'A bossa nova privilegia um determinado recorte', diz diretora de filme sobre Alaíde Costa

Liliane Mutti afirma que longa busca recolocar a cantora entre os personagens fundadores do movimento

20 jul 2026 - 12h12

Enquanto Liliane Mutti filmava Miúcha, a Voz da Bossa Nova, ela vivia em Paris. Do outro lado do oceano, em São Paulo, estava Alaíde Costa. Cantora, compositora, pianista, uma das vozes negras que ajudaram a fundar a bossa nova ao lado de João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Foi nesse hiato geográfico, entre uma cidade e outra, que chegou às mãos da diretora Faria Tudo de Novo, a biografia autorizada de Alaíde escrita por Ricardo Santhiago. O livro seria decisivo: continha a história que a própria artista queria deixar registrada, contada em primeira pessoa. Dali nasceria A Noite de Alaíde, quarto longa de Mutti, que estreia nesta quinta-feira, 16, simultaneamente no Brasil e na Europa.

"Costumo dizer que faço um 'cinema do sim'. Gosto de lembrar a frase de Clarice Lispector: 'Tudo no mundo começa com um sim'", diz a diretora. "O que mais me interessava era justamente partir da voz da própria Alaíde, respeitando a forma como ela escolheu contar sua vida."

O filme mistura ficção, animação e imagens de arquivo para acompanhar os 70 anos de carreira e os 90 de vida de Alaíde, uma garota do subúrbio carioca que chegou às rodas da zona sul dos anos 1960 já formada como artista, e que, no auge do movimento que ajudou a criar, foi sumariamente ignorada pelas gravadoras. Junto com Johnny Alf, outro pioneiro negro da bossa nova, ela ficou de fora da lendária apresentação no Carnegie Hall, em Nova York. Décadas depois, aos 90 anos, atravessa os Estados Unidos atrás do palco que sempre foi seu por direito.

A animação, assinada por Guilherme Hoffmann, usa rotoscopia em 2D para dar corpo a memórias que não têm registro em imagem e as cores da obra mudam conforme as emoções das personagens, num processo que, segundo a diretora, espelha a própria natureza da memória: "ela é viva, subjetiva e atravessada por afetos."

Entre as camadas mais delicadas do filme está o que Mutti chama de "maternidade roubada" de Alaíde. É o momento em que ela precisa levar os filhos para acompanhá-la em shows por não ter com quem deixá-los, e o desfecho em que as crianças acabam criadas pelo pai e pela segunda esposa dele.

"Essa situação revela uma questão muito maior: a dificuldade histórica de reconhecer que uma mulher pode ser, ao mesmo tempo, mãe e artista", diz a diretora. "Um artista homem pode ser pai, ter uma carreira, circular pelo mundo, e isso raramente é visto como uma contradição. Para as mulheres, durante muito tempo, a sociedade impôs escolhas cruéis."

E agora, enquanto o filme sobre Alaíde chega às telas, a diretora já avança na montagem de seu próximo longa, dedicado a Angela Ro Ro, com lançamento previsto para 2027. "Angela representa, para mim, uma das grandes feridas da música brasileira", adianta. "Assim como Alaíde, ela pagou um preço alto por suas escolhas".

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