Lebre-negra do mar: gigante e especialista em dar susto na areia

A lesma-negra do mar, também chamada de lebre-do-mar, é um molusco marinho de grande porte, corpo mole e coloração escura, comum em regiões costeiras do mundo, inclusive no litoral brasileiro. Vive principalmente em áreas rasas com algas, como costões rochosos, fundos arenosos e ambientes estuarinos, onde se desloca lentamente e pode, ocasionalmente, nadar curtas distâncias. Apesar da aparência exótica, trata-se de um animal inofensivo para humanos, despertando curiosidade quando aparece encalhado na areia.

14 jan 2026 - 18h01

A lesma-negra do mar, também conhecida como lebre-do-mar, chama atenção pelo tamanho, pela cor escura e pelo jeito lento de se mover sobre rochas e fundos arenosos. Apesar da aparência exótica, esse molusco vive de forma relativamente comum em várias regiões costeiras do mundo, inclusive no litoral brasileiro. Esse animal também costuma despertar curiosidade em banhistas, pescadores e estudantes de biologia, principalmente quando aparece encalhado na faixa de areia.

Do ponto de vista científico, pesquisadores consideram a lebre-do-mar um modelo importante para o estudo do sistema nervoso e da memória. A presença desse animal em determinadas áreas costeiras pode indicar mudanças na qualidade da água e na disponibilidade de alimento. Por ser um animal inofensivo para humanos, a observação desse organismo aproxima o público da vida marinha sem risco de acidentes e favorece ações de educação ambiental em praias e centros de visitação.

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lesma-negra do mar – Museu Virtual Biodiversidade
lesma-negra do mar – Museu Virtual Biodiversidade
Foto: Giro 10

Características físicas da lesma-negra do mar

A lesma-negra do mar pertence ao grupo dos opistobrânquios e apresenta um corpo mole, sem concha externa aparente na fase adulta. O tamanho varia de alguns centímetros até pouco mais de 30 cm em algumas espécies. Por isso, muitos especialistas a consideram uma das maiores lesmas marinhas conhecidas e um dos invertebrados mais facilmente observados em costões rochosos.

A coloração geralmente oscila entre marrom-escuro, roxo e preto, por vezes com manchas ou pontuações mais claras, o que ajuda na camuflagem sobre rochas cobertas de algas. Em certos locais, essa variação de cor também reflete o tipo de alga consumida. Como consequência, indivíduos de uma mesma espécie podem parecer ligeiramente diferentes de região para região.

Um traço marcante envolve os parapódios, dobras laterais do corpo que lembram "asas" ou grandes pregas. Essas estruturas podem ficar mais abertas durante a natação, o que dá um aspecto ondulante ao animal. Por outro lado, os parapódios permanecem fechados quando o animal rasteja sobre o substrato, ajudando a proteger o corpo e a reduzir a perda de água em poças de maré. Na região anterior, a lebre-do-mar possui estruturas sensoriais bem definidas: os rinóforos, que se assemelham a pequenas antenas, e tentáculos orais, usados para explorar o ambiente e localizar alimento com precisão.

A pele apresenta uma camada de muco espesso, que reduz o atrito com o fundo e ajuda na proteção contra ressecamento quando o animal fica temporariamente exposto. Além disso, esse muco facilita a locomoção sobre superfícies irregulares e pode incorporar substâncias químicas obtidas das próprias algas ingeridas. Internamente, o animal possui um sistema nervoso relativamente simples, porém com neurônios grandes e bem identificáveis. Essa característica favoreceu o uso da lebre-do-mar em pesquisas neurobiológicas e em estudos sobre funcionamento básico do cérebro, incluindo trabalhos clássicos sobre plasticidade sináptica.

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Habitat, distribuição e ocorrência no Brasil

A lebre-do-mar vive principalmente em zonas costeiras rasas, em locais com presença de algas marinhas e fundos rochosos ou arenosos. No geral, o animal ocupa áreas de marés, costões, pradarias de algas e ambientes estuarinos, desde que a salinidade permaneça adequada. Em alguns períodos do ano, o molusco forma concentrações maiores em regiões com abundância de alimento, o que torna sua observação mais frequente por visitantes e pesquisadores.

Diferentes espécies de lebres-do-mar ocupam oceanos tropicais, subtropicais e temperados. No Brasil, registros científicos apontam a presença desses animais em diversos trechos do litoral, desde o Nordeste até o Sul. Principalmente em áreas com recifes rasos, lajes e bancos de algas, as lebres encontram refúgio e boas condições para reprodução. A ocorrência varia conforme a estação, a temperatura da água e a disponibilidade de algas apropriadas à alimentação, bem como a intensidade de eventos climáticos, como ressacas e frentes frias.

Esses moluscos costumam permanecer escondidos durante parte do dia, abrigados em cavidades de rochas, sob algas mais densas ou enterrados parcialmente no sedimento. Assim, reduzem o risco de predação e o estresse causado pela exposição direta à luz solar. Em marés muito baixas, eles acabam expostos em poças de maré, onde se tornam mais visíveis para quem caminha pela costa e realiza atividades de observação da vida marinha.

