'Papaya' transforma uma semente de mamão em personagem que quer voar

Primeiro longa de Priscilla Kellen, animação sem diálogos estreia nesta quinta-feira, 24, depois de passar por Berlim e mais de dez festivais internacionais

29 set 2026 - 15h06
Resumo
Dirigido por Priscilla Kellen, o longa de animação brasileiro "Papaya" narra a jornada de uma semente de mamão dividida entre criar raízes e o desejo de voar. Sem falas em seus 74 minutos, a obra aposta na narrativa visual para abordar liberdade, maternidade e pertencimento. Com estética 2D inspirada na arte latino-americana, o filme teve sete anos de produção e alcançou repercussão global ao se tornar a primeira animação nacional selecionada para a mostra Generation KPlus do Festival de Berlim.

Uma semente de mamão olha para o céu e decide que quer voar. O problema é que sementes foram feitas para criar raízes - e é justamente entre esses dois desejos, o de partir e o de pertencer, que se constrói Papaya, primeiro longa-metragem de Priscilla Kellen, que chegou aos cinemas brasileiros na quinta-feira, 24. Sem uma única fala em seus 74 minutos, a animação transforma cores, sons, movimentos e formas em uma história sobre descobrir o próprio lugar no mundo.

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A ideia nasceu em 2018 e atravessou sete anos de produção. Nesse período, muita coisa mudou, inclusive a relação da diretora com a protagonista. No início, Priscilla se identificava mais com a mãe-mamoeiro. Conforme a personagem foi ganhando corpo, porém, passou a reconhecer-se naquela pequena semente teimosa, curiosa e determinada a olhar para cima.

"Eu me divertia ao observar a teimosia dela tão natural, que beirava a distração", conta ao Estadão. Foi também durante esse processo que a diretora passou a confiar cada vez mais na possibilidade de fazer um filme sem diálogos sobre temas como liberdade e diversidade sem precisar explicá-los em palavras.

Em 'Papaya', uma semente de mamão encara o mundo
Em 'Papaya', uma semente de mamão encara o mundo
Foto: Cajuína Audiovisual/ Divulgação / Estadão

A semente Papaya funciona como uma criança diante do mundo. Ela quer conhecer tudo, movimentar-se, experimentar possibilidades, mas ainda não tem autonomia para fazer exatamente o que deseja. A metáfora ganhou uma dimensão pessoal para Priscilla quando ela se tornou mãe. "Essa metáfora veio no desenvolvimento da personagem semente Papaya, ao imaginá-la como um bebê e em comparação, de observar meu filho e os bebês em geral, sempre curiosos, olhando para cima, querendo agarrar o mundo, em contraponto à pouca autonomia de fato permitida a eles", afirma.

A partir daí, a ideia de criar raízes deixou de significar apenas ficar parado. Priscilla começou a enxergá-la também como uma forma de encontrar sustentação. O nascimento do filho havia provocado nela a sensação de que algumas escolhas deixavam de ser completamente individuais, ao mesmo tempo em que mostrava a importância das redes de apoio.

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"Esse enraizamento nem tão voluntário assim foi se mostrando útil e necessário, no sentido de ancoramento na vida, nos processos, e na construção de redes de apoio mútuo e de trocas de saberes", diz.

No filme, porém, Papaya ainda precisa descobrir isso. Apaixonada pela ideia de voar, ela tenta escapar daquilo que parece ser seu destino. A jornada começa como uma busca por liberdade e vai se transformando à medida que a personagem percebe que criar raízes não significa necessariamente abrir mão do movimento.

'Tropicalismo pós-apocalíptico'

A escolha de contar essa história sem diálogos foi uma consequência natural da própria forma como Priscilla entende a comunicação. Para ela, muito do que as pessoas dizem umas às outras já está presente antes das palavras: no rosto, nos gestos, na respiração e na maneira de se mover.

