Depois de anos de turbulência envolvendo a família real britânica, quem passou a ocupar as manchetes policiais e as colunas de fofocas são os membros da casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg, a dinastia que reina sobre a Noruega.
Antes conhecida pela sobriedade quase monástica, a família do rei Harald V vive crises que expõem fragilidades pessoais e dilemas institucionais.
O epicentro dos escândalos recentes é a princesa Mette-Marit, esposa do tranquilo príncipe herdeiro Haakon.
Ela aparece citada dezenas de vezes nos arquivos de Jeffrey Epstein, magnata americano condenado por tráfico e abuso sexual de mulheres — e envolvido também em pedofilia, conforme indicam novas mensagens.
Com passado de plebeia rebelde, Mette-Marit admitiu que mantinha amizade com Epstein, a quem encontrou algumas vezes, inclusive na casa dele na Flórida, cenário de numerosos crimes sexuais.
Ver uma princesa abalada por uma polêmica tão comprometedora causou profundo desconforto na Noruega, país referência em ética, transparência e direitos humanos.
Embora não haja acusações legais contra ela, a simples associação com uma das figuras mais tóxicas da história recente mancha sua imagem e atinge diretamente o marido e o sogro, pilares do clã que ocupa o trono há 120 anos.
Mette-Marit está ligada a outra dor de cabeça da família real: seu filho mais velho, Marius Borg Høiby, de um relacionamento anterior ao casamento com Haakon, está preso sob suspeita de agressão e ameaça.
Ao mesmo tempo, enfrenta julgamento por uma série de crimes, incluindo acusações de estupro. Ele não faz parte da monarquia, porém, a condição de enteado do provável futuro rei o transforma em um problema de Estado.
Como se não fosse o suficiente, a princesa enfrenta uma complicação na saúde. Diagnosticada com uma doença pulmonar crônica, ela deve se submeter a um transplante de pulmão ainda este ano, o que coloca em dúvida sua capacidade de cumprir os compromissos institucionais caso seja coroada consorte de Haakon.
Uma pesquisa mostrou que 47,6% dos entrevistados disseram que Mette-Marit não deveria se tornar rainha, enquanto apenas 28,9% a apoiam.
No topo da pirâmide, a situação não é menos delicada. O rei Harald V, de 88 anos, está cada vez mais fragilizado. Enfrentou um câncer de bexiga, precisou implantar um marca-passo, sofreu sucessivas infecções e tem mobilidade reduzida, caminhando apoiado em bengalas devido a um desgaste nos joelhos.
A pergunta que paira sobre Oslo é até quando ele conseguirá permanecer no trono — e se uma eventual abdicação, que o livraria do martírio da agenda oficial, seria viável em meio a um momento familiar tão conturbado.
Outro ponto sensível na realeza da Noruega envolve a princesa Märtha Louise, filha de Harald e da rainha Sonja.
Apesar de carismática e popular entre os súditos, ela foi obrigada a se afastar das funções protocolares após se casar com o americano Durek Verrett, que se autoproclama xamã.
Ele é visto por críticos como um curandeiro controverso. Já foi alvo de acusações de charlatanismo e comportamento sexual impróprio, além de dar declarações consideradas ofensivas, como a de que uma pessoa “escolhe ter câncer”.
Soma-se a isso o fato de ser negro em um universo dominado por brancos. Segundo a própria Märtha, o casal sofreu episódios explícitos de racismo na elite europeia.
Apesar de atravessar a pior fase em todos os tempos, a Casa de Glücksburg recebeu um valioso voto de confiança: o parlamento norueguês rejeitou a proposta constitucional que mudaria o regime de monarquia para república.
Mas o clima tenso não passou: há temor de que a divulgação de mais arquivos do caso Epstein gere o caos no Palácio de Oslo e leve um dos países mais ricos e estáveis do planeta à completa vergonha.