Silvano Mendes, da RFI em Paris, com agências
Valentino Garavani, um dos nomes mais influentes da moda do século 20 e símbolo da elegância italiana no cenário internacional, morreu em sua casa aos 93 anos, segundo informou a Fundação Valentino Garavani em uma publicação no Instagram. Referência da alta moda por mais de seis décadas, ele construiu uma carreira marcada pelo rigor estético, pelo diálogo com o cinema e pelas relações com a elite cultural e política, deixando um legado que ultrapassa a criação de roupas e se inscreve na história da moda global. Sua morte suscitou reações imediatas.
"Perdemos um verdadeiro 'maestro', de quem sempre nos lembraremos por sua arte", reagiu a estilista Donatella Versace na mesma rede social.
"Hoje a Itália perde uma lenda, mas seu legado continuará a inspirar gerações. Obrigada por tudo", declarou a presidente do Conselho da Itália, Giorgia Meloni, em publicação na rede X.
Para Carlo Capasa, presidente da Câmara Nacional da Moda Italiana, "sua estética, coerente e rigorosa, nunca correu atrás das tendências, mas soube unir a memória artesanal e a modernidade, contribuindo de maneira decisiva para o reconhecimento da moda italiana no mundo". Em comunicado, Capasa acrescentou que "ao longo de sua trajetória, ele elevou a alta‑costura ao patamar de patrimônio cultural do nosso país, deixando um legado profundo para todo o sistema".
Batizado Valentino em homenagem a uma estrela do cinema mudo, o estilista, de aparência eternamente bronzeada e penteado impecável, nasceu em 11 de maio de 1932, em Voghera, pequena cidade ao sul de Milão, em uma família burguesa. Muito cedo, desenvolveu paixão pela moda.
Passagem por Paris antes do sucesso na Itália
Após frequentar o Instituto de Moda Santa Marta, em Milão, Valentino mudou‑se para Paris em 1950 para estudar na Escola da Câmara Sindical da Costura. Em 1952, aos 20 anos, passou a integrar a maison de Jean Dessès, onde entrou em contato com personalidades do cinema francês e da alta sociedade. Também conviveu com uma clientela formada por cortes e altezas reais do Egito e da Grécia, entre elas a rainha Frederica. Em 1957, passou a trabalhar com Guy Laroche.
Em 1959, deixou Paris e, com o apoio financeiro dos pais, abriu sua própria maison em Roma, no coração do centro histórico, na Via Condotti, número 11. Sua primeira coleção destacou‑se pelo uso de cores intensas e tecidos nobres. Foi nesse momento que surgiu o vermelho ardente, vivo, intenso e apaixonado que se tornaria sua cor preferida e sua marca registrada, o "vermelho Valentino". No ano seguinte, conheceu Giancarlo Giammetti, dando início a uma colaboração que se estenderia por décadas.
Valentino tornou‑se conhecido por vestir e manter proximidade com as estrelas de Hollywood, de Elizabeth Taylor a Ava Gardner, Lana Turner e Audrey Hepburn, passando por Sharon Stone, Julia Roberts, Gwyneth Paltrow e Sarah Jessica Parker. Ele também se beneficiou do entusiasmo do mundo do cinema em Roma nos anos 1960, quando a capital italiana se transformou em uma extensão de Hollywood graças aos estúdios de Cinecittà. A modelo Anita Ekberg e as atrizes Sophia Loren e Liz Taylor vestiam suas criações.
Sua vida se confundia com a da jet set
Seu prestígio reunia a elite internacional, e sua vida se confundia com a da jet set. O estúdio de criação, instalado em um palácio renascentista em Roma, era o centro de sua atividade, enquanto suas residências — entre um castelo nos arredores de Paris, casas em Capri, Gstaad e Londres, além de um apartamento luxuoso em Nova York — demonstravam o desejo de viver o mesmo estilo de vida de suas clientes, como provou o documentario "Valentino:The Last Emperor", de Matt Tyrnauer, lançado em 2008.
O encontro com Jacqueline Kennedy, em 1964, foi decisivo. Valentino refez seu guarda‑roupa, e ela escolheu, para se casar com Aristóteles Onassis em 1968, um vestido marfim com rendas da célebre "coleção branca" do estilista. O impacto foi imediato nos Estados Unidos. O sucesso no mercado norte‑americano foi consolidado em 1970, quando se tornou o primeiro estilista italiano a abrir uma loja em Nova York.
Estilista se aposentou em 2008
Em 1989, decidiu deixar de desfilar em Milão e passar a apresentar suas coleções em Paris, cidade pela qual nutria profunda admiração e onde recebeu a Legião de Honra, em 2006. Após celebrar com grande pompa seus 45 anos de carreira, em 2007, encerrou seu último desfile emocionado e anunciou sua aposentadoria em janeiro de 2008.
Após sua saída, a maison passou a ser comandada por Pier Paolo Piccioli, que obteve diversos êxitos, com a criação de acessórios que se tornaram emblemáticos graças a um estilo mais ousado. A marca havia sido vendida ao fundo de investimento catariano Mayhoola e estava prevista para ser adquirida pelo grupo Kering — segundo maior grupo de luxo do mundo —, que já integra seu capital. O conglomerado do luxo, no entanto, prorrogou sua opção de compra até 2029. A chegada do estilista Alessandro Michele, na primavera de 2024, trouxe um novo fôlego à marca.
O funeral do estilista será realizado na sexta‑feira (23), na Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires, em Roma, às 11h, pelo horário local.