Febre das adaptações: Como o cinema e o streaming abraçaram best-sellers e clássicos

Estúdios recorrem a histórias com público formado, enquanto editoras registram aumento nas vendas e lançam novas edições

30 set 2026 - 12h07
Resumo
Adaptações literárias dominam o streaming e o cinema com audiência 21% superior a obras originais, impulsionadas por tramas testadas e bases fiéis de fãs. O debate nas redes sociais amplifica expectativas e comparações com os livros, aceitando ajustes que favoreçam o audiovisual. Esse fenômeno gera impacto no mercado editorial: lançamentos audiovisuais chegam a triplicar as vendas das obras impressas, impulsionando também novas edições e o resgate de clássicos por um público ampliado.

Best-sellers e clássicos da literatura têm deixado as páginas dos livros e chegado ao cinema e ao streaming em novas adaptações. Na última quarta-feira, 23, A Hipótese do Amor, romance de Ali Hazelwood, estreou no streaming; ainda este ano, ganham as telas Verity, de Colleen Hoover; Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita; e a nova série de Harry Potter. De gêneros e épocas diferentes, essas obras chegam com algo em comum: personagens conhecidos e leitores já reunidos em torno de suas histórias.

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Entre as séries dramáticas originais britânicas e americanas disponíveis na Netflix, no Prime Video e no Disney+ entre janeiro de 2024 e junho de 2025, 48% partiram de livros. As adaptações alcançaram audiência média 21% superior à das produções sem origem literária, segundo relatório publicado em março de 2026 pela Publishers Association.

Não que a presença da literatura no audiovisual seja novidade. "A adaptação é uma prática histórica e constante", afirma Fabiano Grendene de Souza, cineasta e professor do Curso de Produção Audiovisual da PUCRS.

Anne Hathaway é uma das estrelas de 'Verity', adaptação do best-seller da autora Colleen Hoover.
Anne Hathaway é uma das estrelas de 'Verity', adaptação do best-seller da autora Colleen Hoover.
Foto: Amazon MGM Studios/Divulgação / Estadão

Seja no presente ou no passado, o interesse das produtoras sempre esteve fortemente ligado ao percurso da obra antes de chegar às telas. "A ideia central é compreender a literatura como um manancial de narrativas e personagens já consolidados e testados pelo público leitor. Essa preexistência, ao ser transposta para o audiovisual, facilita frequentemente o diálogo com uma audiência mais ampla", explica.

O lado do leitor

Para quem conhece o livro, a comparação começa antes da estreia. A escolha do elenco, as cenas incluídas no roteiro e as mudanças nos personagens passam a ser discutidas a partir dos primeiros anúncios.

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"A primeira coisa é a gente querer ver aquilo que marcou a leitura para a gente", afirma a criadora de conteúdo Cris Siqueira, do perfil Cris e Panda. Ela define essa expectativa como a busca pelo mesmo "retrogosto" deixado pelo livro. A adaptação não precisa reproduzir todas as cenas, mas deve preservar algum sentimento associado à leitura.

Cada leitor, no entanto, imagina a aparência, a voz e o comportamento dos personagens a partir das próprias referências. O audiovisual escolhe uma dessas interpretações. Uma passagem secundária para o roteiro pode ser justamente a cena preferida de parte do público.

A diferença entre essas interpretações alimenta a frase recorrente de que "o livro é melhor". Algumas críticas se concentram em detalhes que pouco alteram a história. Outras apontam a retirada de personagens, discussões ou acontecimentos centrais.

Cris considera aceitáveis as mudanças que dão fluidez ao roteiro, conectam temporadas ou atualizam a linguagem para outra geração. "Acho que faz sentido lembrar que o livro vai estar sempre ali para a gente", diz.

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As redes sociais concentram discussões que antes ficavam restritas a grupos de amigos ou fãs. Elencos sugeridos, cenas esperadas e alterações no roteiro geram conteúdo antes e depois da estreia. Embora as adaptações sempre tenham feito parte do cinema, o diferencial atual está no volume da conversa em torno delas - o que contribui também para que se tornem ainda mais conhecidas e gerem mais expectativas no público.

O retorno às livrarias

Segundo dados da NielsenIQ BookData reunidos no relatório Books on Screen, da Publishers Association, o livro Um Dia, de David Nicholls, vendeu 3.216 exemplares no Reino Unido nas 26 semanas anteriores à estreia da série da Netflix, em fevereiro de 2024. Nas 26 semanas seguintes, foram 143.193 cópias.

'Um Dia', romance de David Nicholls, fez sucesso na Netflix
Foto: Netflix/Divulgação / Estadão

Na experiência da editora Rocco, as vendas costumam ao menos dobrar ou triplicar quando uma adaptação é anunciada ou lançada, segundo a editora-executiva Ana Lima. O resultado varia conforme o alcance do filme ou da série e costuma ficar concentrado no título adaptado ou nos outros volumes da mesma coleção.

Obras antigas também podem voltar ao centro das atenções. Ana cita o relançamento em 4K de A Hora da Estrela, filme de 1985 dirigido por Suzana Amaral. A nova circulação da produção e a publicação de trechos nas redes sociais aumentaram a procura pelo livro de Clarice Lispector, que já registrava vendas antes do relançamento.

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Antes da estreia, a editora revê tiragem, estoque, distribuição e divulgação. As adaptações também favorecem o lançamento de boxes, audiolivros e edições ilustradas. "Nas franquias maiores, os fãs são sedentos por novidades", afirma Ana. A editora prepara novos produtos de Jogos Vorazes e Harry Potter para acompanhar as próximas produções audiovisuais.

Nem toda estreia vende livros, assim como nem todo comprador necessariamente conclui a leitura. A adaptação, porém, reabre o contato do público com a obra. Quem começa pelo livro chega à tela com uma referência; quem começa pelo filme ou pela série pode encontrar nas páginas outra versão da mesma história.

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