Sob chuva no Rock in Rio 2026, o BaianaSystem agitou o Palco Sunset com o show conceitual "O Ciclo". Conduzida por Russo Passapusso e com nomes como Alice Carvalho, a apresentação mesclou ritmos baianos a matrizes latino-americanas e mensagens políticas marcantes, integrando o temporal à sua dinâmica física de rodas. Nem mesmo o incidente pontual com o disparo de um spray na plateia apagou o impacto da performance, que se consagrou como uma das mais potentes e autorais da edição.
BaianaSystem começou sua apresentação no Rock in Rio 2026 às 17h50 enquanto a chuva insistia sobre a Cidade do Rock. Funcionários haviam passado pelo Palco Sunset retirando água acumulada pouco antes do show, e o público já estava molhado quando uma introdução construída com datas e referências históricas preparou "Água". A coincidência quase parecia excessivamente perfeita. Russo Passapusso percebeu rapidamente o cenário e recebeu o temporal como parte daquele fim de tarde, dizendo à plateia para deixar molhar porque aquilo era "bênção".
A escolha de "Água" também revela muito sobre a maneira como o grupo monta suas apresentações. A música raramente aparece isolada do espaço onde está sendo tocada; o BaianaSystem trabalha para absorver clima, público e acontecimentos externos dentro da performance. Depois veio "Sulamericano", quando o refrão encontrou uma plateia muito mais vocal e as primeiras rodas começaram a ganhar tamanho. A partir desse ponto, o show abandonou qualquer necessidade de aquecimento e passou a funcionar como uma grande circulação entre palco e gramado.
A chuva poderia criar distância num espetáculo baseado em contato. Produziu o efeito contrário. Capas plásticas começaram a se misturar dentro das rodas, o chão ficou mais difícil e a movimentação exigiu atenção maior, mas a resposta continuou crescendo. Esse aspecto ajuda a entender por que um show do BaianaSystem funciona de maneira diferente de apresentações sustentadas principalmente por contemplação: as músicas precisam encontrar alguma resposta física para alcançarem sua dimensão completa.
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O ciclo faz o show funcionar como uma peça única
A apresentação recebeu o nome de "O Ciclo" e teve direção de Russo Passapusso, Filipe Cartaxo e Alice Carvalho. O conceito partiu do universo de "O Mundo Dá Voltas", mas buscou diferentes matrizes que formaram a linguagem do grupo. Sound system jamaicano, guitarra baiana, samba, reggae, rock, cumbia, vozes orquestrais e referências latino-americanas aparecem sem serem anunciadas como números independentes. Elas entram, desaparecem e reaparecem dentro das músicas.
Essa estrutura ajuda o repertório a escapar da lógica tradicional de faixa seguida por pausa, agradecimento e próxima faixa. Muitas vezes, uma música começa a se dissolver dentro de outra, o groove permanece enquanto Russo fala e a guitarra sustenta a movimentação até o próximo ataque. "Lucro (Descomprimindo)", "Miçanga", "Capim Guiné", "Reza Forte", "Balacobaco" e "Saci" surgiram dentro desse desenho, misturando períodos diferentes da discografia sem transformar o show numa retrospectiva.
Russo ocupa o centro dessa construção, mas raramente tenta concentrar tudo em si. Sua função está muito mais próxima de conduzir deslocamentos. Ele chama a roda, solta versos, observa a reação, recua e permite que percussão, guitarra e graves assumam o espaço. Quando volta, encontra o público já em outra temperatura. É uma forma de liderança que depende de leitura constante da plateia e torna o improviso parte importante da apresentação.
O instrumental também merece atenção porque é ele que permite tamanha liberdade vocal. A guitarra baiana não é só um adereço folclórico, mas sim uma fonte de riffs agudos capazes de cortar a massa de graves. Em 2026, a formação ainda levou ao palco o triolim, instrumento criado por Dodô, um dos inventores do trio elétrico. Colocá-lo ao lado da guitarra elétrica e da guitarra baiana reforça uma história de invenção tecnológica produzida na própria música de rua da Bahia.
