Irã X Israel: 'Tatame' tenta traduzir conflitos geopolíticos para o mundo do esporte

Em cartaz nos cinemas e dirigido pela dupla Guy Nattiv, israelense, e Zar Amir Ebrahimi, iraniana, filme fala sobre uma atleta do Irã impedida de disputar contra Israel

4 abr 2026 - 12h11

Esportes sempre foram uma continuação de campos de batalha e de tensões sociais. Seja nas Olimpíadas de Berlim, com Hitler frustrado com as vitórias de Jesse Owens, por exemplo, ou até mesmo a Guerra do Futebol, entre El Salvador e Honduras em 1969. E é justamente isso que Tatame, longa em cartaz nos cinemas brasileiros, quer representar: as tensões políticas e sociais entrando em campo.

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No filme dirigido pela dupla Guy Nattiv (israelense, vencedor do Oscar pelo curta Skin) e Zar Amir Ebrahimi (atriz e diretora iraniana, premiada em Cannes por Holy Spider), uma atleta iraniana (Arienne Mandi) passa a ter bons resultados em uma competição de judô. A situação muda completamente, porém, quando ela vai para uma disputa definitiva contra uma atleta de Israel. O caos político está instalado.

Afinal, o Irã não reconhece Israel como um país. Como a atleta, assim, pode competir com uma rival de um Estado inexistente? Os líderes do governo iraniano querem barrar a disputa de qualquer forma, forçando a judoca a desistir do torneio — entregando, assim, a vitória para a rival de Israel.

'Tatame' filme dirigido pela dupla Guy Nattiv, israelense, e Zar Amir Ebrahimi, iraniana, fala sobre esporte, liberdade e opressão.
'Tatame' filme dirigido pela dupla Guy Nattiv, israelense, e Zar Amir Ebrahimi, iraniana, fala sobre esporte, liberdade e opressão.
Foto: Kajá Filmes/ Divulgação / Estadão

Dentro e fora do tatame

É uma situação tensa, angustiante e que imediatamente faz surgir o senso de injustiça. Como pode isso acontecer? Como a geopolítica pode influenciar uma disputa esportiva? Aos poucos, porém, os diretores vão além: mostram que a disputa esportiva também é geopolítica. Mais do que vitórias ou derrotas, o próprio ato de competir diz muito — e diz algo que o Irã não estava disposto naquele momento.

Apesar de não ser uma história real, os diretores se inspiraram em casos reais da política no judô mundial. O principal deles é o do judoca iraniano Saeid Mollaei, que em 2019 foi pressionado pelo regime a perder lutas para evitar enfrentar o israelense Sagi Muki no Mundial de Tóquio. Mollaei acabou desertando e se naturalizando mongol. O filme "troca o gênero" para contar a história por meio de uma mulher, dando ênfase à luta feminina e à repressão específica que as atletas iranianas enfrentam.

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Por um lado, isso funciona muito bem. Com uma belíssima fotografia em preto e branco e boa atuação de Mandi, que transporta o senso de injustiça ao longo da narrativa, Tatame sabe como falar sobre geopolítica, liberdades individuais e direitos coletivos. Tudo isso entra em pauta e, mesmo que pareça um tanto excessivo, funciona no que se propõe.

'Tatame' fala sobre tensões dentro e fora do esporte e, apesar de não ser uma história real, os diretores se inspiraram em casos reais da política no judô mundial.
Foto: Kajá Filmes/ Divulgação / Estadão

O que incomoda, e é difícil tirar os olhos, é pensar como o longa-metragem é unidimensional nessa briga. Mesmo tendo um cineasta israelense e outra iraniana, toda a trama pesa para o lado do Irã. Será que a atleta israelense não sofreu nenhum tipo de pressão? Como via essa questão? Como o governo se comunicava como ela e como evitavam possíveis tensões? É ingênuo, e até um pouco maldoso, pensar que isso só acontecia de um lado, ainda mais quando o longa deixa claro que a tensão extrapola.

Faltou um pouco mais de coragem e ousadia à inusitada dupla Nattiv e Ebrahimi em cutucar, provocar, ousar, questionar e, acima de tudo, amplificar as vozes de uma narrativa. Em tempos em que o assunto está tão em alta, mesmo com o filme pronto há quase três anos, é impensável achar que existe repressão de um lado só. Tatame tenta mostrar o tabuleiro da geopolítica, mas se deixa tomar pelo medo e pela ingenuidade. Uma pena, já que as boas ideias já estavam postas.

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