A obra do escritor gaúcho Daniel Galera é tão visual, tão precisa nas suas descrições, que qualquer leitor atento sente estar diante de algo pronto para ser filmado. O diretor Aly Muritiba sentiu exatamente isso quando leu as primeiras 30 páginas de Barba Ensopada de Sangue, em 2012. "Falei: alguém vai filmar isso", conta. Mais de uma década depois, é ele quem assina a direção do longa, que estreia em todo o Brasil nesta quinta-feira, 2 de abril.
O filme acompanha Gabriel (vivido por Gabriel Leone), um professor de natação que, após a morte do pai, parte para a praia da Armação, no sul do Brasil, em busca das origens da família. O que encontra são versões contraditórias sobre a figura misteriosa do avô, um esqueleto de baleia e uma cidade que tenta enterrar seu passado a qualquer custo.
Uma jornada de dentro para fora
Para Leone, o filme representou algo além de um desafio técnico. "Eu tive um avô gaúcho também, que era da Marinha e se transferiu para o Rio quando era jovem", conta o ator ao Estadão. "Ele faleceu quando eu tinha cinco anos. Vivi e vivo com essa saudade, com essa ausência, esse desejo de compartilhar tudo que vivo com ele." Quando leu o roteiro — enviado por Muritiba durante a pandemia —, Leone entendeu imediatamente que faria o filme. "A arte me possibilitava vivenciar algo que eu sempre quis muito", disse.
O tempo certo
Quando Barba Ensopada de Sangue chega às telas, o cinema brasileiro vive um momento de renovado interesse do público por narrativas que falam de memória, identidade e pertencimento. Títulos como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto lotaram salas e geraram debate. Muritiba vê nisso algo de esperançoso. "O público, principalmente o jovem, está interessado em participar da construção de uma memória e de uma identidade própria", diz. "E isso está sendo feito de maneira crítica. Quando eu vejo a minha filha de 18 anos assistindo a um filme como Ainda Estou Aqui e achando incrível, como entretenimento, mas também por tudo que ele discute, fico realmente comovido", comenta.
Para Leone, o tema ressoa além da tela porque ressoa dentro de cada um. "A era da internet, da velocidade, de uma certa cobrança para você ter que ser alguma coisa, ter que performar, ter que opinar — em algum momento isso tudo fica muito confuso. E o caminho do autoconhecimento, da memória, da tua essência, de quem você é, é um caminho possível", afirma.
Barba Ensopada de Sangue é um filme de poucas palavras e muitas camadas. Começa com uma estrada — alguém pegando o caminho em direção a uma jornada — e termina com uma abertura, não um ponto de chegada. Como disse Muritiba ao final da entrevista, ao ser pedido para descrevê-lo em poucas palavras: "é um filme sobre identidade que tem baleias na história".