O colorismo nos ensina: quanto mais escura a pele, maior o preconceito contra o negro.
Essa percepção coloca retintos e pardos em lados distintos na escala de discriminação.
Temos uma prova disso ao ver a empolgação de mulheres e gays em torno do goleiro da Nigéria na Copa, Maduka Okoye, elogiado por Luana Piovani e apontado como novo affair de Virginia.
A beleza do rosto associada ao corpo musculoso e tatuado o coloca como galã.
Filho de um nigeriano e de uma germano-francesa, e nascido na Alemanha, ele está no meio da paleta de cores.
Os traços são menos marcadamente africanos do que os da maioria dos descendentes de africanos: nariz pequeno e fino, lábios não muito volumosos.
Okoye está mais próximo da beleza facial europeia, valorizada pelo olhar da maioria das pessoas, inclusive dos brasileiros.
Não se trata de negar a atratividade de Maduka Okoye. Pelo contrário.
Mas é legítimo perguntar se a reação em torno dele seria a mesma caso tivesse a pele escura e traços bem africanos.
Em sociedades marcadas pelo ideal de beleza eurocêntrico, pessoas negras de pele mais clara e feições consideradas mais próximas do padrão branco recebem maior aceitação social.
É uma preferência estética que não surge por acaso, mas de séculos de manutenção ou imposição de estereótipos sobre o que é bonito e feio, sensual ou desinteressante.
No Brasil, essa hierarquia informal é percebida até na linguagem cotidiana.
Enquanto alguns negros são prontamente identificados como pretos, outros são descritos com eufemismos — ‘moreno’, ‘mulato’, ‘jambo’, ‘marrom-bombom’ etc. — que os aproximam da branquitude.
A necessidade de suavizar a palavra ‘negro’ revela como a sociedade ainda associa diferentes valores às tonalidades de pele.
Cabe o exemplo de uma cena da novela ‘Vale Tudo’, que simboliza um pensamento recorrente na vida real.
Diante da nora negra Fátima, a declaradamente racista Odete Roitman minimiza a identidade racial. “Ela nem é tão preta assim”.
Isso não significa que pessoas negras de pele clara estejam livres do racismo, tampouco que sejam menos pretas.
Trata-se apenas de reconhecer que a discriminação não se distribui de forma igual entre todos os integrantes da população afrodescendente.
Talvez por isso o fenômeno Maduka Okoye diga mais sobre quem o admira do que sobre o próprio goleiro afro-europeu.
A repercussão em torno dele ressalta ainda a objetificação do corpo do homem preto. Mas esse é tema para outra conversa.