As Correntes, filme que estreia nesta quinta-feira, 18, nos cinemas, carrega em seu título uma dupla promessa: a literalidade da água que arrasta e o peso invisível das coisas que ficam presas na gente. Este terceiro longa-metragem da argentina Milagros Mumenthaler, de Abrir Portas e Janelas e A Ideia de um Lago, cumpre essa promessa com uma precisão rara: é um filme que nunca explica o que sente, mas que faz o espectador sentir junto.
A história começa com um gesto dúbio. Pode ser tanto suicídio quanto libertação. Afinal, a protagonista Lina (Isabel Aimé González-Sola), estilista no auge da carreira, se joga em um rio durante uma premiação na Suíça. Ninguém sabe. Ela volta para Buenos Aires e não conta nada a ninguém. Mas algo mudou dentro dessa personagem tão distante, silenciosa.
Entre o nada e o tudo
É nesse espaço, entre o que aconteceu e o que Lina não consegue nomear, que Mumenthaler constrói seu filme. Há uma fobia à água que se instala, reorganizando a rotina, os vínculos, a sensação de controle que Lina acreditava ter conquistado. Afinal, a diretora entende que trauma funciona assim: não como revelação, mas como rearranjo silencioso das coisas do dia a dia. O que era fácil fica difícil. As pessoas que eram próximas ficam estranhas. E a vida segue, teimosamente, como se nada tivesse acontecido na Suíça.
Isabel Aimé Gonzalez-Sola carrega o filme com uma performance de economia absoluta. Silêncio total, com todos os sentimentos traduzidos apenas nos olhos. Há momentos em que Lina está em cena, falando, funcionando, e ainda assim parece que parte dela está em outro lugar, submersa. É uma atuação que confia no silêncio, o que exige, também, que o espectador confie. Mumenthaler não torna esse processo fácil, e faz bem em não tornar.
Obviamente, esse processo instala um distanciamento do espectador. Muitos poderão se afastar de Lina e não abraçar a personagem. Esse é o perigo de filmes como As Correntes, que podem cair no hermetismo gratuito. A câmera elegante como substituta de significado, o silêncio como pose. Mumenthaler, porém, desvia desse risco porque há, por baixo de toda a contenção formal, uma urgência emocional reconhecível. Não é preciso ter se jogado em rio nenhum para entender Lina. Basta ter guardado alguma coisa que não coube em palavras.
As Correntes, assim, é um filme que intriga sem manipular e que não precisa falar muito — na verdade, fala quase nada. Num cinema argentino contemporâneo que já acostumou o mundo a uma certa qualidade, e As Correntes se situa muito bem dentro dessa tradição, Mumenthaler encontrou sua voz mais segura e mais corajosa até aqui. É um filme que afasta, sim, mas que também pode encontrar espaços raros no silêncio de cada um.