rádio, ou discos para as baladas, ou para finalidades específicas. Essa música foi feita puramente para representar a arte de um produtor incrível, de um artista incrível, de um mestre de cerimônias incrível e de outro artista incrível, todos juntos, como um coletivo.
É um momento diferente de qualquer outro. Levou muito tempo para chegarmos até aqui. Sempre fiz músicas com o Dilla, mas nunca tinha feito um álbum com ele dessa maneira. Temos Dillagence, mas era só uma coletânea em que queríamos homenageá-lo logo depois de sua passagem.
É simplesmente uma experiência, uma oportunidade e um momento lindos. Eu adoraria que eles dessem a esse trabalho o mais alto reconhecimento, assim como o público vem fazendo. E é basicamente isso.
Você recebeu diversas indicações ao Grammy ao longo dos anos, mas ainda não ganhou. Qual foi a derrota mais difícil, ou uma música ou álbum que você acha que deveria ter vencido?
Não me lembro direito de ter me sentido assim. … Não consigo apontar um momento específico em que tenha achado que deveria ter ganhado isso ou aquilo. A perspectiva pela qual enxergo a vida, de modo geral, é divina. Quando tiver que acontecer, vai acontecer. Parece que as coisas estão se encaixando dessa forma agora, com tudo se alinhando divinamente: desde os aniversários de cinco álbuns, com o Dilla tendo participado de três deles, até os 20 anos de sua passagem e o fato de termos um álbum novo enquanto tudo isso está sendo celebrado. O Grammy ser transmitido no aniversário dele é coisa do tempo de Deus, porque nada disso poderia ser criado por um calendário humano. Isso é maior que o homem. Vai além do homem. Para mim, isso é divino.
Você mencionou antes que cinco dos seus álbuns fazem aniversário neste ano, mas quero falar especificamente sobre sua estreia, The Coming, que completa 30 anos, e The Big Bang, que faz 20 neste ano. Quais são suas lembranças favoritas desses dois discos?
The Coming foi meu primeiro álbum, e The Big Bang foi um disco que adorei fazer com as pessoas envolvidas, especialmente com Dr. Dre à frente de toda a produção [como produtor executivo]. O processo era novo, e foi uma experiência de que gostei, embora tenha sido um pouco desafiadora em alguns momentos.
Depois, gostei ainda mais de ver o New York Knicks conquistar o título no mesmo dia em que The Big Bang completou 20 anos, em 13 de junho. Foi nesse dia que o álbum saiu, em 2006.
É basicamente isso. Acho mesmo que esses dois álbuns foram pontos de virada para mim. Quando fiz The Big Bang, estava lidando com muita coisa na vida pessoal, com as batalhas pela guarda dos meus filhos contra a [mãe deles], que eu tinha acabado de vencer em 2005. Cortei meus cabelos rastafári como uma forma de deixar o passado para trás e renascer, entrei em forma pela primeira vez, naquela pegada de treinar de verdade por dois anos, porra. Foi uma época boa. Eu me sentia bem. Sentia que estava de cara nova. Me sentia revigorado e, obviamente, lançar meu primeiro álbum solo foi algo muito importante, porque era um novo capítulo da minha vida.