Tudo vai bem na vida do casal Charlie (Robert Pattinson, de Crepúsculo) e Emma (Zendaya, de Duna). Eles se conheceram em um café, trocaram algumas palavras atrapalhadas e se apaixonaram. Agora se preparam para o casamento, escrevendo os votos e ensaiando a grande dança. Até que o inesperado acontece: em um jogo com dois amigos, ela revela algo de seu passado que ninguém imaginava. Aí vem aquela pergunta clássica do Direito e da filosofia: a intenção faz a culpa?
Esse é o ponto de partida de O Drama, longa-metragem com sessões adiantadas nesta quinta-feira, 2, e com estreia oficial no dia 9.
Dirigido pelo criativo cineasta Kristoffer Borgli, de O Homem dos Sonhos, O Drama surpreende por conseguir juntar dois tons distintos numa mesma história: o drama de um casal que inesperadamente se vê em um conflito de ideias que pode colocar um ponto final no casamento; e a comédia dessas duas pessoas que simplesmente não se entendem. Ou seja: a mesma situação-problema causa reações distintas.
É algo que já estava sendo muito explorado no cinema de Borgli, sempre atento às questões que despertam absurdos, unindo esses dois gêneros, em tese, tão dispares. Antes tinha sido com uma mulher hipocondríaca e viciada em medicamentos e, depois, com o professor que, repentinamente, aparece no sonho (e pesadelos) de todas as pessoas ao redor do mundo. Agora, na narrativa mais madura de sua filmografia, investiga o que acontece nos relacionamentos.
Nova era da comédia romântica
Não dá para assistir ao filme e não pensar que, no fundo, a produção é uma interessante forma de atualizar as comédias românticas para os dias de hoje. Afinal, O Drama versa não só sobre a questão de culpa, mas também sobre cancelamento, essa atitude digital que pode acabar com a vida de alguém. E se isso acontecesse no mundo real? E se alguém não conseguisse lidar com a simples ideia de outra pessoa ter pensado em fazer algo errado?
Pattinson e Zendaya ajudam a levar o filme pra frente, acompanhando as nuances dessa história que transita entre gêneros. Atores com menos química poderiam atrapalhar a imersão na coisa toda, mas os dois ajudam a construir o clima: compramos a ideia de uma paixão fulminante quando eles se conhecem e, principalmente, compramos a ideia quando os dois passam a desconfiar um do outro — um por causa da ideia do parceiro de fazer algo errado; o outro, pela desconfiança. Sentimentos bem etéreos que são materializados por Pattinson, Zendaya e Borgli.
Assim, se as comédias românticas de outras épocas falavam sobre questões econômicas e sociais, O Drama fala basicamente sobre se encaixar e aceitar. É possível simplesmente suportar a ideia do parceiro andar fora da linha? Como aguenta uma pessoa com questionamentos morais por trás? Dá pra suportar viver com o cancelamento? É uma discussão nova e que dá um gás para filmes sobre amor — lembrando, claro, que O Drama está mais pra comédia dramática com toques de romance do que para uma comédia romântica de fato.
O Drama, assim, já é um dos filmes mais originais de 2026 — ano repleto de ideias um tanto recicladas nas telonas. Claro que ainda é muito cedo pra dizer, ainda mais com Nolan, Iñarritú e Spielberg pela frente, mas esta produção da A24 pode chegar com fôlego para a temporada de premiações de 2027. Tratar de temas como cancelamento, culpa e intenção é ousado, principalmente quando a conversa funciona. E em O Drama funciona muito bem.