Identificada em 2020 como a misteriosa "bruxa" da capa de estreia do Black Sabbath, a ex-modelo Louisa Livingstone transformou essa conexão em música. Sob o pseudônimo Indreba, a artista lançou faixas de metal em homenagem aos fãs e ao seu papel icônico no gênero. Vivendo na Espanha, Livingstone agora explora novas fronteiras sonoras ao criar Alice, uma mini ópera-rock psicodélica inspirada em Lewis Carroll que utiliza inteligência artificial e critica o impacto do mundo digital moderno.
Por meio século, a identidade da mulher encapuzada, com ares de bruxa, encarando os fãs de metal na capa do disco de estreia homônimo do Black Sabbath foi um mistério. Então, em 2020, um artigo da Rolling Stone revelou que a modelo era Louisa Livingstone, que também havia aparecido em capas e em trabalhos de arte para o Queen e para uma banda britânica de rock.
Antes do artigo da Rolling Stone, ela passou os 50 anos anteriores trabalhando como modelo, atriz e musicista, entre outras atividades criativas, e havia se mudado para a Europa continental, onde gravou música eletrônica sob o nome Indreba, um portmanteau de "Incredible Dream Band" ("Banda de Sonho Incrível"). Na época, ela não estava preparada para que a enorme base de fãs da banda a acolhesse.
"Às vezes ainda acho um pouco bizarro ser a 'mulher bruxa' do Black Sabbath, porque, é claro, eu também sou um monte de outras coisas… mas houve algumas interações muito legais com alguns fãs adoráveis do Black Sabbath online", conta por e-mail à Rolling Stone a musicista, que vive na região de Múrcia, na Espanha.
No começo deste ano, ela lançou duas faixas do Indreba com foco no rock, "Witch Woman" e "The Woman by the Mill", que fazem referência explícita ao seu vínculo com a fama no metal. "Apenas uma garota de capa em um dia frio de outono", ela canta em "Witch Woman". "Agora eu sou o rosto do heavy metal, abrindo caminho". A música às vezes sugere um doom metal à la Sabbath e guitarras pesadas, mas com um melodrama próprio.
https://www.youtube.com/watch?v=23iCzCqU0bk
A canção de power metal "The Woman by the Mill" menciona a Mapledurham Watermill, onde o fotógrafo Keith Macmillan fez a imagem da capa. "Eles te chamaram de bruxa, eles te chamaram de fantasma", ela canta. "Espírito assombrando a margem do rio, mas os anos passaram e a verdade veio à tona, uma jovem posando no orvalho da manhã".
"'Witch Woman' surgiu do nada, como uma ideia repentina do que eu poderia fazer", diz ela. "Os fãs do Black Sabbath adoraram as músicas, o que foi gratificante, já que era para eles e, por esse motivo, deliberadamente dentro do gênero metal".
https://www.youtube.com/watch?v=nNc3xODE6F8
Abraçando os interesses dos fãs do Sabbath, ela tentou rifar um autógrafo para um fã sortudo como forma de arrecadar dinheiro para seus esforços de resgate de gatos por volta da época em que o Black Sabbath se reuniu para uma última vez no Back to the Beginning. "O vencedor nunca reivindicou o prêmio, apesar das repetidas tentativas de contato", ela diz. "Então meu autógrafo continua extremamente raro e desconhecido".
Agora, ela voltou seus interesses musicais para o fantástico: uma mini ópera-rock chamada Alice, baseada nos livros de Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll, que o pai lia para ela todas as noites quando era criança. Ela teve a ideia ao discutir panpsiquismo — "a teoria de que tudo (inclusive a IA) é consciente" — com um chatbot de IA. A conversa "levou ao conceito de eu mesma (ou Alice!) me apaixonar por uma IA, mas no fim ser apenas uma bela ilusão, como todo o resto na internet… e voltar a ser quem se é e à natureza".
A obra de 23 minutos é dividida em cinco partes e começa com um tango rock ("Feed Your Head"), com versos como "Uma pílula te faz rolar a tela por horas", enquanto ela atualiza "White Rabbit", do Jefferson Airplane: "Vá perguntar à Alice, quando ela tiver três metros de altura, encarando a parede digital". O restante do EP — que soa como um psych-rock passado no liquidificador — traz letras sobre algoritmos, "ouro de silício" e anjos sintéticos feitos de código. Ele termina com "The Red Queen's Wake-Up Call". "O palácio digital está virando pó à luz de um dia de verdade", Livingstone canta.
Livingstone cresceu em um lar musical: ela diz que a mãe era uma "violinista virtuose" e, mais tarde, ela própria se aproximou da guitarra e dos teclados. Ela já teve uma guitarra Framus que, segundo ela, teria pertencido a Jeff Beck, e costumava gravar música em um gravador de rolo (reel-to-reel) da Sony. Desde que se mudou para a Espanha, tocou guitarra solo elétrica ao vivo com algumas bandas. Hoje, usa o Logic como estação de trabalho de áudio digital e toca principalmente teclados.
"Tenho experimentado um pouco clonar a minha própria voz e ver o que consigo fazer de diferentes formas com a ajuda da IA", diz ela. "Eu costumava ser muito crítica em relação à IA, como muita gente, mas é uma ferramenta que você pode usar para criar desde lixo absoluto — ou 'slop', como chamam — até algo realmente bom e interessante. Ainda depende do usuário e do que ele coloca ali… Ela sempre vai refletir a pessoa que está usando e o quão bem ou mal usa, além do seu gosto e conhecimento musical".
Ela começou a gravar como Indreba, diz, quando aprendeu o quão poderoso o computador podia ser como instrumento, em algum momento por volta de 2014. Um músico que ela reverencia é o tecladista do Dream Theater, Jordan Rudess, que criou aplicativos de iPad que funcionam como instrumentos musicais. "Ele acredita firmemente que todo mundo deveria curtir música e fazer música, não importa como", ela diz. "O iPad pode ser incrível no quão versátil pode ser como instrumento musical, nas mãos certas".
Os planos dela daqui para frente são explorar o que programas como Logic e Omnisphere podem fazer, e ela espera conseguir um teatro para apresentar Alice ao vivo. "Pretendo continuar criando música agradável, que seja uma alegria de fazer de todas as maneiras possíveis", ela diz, "e me livrar de qualquer coisa que tente me colocar em uma caixinha".