'Overman', adaptação de Laerte, leva às telas anti-herói brasileiro: 'Deadpool com Macunaíma'

Caco Ciocler e o diretor Tomás Portella falam sobre os riscos de adaptar o personagem de Laerte para uma comédia sobre o Brasil

23 out 2026 - 18h11
Resumo
Dirigido por Tomás Portella e estrelado por Caco Ciocler, o filme "Overman" adapta o anti-herói dos quadrinhos de Laerte para os cinemas. Definido como uma mistura de "Deadpool com Macunaíma", o longa traz uma sátira tipicamente brasileira sobre um herói falho, endividado e inseguro, que aceita trabalhar na Secretaria de Segurança Pública. A produção aposta no exagero e no improviso do elenco, atualizando piadas e costumes das tirinhas originais para manter viva a crítica social.

"Meu amor, não faço a menor ideia". Foi assim, entre risos, que Caco Ciocler respondeu à pergunta sobre como construir um personagem que precisa ser engraçado sem abrir mão de uma jornada emocional. Em Overman, que chegou aos cinemas nesta quinta-feira, 22, o ator veste a máscara de um super-herói que mal consegue dar conta da própria vida. Para encontrar o tom do personagem, foi preciso experimentar, improvisar e aceitar a possibilidade de que nem tudo funcionasse. "Foi um salto sem paraquedas", resume.

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Criado pela cartunista Laerte em 1998, Overman tem superpoderes, mas está longe de ser um modelo de virtude ou eficiência. Endividado, de ressaca e instalado numa pensão precária, ele enfrenta problemas bem menos grandiosos do que aqueles que costumam ocupar os super-heróis americanos. Sua chance de mudar de vida surge quando o Governador (Otavio Muller) o convida para trabalhar na Secretaria de Segurança Pública. O novo emprego, porém, traz uma concorrente à altura: Pâmela, a Mulher Cachorro (Karina Ramil), recém-chegada ao cargo e, para seu desgosto, mais competente e admirada do que ele.

Caco Ciocler como Overman, super-herói criado por Laerte.
Caco Ciocler como Overman, super-herói criado por Laerte.
Foto: Felipe Cheung/Divulgação / Estadão

Dirigido por Tomás Portella, do interessante Aumenta que é Rock'n'Roll, o filme transforma o personagem das tirinhas numa figura de carne, osso e figurino apertado, sem perder de vista o humor satírico de Laerte. O desafio era fazer essa criatura funcionar para além das situações rápidas dos quadrinhos, dando corpo a suas contradições sem domesticá-las. E, no processo, descobrir até onde seria possível levar o exagero.

Um salto sem paraquedas

Caco não tinha todas as respostas quando começou a filmar. Parte delas surgiu diante das dificuldades práticas de interpretar um herói mascarado, com movimentos e poderes que precisavam convencer na tela. O figurino chegou pouco antes do início das gravações, e o elenco teve de descobrir como voar, balançar e expressar emoções com boa parte do rosto coberta. As limitações materiais, longe de serem apenas obstáculos, acabaram interferindo na composição do personagem.

"A gente não tem um orçamento de milhões e milhões. Teve que se virar com coisas concretas que definiram, inclusive, a personalidade desse cara", diz o ator. A máscara impunha uma questão especialmente delicada: como transmitir sentimentos quando o rosto, principal instrumento de expressão de um ator, está quase todo escondido? A resposta de Portella foi tão simples quanto arriscada. "Gente, o filme se chama Overman. O over tem que estar presente", lembra Caco.

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A partir daí, o elenco apostou na projeção da voz, nos movimentos amplos e num comportamento deliberadamente exagerado. A dúvida era se aquilo funcionaria quando fosse transportado para a tela. "Uma coisa é você fazer ali. Outra coisa é isso retransformado em duas dimensões. Como é isso na tela? Isso é pequeno, isso é grande?", questiona o ator.

Overman, personagem criado por Laerte para os quadrinhos, agora chega às telas de cinema
Foto: Devir/Divulgação / Estadão

A confiança no diretor foi decisiva para que o elenco se permitisse errar. Portella queria que os atores experimentassem sem a preocupação constante de acertar de primeira. "Se o elenco não sente essa confiança, o cara só vai jogar o que ele acha que vai dar certo, e a gente fica muito preso a uma coisa muito enquadrada", afirma. "O erro é a matéria-prima de todo desenvolvimento científico, humorístico, social".

Quando uma improvisação funcionava, a orientação era incorporá-la ao filme. A produtora Iafa Britz, que acompanhava o processo, conta que às vezes se surpreendia com a disposição dos atores para levar a proposta às últimas consequências. "Meu Deus, eles têm coragem de fazer isso, é inacreditável!", lembra de pensar. O diretor dava corda, e o elenco seguia adiante. "Eles estão realmente acreditando que são super-heróis", diz ela.

