Radicado na França desde o ano 2000, o artista plástico Otiniel Lins, nascido no interior de Pernambuco, inaugurou seu ateliê em Paris neste mês de outubro.
Fica no 9º arrondissement, área frequentada por pintores, escritores, músicos e intelectuais.
“Estou muito feliz. Nesse novo espaço, eu exponho meu trabalho e as pessoas podem entrar, conversar comigo, interagir. É uma mistura de ateliê e galeria”, explica.
A obra de Otiniel é marcada principalmente pela representação de pessoas pretas, de personalidades LGBT+ e do homoerotismo.
Nota-se a intenção de valorizar a beleza da negritude, ainda pouco reconhecida em vários segmentos artísticos.
Sua veia cômica fica evidente nas pinturas de corpo inteiro dos presidentes Trump, Macron e Bolsonaro completamente nus.
O artista nordestino, que já teve pinturas expostas em várias mostras coletivas, detalhou seu trabalho em conversa com a coluna.
O ateliê tem apenas obras suas?
Eu ofereço também a oportunidade a outros artistas que não têm uma galeria para expor em Paris. Não é fácil conseguir apoio na cidade. Por isso, farei exposições coletivas.
Qual sua história com a arte?
Comecei a pintar aos quatorze anos, depois que minha mãe faleceu. A arte serviu como uma terapia. Eu pintava para mim, me deixava mais tranquilo, fazia bem. Pouco a pouco, meu trabalho foi evoluindo. Mas não tinha o objetivo de expor. Depois, num ateliê de pintura em Recife, um professor disse que eu deveria fazer uma exposição. Ele tinha muitos livros de pintores europeus, falava muito do Museu do Louvre, e isso despertou em mim a vontade de vir à Europa. Logo fiz um intercâmbio em Paris.
Qual a mensagem inserida nas telas?
Meu trabalho é muito político, fala das diferenças sociais, das minorias. Pinto muito pessoas pretas, quero valorizar essa cultura da miscigenação. Quando ia a museus, via sempre os negros em posição de serviçal. Por isso, eu os coloco numa posição superior e bonita, ressaltando a riqueza da influência africana.
Como entrou no mercado de arte em Paris?
Eu pintava na rua, fazia umas pinturas pequenas do tamanho de cartão-postal e as vendia na frente do Museu Pompidou. Ainda não ganhava a vida com arte. Trabalhei em lanchonete, cuidei de criança, fui cabeleireiro em salão, fiz várias coisas. Um dia, um jornalista viu minhas obras e me apresentou a uma galeria. Assim começou meu percurso.
Sente seu talento reconhecido no Brasil e na França?
Aqui em Paris, as pessoas conhecem meu trabalho. Sou representado pela Galerie Menouar, no Marais. Muitos colecionadores têm obras minhas, inclusive nos Estados Unidos, onde fiz exposição em Miami. No Brasil, minha divulgação começou não faz muito tempo. Fiz uma exposição em São Paulo há uns três anos. Estão conhecendo pouco a pouco.