Dirigido por Marco Bechis, "Retorno a Buenos Aires" aborda as marcas da ditadura argentina ao acompanhar Mariano Guerra, sobrevivente que volta ao país para depor contra seus torturadores. Com atmosfera melancólica e sombria, o longa recusa maniqueísmos e mergulha na ambiguidade moral do protagonista, expondo o peso da culpa e as fronteiras entre colaboração e sobrevivência. A narrativa evidencia que, mesmo com a busca por justiça, certas feridas da violência política permanecem abertas.
Em um mundo cada vez mais polarizado, no qual as pessoas parecem ser constantemente reduzidas a posições extremas, Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis (Garage Olimpo), encontra sua principal força justamente nos tons de cinza. Ao acompanhar Mariano Guerra (Adriano Giannini, Destino Insólito), sobrevivente da ditadura militar argentina que retorna ao país para testemunhar contra seus torturadores, o cineasta constrói um protagonista moralmente complexo, cuja condição de vítima não o isenta de confrontar suas memórias.
Afinal, Mariano carrega um passado comprometedor, que coloca em discussão os limites entre sobrevivência, colaboração e culpa. É nessa ambiguidade, sem respostas fáceis ou julgamentos imediatos, que o longa encontra seus momentos mais interessantes. Bechis demonstra segurança na direção, especialmente ao estabelecer uma atmosfera sombria e melancólica, na qual o peso do passado parece impregnar cada ambiente e interação.
Há uma sensação constante de desconforto, alimentada tanto pelos reencontros entre sobreviventes quanto pela dificuldade de Mariano em lidar com aquilo que fez para continuar vivo. O cineasta compreende que as marcas da violência não desaparecem com o passar dos anos e que, mesmo diante da possibilidade de justiça, certas feridas permanecem abertas.
Para revelar as contradições de seu protagonista, Bechis recorre a flashbacks que, aos poucos, desvendam os acontecimentos que Mariano preferiria deixar enterrados. São momentos importantes para compreender a dimensão de seus traumas e, sobretudo, as decisões moralmente questionáveis que precisou tomar para sobreviver.
Entretanto, embora contribuam para aprofundar a complexidade do personagem, essas incursões ao passado nem sempre encontram o equilíbrio necessário. Algumas sequências, especialmente aquelas envolvendo sexo e tortura, soam excessivamente expositivas ou mesmo gratuitas, como se o cineasta precisasse recorrer ao choque para transmitir um horror que já se manifesta de maneira suficientemente perturbadora no imaginário coletivo.
Ainda assim,
Retorno a Buenos Airescumpre sua proposta ao abordar um período histórico brutal sem transformar seus sobreviventes em figuras idealizadas. Mais do que revisitar os horrores da ditadura, o longa encontra relevância ao questionar o que significa sobreviver a eles — e até que ponto alguém pode ser responsabilizado pelas decisões tomadas quando continuar vivo era a única prioridade.