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Murnau reencontra o público em "Aurora", com trilha executada ao vivo em São Paulo

Na 50ª Mostra Internacional de Cinema, a Orquestra Brasil Jazz Sinfônica executou a trilha de Timothy Brock para o clássico mudo de F.W. Murnau.

29 out 2026 - 14h03
Resumo
O clássico mudo "Aurora" (1927), de F.W. Murnau, foi exibido em cópia restaurada em 4K na Mostra Internacional de Cinema em SP, com trilha ao vivo da Orquestra Brasil Jazz Sinfônica sob regência de Gustavo Petri. O longa, que narra a quase tragédia e a reconciliação de um casal, impressiona pelo humor inesperado e pelo virtuosismo técnico, com efeitos e movimentos de câmera avançados. A orquestra brilhou ao executar a partitura de Timothy Brock e recriar efeitos sonoros originais no palco.

O clássico do cinema mudo "Aurora", de F.W. Murnau, ganhou uma sessão especial na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, com trilha sonora executada ao vivo pela Orquestra Brasil Jazz Sinfônica, sob regência do maestro Gustavo Petri. O grupo interpretou a nova partitura composta por Timothy Brock, compositor norte-americano especializado em música para filmes mudos. Vale lembrar que, quando estreou, em 1927, o longa circulou em duas versões: uma totalmente muda e outra que empregava o pioneiro sistema Movietone, com música e efeitos sonoros originais gravados diretamente na película. Contudo, o negativo original foi inteiramente destruído em um incêndio nos estúdios da Fox, em 1937. Portanto, cabe aqui uma análise não apenas do filme, mas também do importante trabalho da orquestra.

Imagem: Divulgação/Fox Film Corporation
Imagem: Divulgação/Fox Film Corporation
Foto: Divulgação/Fox Film Corporation / Woo! Magazine

No longa de Murnau, um fazendeiro (George O'Brien), casado e pai de um menino pequeno, é tentado por uma misteriosa mulher a assassinar a esposa, vender a propriedade e mudar-se com ela para a cidade grande. Seduzido, o homem (não há nomes de personagens no filme) inicia o plano, que consiste em levar a esposa para um passeio de barco e lançá-la ao rio para que morra afogada. Antes de concluí-lo, porém, arrepende-se e decide se reconciliar com a mulher, de quem há muito está distante. Para isso, resolve levá-la a um dia de diversão na cidade: eles vão a um restaurante, visitam um fotógrafo para posar juntos em um retrato, dançam, comparecem a um casamento e passam por um parque de diversões.

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A alegria do casal provoca uma guinada no clima mais sisudo do início, que sugeria uma história sombria. Esse detalhe merece destaque porque Murnau é mais conhecido por seu cinema expressionista, feito de drama e até de terror. Por isso, é uma surpresa para quem chega com quase cem anos de atraso, como este que vos escreve, e depara-se com o humor um tanto pueril de "Aurora", como na cena em que o casal tenta capturar um porquinho. Em certos momentos, parece um filme de Chaplin e não de Murnau, o que absolutamente não é ruim, apenas pode frustrar as expectativas do espectador que, como dito, esperou tanto tempo para vê-lo e traz consigo uma forma de pensar o cinema muito diferente da vigente no século 20.

Imagem de "Aurora": Divulgação/Fox Film Corporation
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

Pois bem, se tematicamente o filme pode não surpreender, tecnicamente é um primor, considerando-se, é claro, a sua idade. É impressionante o que Murnau realizou com os movimentos de câmera em sua estreia nos Estados Unidos. Há travellings tão suaves que parece haver ali os estabilizadores usados hoje em dia. O diretor também se mostra bastante criativo ao sobrepor imagens para transmitir suas ideias, até porque não contava com som nem diálogos. Um bom exemplo ocorre quando o homem começa a cogitar a morte da esposa a pedido da mulher da cidade: por meio de trucagem em película, vários rostos dela circundam a cabeça dele, como se estivesse inteiramente dominado pela ideia criminosa. Há ainda uma impressionante sequência em que um barco enfrenta uma tempestade. Nela, os efeitos visuais do vento e de sua força destruidora, assim como as ondas violentas, não ficam devendo aos de hoje, guardadas as devidas proporções.

Por fim, como mencionado, é preciso elogiar o trabalho da Orquestra Brasil Jazz Sinfônica, que captura a essência do longa e conduz o espectador por meio da música: ora veloz e estridente nos momentos de tensão, ora suave e lenta nas passagens românticas, com violinos e violoncelos, ou com acordes infantis nas cenas de comédia, a cargo dos instrumentos de sopro. Para completar, a orquestra ainda reproduz alguns efeitos sonoros com os próprios instrumentos, como um assobio e, para a surpresa de muitos na plateia, até o burburinho de uma multidão em uma cena na cidade. Nela, os músicos conversam entre si para simular as vozes dos figurantes. Sem dúvida, um trabalho completo e, pelo visto, fruto de muito treino e dedicação.

Com isso, a obra-prima "Aurora" é exibida em todo o seu esplendor, ainda mais em uma cópia em 4K novinha em folha, resultado de minuciosa restauração realizada pela San Francisco Film Preserve em parceria com o British Film Institute, a Cinémathèque Royale de Belgique, o Eye Filmmuseum, o Museum of Modern Art, o Národní Filmový Archiv, de Praga, e o George Eastman Museum.

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"Aurora" foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Vídeo: Reprodução/Youtube (@Classictrailers1900)

Imagem destacada do filme 'Aurora": Divulgação/Fox Film Corporation

Publicado originalmente na Woo! Magazine.

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