Os convidados não entram para interromper: Eles abrem outras portas
O número de convidados poderia facilmente transformar a hora em sucessão de entradas especiais. A direção encontrou uma solução mais coerente ao utilizar cada presença como prolongamento de uma referência que já existia no BaianaSystem. Antônio Carlos & Jocafi carregam uma história ligada ao samba, à música negra brasileira e à experimentação dos anos 1970. Sua relação com o grupo também está registrada em faixas como "Miçanga", o que faz a presença soar orgânica dentro do repertório em vez de homenagem colocada de fora.
As Afrossinfônicas, com vozes femininas ligadas à Orquestra Afrosinfônica de Salvador, acrescentaram outra textura àquele paredão de som. Sopros e vozes coletivas modificavam o peso dos arranjos e permitiam que algumas passagens ganhassem caráter quase cerimonial sem diminuir o ritmo. A presença de Claudia Manzo ampliou a dimensão sul-americana da apresentação, enquanto o jamaicano Ranking Joe colocava a cultura sound system diante do público através de alguém vindo diretamente dessa tradição.
Também havia o artista potiguara Juão Nyn, cuja performance corporal inseriu a presença indígena dentro de uma construção que utilizava imagens de povos originários nos painéis. "Pachamama", confirmada entre as músicas executadas naquela tarde, conversa diretamente com esse eixo latino-americano e com a maneira como o show aproxima território, ancestralidade e identidade sem limitar essas referências à cenografia.
Essa quantidade de elementos cria um risco: excesso. Em alguns trechos, há tanta informação visual, sonora e conceitual acontecendo ao mesmo tempo que a música disputa atenção com o próprio espetáculo. Ainda assim, a característica combina com o BaianaSystem. A banda nunca construiu sua identidade pela economia. Seu palco funciona pela sobreposição de vozes, ritmos, imagens e referências, e a experiência depende justamente dessa sensação de que alguma coisa sempre está acontecendo em outro ponto.
Alice Carvalho mostra que sua presença vai muito além da participação especial
Alice Carvalho merece uma leitura diferente da categoria "convidada". Ela participou da própria direção de "O Ciclo" e já desenvolve trabalho com o BaianaSystem há anos. Quando aparece no palco, o público encontra alguém que conhece a dramaturgia daquela apresentação por dentro. Sua entrada perto da reta final trabalha voz, declamação e rap sem quebrar o movimento criado anteriormente.
A atriz ganhou maior espaço durante "Balacobaco" e "Saci", faixas em que a pulsação permite uma presença vocal mais frontal. O desempenho chama atenção porque Alice não entra buscando reproduzir a postura de Russo. Ela trabalha fraseado e corpo com outra intensidade, encontrando seu próprio espaço enquanto o restante da banda preserva o ritmo. A diferença dá mais força à participação do que uma simples troca de versos entre dois nomes conhecidos.
Sua presença também ajuda a compreender por que "O Ciclo" possui uma construção mais teatral do que muitos shows tradicionais da banda. As imagens, personagens, recitações e entradas de diferentes artistas obedecem a uma progressão. O palco deixa de funcionar apenas como lugar onde músicos executam canções e passa a trabalhar símbolos que retornam ao longo da hora.
Essa ambição artística é um dos pontos altos da apresentação. O BaianaSystem chegou ao Rock in Rio com um show pensado especificamente para ocupar aquele espaço. Isso o diferencia de artistas que transportam uma versão reduzida da turnê para dentro do festival e contam apenas com o reconhecimento do repertório para criar impacto.
Política entra no mesmo fluxo da música
As mensagens políticas apareceram de maneira direta. Em determinado momento, os painéis exibiram uma bandeira brasileira em chamas com a frase "sem anistia" substituindo "ordem e progresso", enquanto Russo repetiu "soberania" diante do público. A imagem dialogava com uma apresentação que também utilizava referências aos povos originários e à América Latina.