O que a lebre-do-mar come e como se comporta?

A alimentação da lesma-negra do mar é predominantemente herbívora. O animal consome algas filamentosas e macrófitas marinhas e raspa o alimento com uma estrutura bucal chamada rádula. Essa estrutura lembra uma "língua" com pequenos dentículos, que trabalham como uma lixa microscópica. Em algumas espécies, o animal também ingere detritos orgânicos e micro-organismos presentes sobre as superfícies rochosas, aproveitando ao máximo os recursos disponíveis.

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O comportamento geralmente se mostra calmo e lento. Habitualmente, a lebre-do-mar se desloca rastejando sobre o fundo, mas também consegue nadar por curtas distâncias ao movimentar os parapódios em ondas. Quando perturbadas, algumas lebres aceleram levemente os movimentos, embora ainda mantenham um padrão de deslocamento relativamente pacato. Em períodos reprodutivos, muitos indivíduos formam agrupamentos e depositam longas fitas de ovos gelatinosos, que lembram fios coloridos ou massas enoveladas sobre o substrato.

Esses animais apresentam ciclos de vida relativamente curtos e completam o desenvolvimento em poucos meses ou poucos anos, dependendo da espécie e das condições ambientais. Dessa forma, populações podem aumentar ou diminuir de maneira rápida em resposta a mudanças de temperatura, alimento ou poluição. Em várias regiões costeiras, a presença de grandes quantidades de lebres-do-mar em uma mesma época se relaciona a picos de reprodução e abundância de alimento.

Quais são os mecanismos de defesa da lesma-negra do mar?

Um dos mecanismos mais conhecidos da lebre-do-mar envolve a liberação de tinta escura quando o animal se sente ameaçado. Esse líquido pode variar de roxo a marrom e cumpre a função de confundir predadores ao criar uma nuvem opaca na água. Em algumas espécies, a tinta contém compostos químicos que interferem na orientação de animais que tentam atacar, como peixes e crustáceos, funcionando como uma espécie de "cortina de fumaça" química e visual.

Além da tinta, a coloração escura e a textura do corpo colaboram com a camuflagem entre algas e rochas. O muco liberado pela pele também dificulta a apreensão por parte de predadores, tornando o corpo escorregadio e pouco atrativo. Em muitos casos, o principal "escudo" da lebre-do-mar envolve o próprio ambiente. Ao permanecer imersa e escondida em habitats complexos, a lebre reduz a chance de encontro com inimigos naturais e aumenta suas possibilidades de sobrevivência.

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Apesar dessas estratégias, em situações de maré baixa, ondas fortes ou alterações bruscas de temperatura, o animal pode se deslocar para regiões rasas. Nessas circunstâncias, a corrente o lança na praia, onde ele fica vulnerável e desprotegido fora d'água, sujeito ao ressecamento e à ação de aves e outros consumidores oportunistas.

A lesma-negra do mar é perigosa para humanos?

De maneira geral, a lesma-negra do mar não apresenta perigo para humanos e permanece inofensiva. O animal não possui ferrão, dentes capazes de perfurar pele humana ou glândulas de veneno adaptadas à defesa contra pessoas. A tinta escura liberada em situação de estresse pode manchar temporariamente a água ou as mãos de quem manipula o animal, mas não costuma causar danos em indivíduos saudáveis, especialmente quando o contato é breve.

O cuidado principal recomendado pela literatura científica consiste em evitar manipulações desnecessárias e prolongadas. Dessa maneira, a pessoa preserva o bem-estar do animal e reduz qualquer risco de irritação cutânea em pessoas com pele sensível. Sempre que possível, recomenda-se apenas observar a lebre-do-mar e devolvê-la com cuidado à água caso seja encontrada viva na areia. Quando permanece no ambiente marinho, a lebre-do-mar cumpre seu papel ecológico e não representa ameaça ao banho de mar ou às atividades recreativas.

Importância científica, ecológica e como indicador ambiental

A lebre-do-mar ganhou destaque na ciência devido ao uso frequente em estudos sobre memória e aprendizado. O sistema nervoso simples e os neurônios de grandes dimensões permitem registrar com clareza as respostas a estímulos. Isso contribuiu para pesquisas em neurociência desde a segunda metade do século XX. Esses trabalhos ajudaram a entender mecanismos básicos de formação de memória em animais e abriram caminho para comparações com processos que ocorrem em vertebrados, inclusive em humanos.

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Ecologicamente, a lesma-negra do mar atua como consumidora de algas e ajuda a controlar o crescimento excessivo de determinadas espécies vegetais marinhas. Nos ambientes costeiros, esse equilíbrio se mostra importante para manter a diversidade de organismos que dependem dos recifes e das pradarias de algas. Ademais, ao se alimentar de algas, a lebre-do-mar participa do ciclo de nutrientes, contribuindo para a dinâmica de matéria orgânica no ecossistema. Em alguns casos, mudanças na abundância de lebres-do-mar podem sinalizar alterações na qualidade da água, especialmente quando se associam à proliferação de algas causada por enriquecimento de nutrientes.

