A premissa é simples: Fred (Rafael Infante) acha que a vida da esposa é moleza. Diz isso em voz alta. E Roberta (Dani Calabresa), em vez de engolir, responde à altura: decide passar as férias, sem o marido e os filhos, na Bahia. É hora do pai se virar.
É com essa virada que começa Um Pai em Apuros, comédia brasileira dirigida por Carol Durão que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 23. A partir daí, Fred, que até então achava que "fazer a sua parte" era suficiente, se vê sozinho com filhos, uma casa e uma quantidade surreal de imprevistos.
O longa-metragem é uma adaptação de Mama se Fue de Viaje (2017), sucesso argentino do diretor Ariel Winograd. Mas a versão brasileira fez questão de construir um caminho próprio — e começou já no roteiro, assinado por Fil Braz, o mesmo de Minha Mãe é Uma Peça e Tô Ryca. "O roteiro já chegou trazendo um elemento muito brasileiro, que é essa viagem da mãe ser para Salvador", conta Carol Durão. "O que é o sonho do brasileiro quando pensa em tirar férias? Ah, vou pra Bahia, beber uma água de coco na frente da praia".
Calabresa e Infante, aliás, nem assistiram ao original antes de gravar. Uma escolha deliberada. "A gente não quer se comparar, não quer imitar", explicou Dani ao Estadão. "É legal criar do zero." Infante completou que "dá agonia isso" de assistir ao original e ter vontade de imitar. O melhor, para eles, era pensar os personagens sem essa influência.
Sobrecarga
Se a comédia é o veículo, o tema é sério — e atual. O filme coloca em cena algo que muitas famílias vivem sem nomear: a sobrecarga invisível da mãe, aquela que organiza a vida de todo mundo enquanto ninguém percebe que ela está afundando.
"A Roberta ama a família, ama os filhos, mas ela parou de ser vista", diz Calabresa. "Nem ela mesma percebia que estava sendo drenada. Então a irmã faz essa proposta de viajar, salvando e transformando tudo. O casamento, a família, a dinâmica toda".
Para a atriz, a atitude de Roberta é, acima de tudo, inspiradora. "A gente é criada pra achar que a mãe é responsável por tudo. Mas essa personagem se coloca em primeiro lugar", contextualiza a atriz. "Claro que tem culpa, porque tem muito amor. Mas esse movimento fez com que o Fred se colocasse no lugar dela e visse o perrengue que é cuidar de quatro crianças sozinha".
Infante, que é pai na vida real, admite que a vivência pessoal entrou em campo na construção do personagem. "Eu sendo pai, já passei muitos perrengues. Já não percebi perrengues que a minha companheira estava passando. Essa vivência, com certeza, foi emprestada para as emoções do Fred", diz. "Ser pai não é ajudar. É participar ativamente da criação e dividir as tarefas".
Crianças no set — e o caos produtivo
Uma das apostas mais arriscadas — e bem-sucedidas — do filme foi escalar um elenco mirim robusto. Além das crianças maiores, há um bebê de menos de dois anos em cena, papel dividido pelos gêmeos Caio e Pedro Costa. Carol Durão é enfática sobre o trabalho de preparação. "A gente sabia da importância de ter um elenco mirim forte, porque eles estavam, na maioria das cenas, com o Rafael Infante o tempo todo", diz.
A convivência entre o elenco foi cultivada antes das gravações, e o resultado aparece na tela. "No final da gravação era aquele choro — vai acabar, a gente vai se separar", lembra a diretora. "Eles realmente pareciam uma família no set".
Há ainda um detalhe que deu à história uma camada extra de verdade: Lara Infante, que interpreta Clarice, a filha de oito anos do protagonista, é filha de Rafael na vida real. "Foi lindo ver o talento dela desabrochando", disse o ator, emocionado. "Mas eu tinha um desafio pessoal: tentar não ser o pai de verdade dela. Ser uma colega de trabalho".
Com o bebê, a dinâmica era outra e igualmente desafiadora. "Quando a gente tem comediantes experientes como a Dani e o Rafa reagindo ao bebê, isso vira uma brincadeira de improviso", conta Durão. "Muitas coisas o Rafa conseguia pegar e criar em cima do que o bebê estava fazendo".
Para os protagonistas, as cenas mais difíceis de gravar foram justamente as com mais crianças no set. "A gente pode ficar um mês em silêncio. Criança não consegue um minuto. Energia infinita", brincou Calabresa. Mas logo em seguida reconheceu o outro lado de ter essa energia na hora de atuar. "Essa espontaneidade é o que nos dava alimento pra fazer as cenas com vontade".
Carol Durão e o humor como espelho
Diretora também de Doce Família (2022), outra adaptação de um longa latino-americano, Carol Durão vem construindo uma filmografia onde a comédia serve de lente para questões reais. Em Um Pai em Apuros, essa intenção é declarada.
"A vantagem de contar histórias é que você consegue falar sobre temas que nem sempre são simples de uma maneira muito visual", diz ela. "Em vez de só teorizar, a gente vai mostrar como é a vida da Roberta, como estava sendo difícil, e como a vida do Fred se torna difícil sem ela. A partir de uma história que faz graça sobre isso, a gente consegue fazer com que as pessoas reflitam".
O resultado, segundo a diretora, é um filme "divertido e solar, feito para toda a família rir, se reconhecer na tela e sair do cinema com o coração leve".
Calabresa concorda — e aproveita para jogar mais uma camada. "Pode ser um momento para rever os combinados dos casais", diz. "A gente é criado pra achar que a mãe vai dar conta de tudo. Mas o filme mostra a sobrecarga da mulher, e com humor, pra chamar todo mundo pra pensar. É hora disso".