A atriz Tisha Campbell, famosa por Eu, a Patroa e as Crianças, revelou ter sido diagnosticada com autismo e TOC aos 57 anos. Ela relatou que camuflava sintomas, como hipersensibilidade a ruídos, usando humor e extroversão como máscaras sociais. A descoberta ocorreu após escrever um livro sobre seu filho, que também tem TEA. Especialistas destacam que estratégias de adaptação e sinais sutis costumam atrasar diagnósticos em adultos, reforçando a importância de avaliações clínicas individualizadas.
A maturidade trouxe para a atriz norte-americana Tisha Campbell, inesquecível para o público brasileiro pelo papel da marcante Jay Kyle em Eu, a Patroa e as Crianças, uma resposta há muito buscada sobre sua própria trajetória. Aos 57 anos, a estrela de Hollywood revelou publicamente ter recebido o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), após anos lidando com características que camuflava em público.
O tema veio à tona durante uma participação da artista no programa de rádio comandado por Angela Yee. Na ocasião, ela explicou que a constatação médica ocorreu logo após a finalização de seu livro de memórias sobre maternidade atípica e sua experiência com o filho mais velho, Xen, que também está no espectro. Por conta dessa linha do tempo cronológica, o episódio acabou ficando de fora das páginas da obra.
"Recebi o diagnóstico depois de escrever o livro, então essa parte nem está nele. Isso aconteceu este ano", esclareceu a famosa.
A perspectiva médica sobre o autismo tardio
Portanto, a manifestação tardia e a camuflagem de sintomas em adultos neurodivergentes encontram respaldo na literatura clínica. De acordo com o Dr. Thiago Castro, pediatra com atuação voltada ao acompanhamento da saúde, crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes, o espectro possui uma ampla gama de expressões comportamentais.
"O autismo pode se manifestar de formas muito diferentes de uma pessoa para outra. Algumas apresentam alterações mais perceptíveis na comunicação e na interação social desde a infância, enquanto outras desenvolvem estratégias para se adaptar e compensar determinadas dificuldades, o que pode contribuir para que os sinais passem despercebidos durante muitos anos. Diferenças no processamento sensorial também podem fazer parte do espectro. Algumas pessoas apresentam maior sensibilidade a sons, luzes, texturas ou outros estímulos, como Tisha relata em relação aos ruídos, mas nenhuma dessas características, isoladamente, permite afirmar que alguém é autista", pontuou o especialista.
O uso de máscaras sociais e a sensibilidade sonora
Diante disso, a própria artista detalhou as táticas que empregava para navegar pelas complexidades do convívio social ao longo de décadas, utilizando o humor e a extroversão como armaduras para se adaptar a um ambiente que muitas vezes parecia sobrecarregado de estímulos.
"Tenho muita coisa acontecendo. A vida inteira, usei uma máscara em público, e essa máscara se escondia com meu jeito barulhento e minhas piadas. Era a minha maneira de me esconder à vista de todos", destacou ela.
Além disso, a sensibilidade auditiva extrema passou a exigir ajustes práticos em sua rotina, como o uso constante de fones de ouvido para mitigar o desconforto diante de ruídos intensos. No entanto, comportamentos adaptativos como o mimetismo social e as sutilezas sensoriais frequentemente dificultam a percepção precoce do quadro clínico, fazendo com que o diagnóstico ocorra apenas na fase adulta.
"Quando os sinais são menos evidentes, eles podem ser confundidos com timidez, ansiedade, sensibilidade ou simplesmente interpretados como características da personalidade. Por isso, mais importante do que comparar alguém com uma imagem estereotipada do autismo é compreender sua história desde a infância, seu desenvolvimento, a maneira como se relaciona e se comunica, como responde aos estímulos e quais dificuldades enfrenta no cotidiano", ressaltou o Dr. Thiago Castro.
A importância da avaliação individualizada
Globalmente conhecida por dividir os holofotes com Damon Wayans na produção exibida entre 2001 e 2005, Tisha Campbell construiu um sólido legado artístico como atriz, cantora e dubladora. Agora, ao utilizar sua visibilidade midiática para debater neurodivergência e inclusão, ela inspira milhares de fãs que se identificam com sua jornada de autoconhecimento.
Contudo, o médico faz um alerta essencial sobre a busca por respostas a partir de relatos públicos, ressaltando a necessidade de rigor metodológico no diagnóstico clínico. "Um relato semelhante ao nosso pode despertar identificação e até ser um ponto de partida para procurar ajuda, mas o diagnóstico precisa considerar o funcionamento da pessoa de maneira ampla e ser realizado a partir de uma avaliação individualizada", concluiu o Dr. Thiago Castro.