Portella costuma recorrer a uma imagem contada por um tio argentino, também ator, para explicar o trabalho de interpretação: atuar é querer dormir. A pessoa se deita e finge que está dormindo até que, em algum momento, adormece de verdade. No set de Overman, a lógica foi parecida. "É um pouco isso que eles fazem. Até que uma hora eles viram super-heróis", diz o diretor.

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Entre Deadpool e Macunaíma

A liberdade para experimentar, no entanto, não significava fazer qualquer coisa com o personagem. Para Portella, adaptar Laerte exigia preservar justamente aquilo que torna Overman uma figura desconcertante: sua incapacidade de se ajustar às regras do mundo, combinada a uma autoconfiança que nem sempre encontra respaldo na realidade.

"Ele é uma sátira do super-herói, mas também uma sátira do povo brasileiro, de características do homem brasileiro, dessa insegurança misturada com uma autoestima", afirma Caco. "Fala que é muito foda, que é incrível, mas, na verdade, senta no divã pensando que é uma fraude'.

Os personagens criativos de 'Overman'
Foto: Horz/Divulgação / Estadão

O diretor resume a mistura como uma combinação de "Deadpool com Macunaíma". De um lado, está a paródia do herói americano, com seus poderes e sua fantasia de grandeza. De outro, um personagem que encarna contradições muito familiares: quer ser extraordinário, mas tropeça nas próprias limitações; reivindica força e autoridade, mas nem sempre sabe o que fazer com elas.

A graça, ressalta Portella, já estava nas tirinhas. Overman se veste como um super-herói americano e sonha com esse modelo de heroísmo, mas vive no Brasil. "Então, os problemas são outros. Esta é a graça", diz. A adaptação não inventou essa tensão; procurou encontrar uma maneira de fazê-la funcionar numa história de longa-metragem.

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Para Caco, o trabalho envolveu "tridimensionalizar uma coisa que é bidimensional". Nos quadrinhos, uma situação se resolve em poucos quadros. No cinema, é preciso descobrir como aquele homem se senta, deita, come e reage quando não há uma piada pronta à sua espera. A tarefa era preencher os espaços deixados pela tira sem perder seu raciocínio particular.

O humor da Laerte, observa o ator, nem sempre se entrega de imediato. Diante das histórias de Overman, ele sentia vontade de voltar aos quadrinhos para tentar entender por que estava rindo, ou o que exatamente o mantinha fascinado. Era dessa estranheza que precisava nascer a interpretação.

A adaptação também exigiu atualizar o personagem para o presente. O vício em fliperamas virou uma relação com videopôquer e caça-níqueis; Pauline, que era modelo, passou a ser influencer. Outras situações precisaram ser repensadas por motivos que vão além da passagem do tempo. Nas tirinhas, Overman saía às sextas-feiras em busca de sexo com quem encontrasse pela frente. A piada, explica Portella, já não poderia ser reproduzida da mesma maneira.

"Ele estava abusando das pessoas", reconhece o diretor. A solução foi preservar a sexualidade excessiva do personagem, mas colocá-la "sempre em um lugar de consenso". Mais do que atualizar referências, era necessário entender quais comportamentos poderiam continuar fazendo parte da sátira sem que o filme simplesmente reproduzisse aquilo que pretendia questionar.

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Esse cuidado se estende à figura masculina que está no centro da história. Para Portella, a equipe precisava enfrentar as contradições do personagem, e não contorná-las em nome da comédia. "A gente se sente obrigado a questionar o masculino desse personagem e o que tem dentro de nós em todas essas coisas", afirma. "Não podemos abrir mão de fazer uma obra que envolva uma atitude mais corajosa, porque senão não teria nem coragem de olhar para a cara da Laerte depois de mostrar o filme."

Uma sátira que não envelhece

A crise de identidade de Overman ajuda a explicar por que o personagem continua encontrando matéria para suas trapalhadas. Ele não é apenas um herói fracassado, mas alguém que tenta conciliar a imagem grandiosa que tem de si mesmo com uma realidade que insiste em desmenti-la. A comédia nasce, em boa medida, desse descompasso.

Rodado em 2025, o filme pareceu ganhar atualidade a cada nova etapa de montagem, conta Iafa. O processo de adaptação foi longo, e as sucessivas revisitas ao material produziram uma impressão curiosa: em vez de se afastar do presente, Overman parecia se aproximar dele.

"Tem alguma coisa ali no filme que realmente tem esse lugar de uma boa sátira político-existencial e divertida", diz a produtora. A permanência do personagem, porém, não é necessariamente motivo de comemoração. "Seria ótimo que ele ficasse datado em algum momento, mas tenho a sensação de que ele não vai ficar datado nunca, porque é um reflexo muito grande de uma sociedade que está patinando no mesmo lugar há muito tempo."

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