'Papaya' é uma metáfora sobre o crescer -- e suas dificuldades
Foto: Cajuína Audiovisual/ Divulgação / Estadão

"Se a gente observar bem, vai perceber que nossa comunicação acontece bastante no não verbal", afirma. "Muitas vezes usamos as palavras apenas para reforçar algo que já foi dito através de expressões faciais, gestos, respiração e outros movimentos."

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A diretora levou essa lógica para a linguagem de Papaya. Ao lado dos recursos tradicionais do desenho animado e do cinema mudo, incorporou elementos de videoclipe e infográfico. O resultado é uma narrativa que não tenta traduzir tudo o que a personagem sente, mas deixa que o espectador acompanhe suas descobertas.

Isso vale especialmente para as crianças. Em vez de construir uma história em que cada imagem precisa ter um significado inequívoco, Priscilla preferiu deixar espaços vazios para serem preenchidos por quem assiste. "Confiando que cada pessoa, independente da idade, é capaz de observar a vida à sua volta, de interpretar e dar significados próprios aos acontecimentos", explica. A intenção, segundo ela, era criar lacunas tanto na narrativa quanto nas imagens, sem comprometer o entendimento da história.

Essa liberdade também aparece na própria estética do filme. Papaya é uma animação extremamente colorida, construída em 2D e influenciada por grafismos e artesanatos latino-americanos, além de referências que vão de sacolas de feira e colchas de retalho às colagens de Henri Matisse. Priscilla encontrou uma definição própria para a mistura: "tropicalismo pós-apocalíptico".

A expressão pode parecer contraditória, mas combina com uma animação que não tenta construir um mundo infantil asséptico. As formas, cores e texturas têm uma materialidade quase artesanal. E foram pensadas desde o início também a partir das limitações concretas de produção.

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Priscilla queria um visual rico, mas precisava que ele pudesse ser reproduzido por uma equipe de animação sem transformar cada quadro em uma operação impossível. "Eu já sabia que não conseguiria fazer eu mesma todas as artes do filme, e que o estilo de animação precisaria ser econômico", conta.

O visual de "tropicalismo pós-apocalíptico" de 'Papaya'
Foto: Cajuína Audiovisual/ Divulgação / Estadão

A solução foi encontrar um desenho que preservasse a personalidade visual mesmo quando executado por diferentes profissionais e estúdios. Conforme a produção avançou, algumas escolhas foram ajustadas para tornar o trabalho viável, sem perder o frescor que a diretora buscava.

A bagagem por trás do sucesso internacional

A experiência acumulada por Priscilla ajuda a entender essa segurança visual. Formada em Design Gráfico pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), ela trabalhou durante anos com animação, ilustração e televisão e passou pelo estúdio Filme de Papel, onde foi assistente de animação em Garoto Cósmico e coordenadora artística e assistente de direção em O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, que também é coprodutor de Papaya.

Mas a trajetória do filme não ficou restrita ao Brasil. Antes de chegar às salas brasileiras, Papaya foi selecionado para a mostra Generation KPlus do Festival de Berlim de 2026, tornando-se o primeiro longa-metragem de animação brasileiro a participar da competição. Também passou por festivais como o New York International Children's Film Festival, Anima, em Bruxelas, Festival de Xangai e BAFICI, em Buenos Aires.

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Para Priscilla, a recepção internacional acabou revelando algo que combina com a própria proposta do filme: apesar das diferenças culturais, algumas inquietações atravessam fronteiras.

"O que eu tenho percebido é que, apesar das diferenças culturais, de uma maneira geral as pessoas se emocionam e saem do filme reflexivas porque estão preocupadas com o destino do planeta e da nossa espécie, desejando viver uma vida mais natural e leve, com espaço para os sonhos e a poesia", afirma.

E talvez seja justamente por isso que a pequena semente continue olhando para o alto. "Em essência, acho que somos muito mais parecidos do que diferentes", diz.

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