Por essa razão, cientistas consideram esse molusco um potencial bioindicador. Em outras palavras, um organismo cuja presença, ausência ou abundância fornece pistas sobre o estado ambiental de um determinado trecho de costa. Assim, o monitoramento sistemático de populações de lebres-do-mar pode auxiliar na detecção precoce de impactos, como esgoto não tratado, derramamentos de substâncias químicas e efeitos das mudanças climáticas.

Por que a lebre-do-mar aparece encalhada nas praias?

O aparecimento de lebres-do-mar encalhadas na areia costuma se ligar a fatores naturais, como ressacas, correntes mais fortes, ventos intensos e variações de maré. Durante episódios de mar agitado, esses animais saem de seus abrigos habituais e seguem arrastados para zonas muito rasas, acabando presos na faixa de areia quando a maré recua. Eventualmente, episódios de mortalidade em massa também podem estar relacionados a oscilações de temperatura ou à redução abrupta de oxigênio na água.

Em alguns períodos do ano, a combinação de reprodução intensa, aumento da população e condições oceanográficas específicas favorece o encalhe simultâneo de vários indivíduos. Quando isso ocorre, moradores e turistas frequentemente relatam a presença de "bolotas escuras" ou "bichos estranhos" na praia. Na maioria das vezes, essas bolotas correspondem a lebres-do-mar debilitadas ou já sem vida, que acabam se decompondo rapidamente devido à ação de microrganismos e da radiação solar.

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Embora esse fenômeno cause estranhamento, a literatura o descreve como parte do ciclo natural de muitas populações costeiras. Portanto, o evento não indica, por si só, contaminação ou desastre ambiental isolado. No entanto, monitoramentos locais costumam avaliar se existe relação com poluição, aquecimento anormal da água ou outros impactos humanos. Dessa forma, dados sobre encalhes podem complementar informações de qualidade da água e de cobertura de algas em programas de gestão costeira.

Diferenças em relação a outras lesmas marinhas e nudibrânquios

A lebre-do-mar costuma ser confundida com outros tipos de lesmas marinhas, como os nudibrânquios. No entanto, surgem diferenças importantes entre esses grupos. Os nudibrânquios costumam apresentar cores muito vivas, formas mais ornamentadas e projeções dorsais que podem conter toxinas ou estruturas defensivas. Já a lesma-negra do mar, em geral, exibe coloração mais uniforme e escura, corpo volumoso e parapódios laterais bem desenvolvidos.

Outra distinção aparece na alimentação: muitos nudibrânquios se alimentam de esponjas, cnidários ou outros invertebrados, enquanto a lebre-do-mar possui dieta principalmente herbívora, voltada para algas. Consequentemente, esses grupos ocupam nichos ecológicos diferentes, ainda que compartilhem alguns habitats. Do ponto de vista anatômico, a lebre pode manter um resquício de concha interna e apresenta organização do sistema nervoso diferente da de outros grupos de lesmas marinhas.

Essas diferenças ajudam pesquisadores e observadores a reconhecer cada grupo e a entender melhor o papel de cada um nos ecossistemas costeiros. Além disso, o reconhecimento adequado evita que nudibrânquios potencialmente tóxicos sejam confundidos com lebres-do-mar, que são inofensivas. Assim, eles evitam generalizações sobre toxicidade ou risco ao contato humano.

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Curiosidades e fatos interessantes sobre a lebre-do-mar

Entre as curiosidades mais citadas, destaca-se o fato de a lebre-do-mar receber esse nome popular por causa do formato do corpo e dos rinóforos. Vistos de cima, esses rinóforos lembram orelhas de coelho ou de lebre. Em algumas regiões, a coloração da tinta liberada pelo animal chamou tanta atenção que diversos grupos de pesquisa estudaram pigmentos naturais e compostos bioativos presentes nesse material.

Outra característica curiosa envolve a capacidade de algumas espécies de regenerar partes danificadas do corpo e de apresentar comportamentos relativamente simples de aprendizado. Por exemplo, alguns indivíduos se habituam a estímulos repetitivos após certo tempo de exposição, reduzindo suas respostas a toques leves. Esses aspectos reforçam o interesse de pesquisadores em fisiologia, comportamento e ecologia marinha, além de inspirar materiais educativos em aquários públicos e projetos de ciência cidadã.

Ao observá-la com atenção, a lesma-negra do mar se mostra um exemplo de organismo que reúne valor científico, importância ecológica e potencial educativo. A presença desse molusco nas costas brasileiras e em outras regiões do mundo ajuda a contar a história das interações entre algas, marés, correntes e demais seres que compõem a vida nos oceanos costeiros. Desse modo, conhecer a lebre-do-mar contribui para valorizar e proteger os ambientes marinhos que sustentam essa e muitas outras espécies.

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