A posição política do BaianaSystem nunca esteve separada de sua produção musical, e o show de 2026 manteve essa característica. "Sulamericano" já carrega questões territoriais e sociais em sua própria escrita; "Lucro (Descomprimindo)" trabalha a relação com cidade e ocupação; outras músicas circulam por temas de violência, desigualdade e pertencimento. Por isso, as imagens não chegam como um discurso estranho colocado no intervalo.
O risco surge quando a quantidade de símbolos começa a competir com a possibilidade de leitura. Há bandeira, imagens históricas, povos originários, referências latino-americanas, textos, personagens e mensagens políticas dentro de menos de uma hora. Alguns elementos recebem tempo suficiente para desenvolver significado; outros passam rápido demais para quem está no meio de uma roda conseguir acompanhar.
Isso não reduz a força visual. Apenas mostra a dificuldade de transportar um espetáculo conceitualmente carregado para um festival onde boa parte da plateia está pulando, cantando e tentando enxergar através da chuva. Em vários momentos, a mensagem que chega com maior nitidez continua sendo aquela carregada pela própria música.
O spray quebrou o fluxo de uma maneira que nada tinha a ver com a banda
Já na parte final do show, minutos depois de "Saci", um incidente alterou o comportamento da plateia. Uma pessoa lançou na região de uma roda de pogo um spray de substância não identificada, provocando tosse, enjoo, dificuldade para respirar e, segundo relatos, vômitos em algumas pessoas. Um espaço se abriu rapidamente no meio do público enquanto quem estava próximo tentava se afastar.
Não havia, até a última atualização disponível, identificação da substância ou da pessoa responsável pelo lançamento. A organização informou que acionou a segurança quando recebeu a informação, mas que, na chegada da equipe, já não havia demanda por atendimento no local. O festival também afirmou que nenhum caso relacionado ao episódio havia sido registrado no posto médico. O BaianaSystem não teve participação no ocorrido.
O incidente pesa na memória do show porque atinge justamente seu elemento mais característico: a confiança necessária para entrar numa roda. Pogo e roda punk possuem uma dinâmica física intensa, mas dependem de códigos coletivos de cuidado, espaço e auxílio a quem cai ou precisa sair. Introduzir deliberadamente qualquer substância desconhecida dentro desse ambiente rompe essa lógica e transforma uma interação consentida em situação de risco.
Gracias a la Vida fecha um show que passou uma hora falando sobre permanência
Na despedida, Claudia Manzo cantou "Gracias a la Vida", composição de Violeta Parra que há décadas circula por diferentes vozes da música latino-americana. Depois de uma hora construída em torno de Bahia, América do Sul, ancestralidade, chuva e movimento, a escolha ganhou um sentido muito maior do que o de cover final.
Há algo particularmente adequado em terminar assim um show chamado "O Ciclo". O BaianaSystem havia começado com "Água" sob um temporal e passou por canções que falam de território, dinheiro, cidade, corpo e identidade. A última imagem deixa a agitação diminuir para encontrar uma música sobre a própria experiência de estar vivo, cantada por uma artista chilena dentro de um festival brasileiro.
A apresentação teve pequenos excessos, especialmente na quantidade de ideias comprimidas dentro de menos de uma hora. Certos símbolos poderiam respirar mais, enquanto algumas participações mereciam maior desenvolvimento. O episódio do spray criou ainda um corte externo, desagradável e completamente alheio à proposta artística.
Mesmo assim, o saldo é muito alto. Poucos shows daquele primeiro fim de semana utilizaram o Palco Sunset como uma construção tão própria. A banda não tratou chuva como obstáculo, convidados como decoração ou cultura popular como ilustração de fundo. Tudo entrou dentro da música e precisou responder ao mesmo princípio: fazer o público se mover.
Quando funciona, um show do BaianaSystem produz uma sensação curiosa. A pessoa pode conhecer todas as músicas ou praticamente nenhuma, porque o repertório oferece outros caminhos de entrada. Há ritmo para dançar, frase para repetir, roda para ocupar, imagem para observar, guitarra para seguir e uma quantidade enorme de referências acontecendo ao redor.
No Rock in Rio 2026, a chuva caiu durante quase toda a apresentação. O Sunset continuou girando.
Publicado originalmente na Woo! Magazine.