"Todo mundo sabe que os namoros de escola não têm futuro", escutam Nick e Charlie de uma amiga a certa altura de Heartstopper: Para Sempre. É um momento-chave que representa a grande dúvida dos protagonistas do filme que chega nesta sexta, 17, à Netflix: é possível fazer esse relacionamento durar? E no fundo, e mais importante ainda: quem sou eu e o que será de mim sem essa pessoa ao meu lado?
A primeira temporada de Heartstopper chegou às telas em 2023, inspirada pela HQ homônima de Alice Oseman (roteirista e produtora da série, e agora também do filme). Virou um fenômeno por sua sensibilidade ao retratar relações LGBT+ na adolescência, ancorada pelo protagonismo de dois rapazes que descobrem o amor pela primeira vez.
Em momentos, ela foi uma espécie de utopia da qual muitos jovens precisavam: adolescentes que conversam sobre seus sentimentos, pais compreensivos, amigos leais e amores verdadeiros. Em outros, mostrou algumas realidades duras: homofobia, bullying, transtornos alimentares e a saúde mental fragilizada de uma geração extremamente conectada.
Nada disso deixa de existir em Heartstopper: Para Sempre, filme que agora conclui a história depois de outras duas temporadas bem-sucedidas. Mas desta vez é preciso olhar para o que é talvez o período mais complexo da adolescência: seu fim, quando parece ser iminente a decisão de quem queremos ser e quem vamos levar para frente.
Nick (Kit Connor) e Charlie (Joe Locke) estão firmes e fortes e formam o relacionamento perfeito aos olhos dos amigos. Mas Nick está prestes a se formar, sob a pressão de se inscrever na universidade, e com medo do que o futuro reserva, já que Charlie ainda tem mais um ano na escola. Pela primeira vez, ele não consegue conversar com o namorado sobre o que sente e entra numa sequência de comportamentos autodestrutivos.
Charlie, por sua vez, se preocupa com o namorado enquanto tenta construir uma identidade para si como líder estudantil e proteger outros alunos do bullying que ele mesmo sofreu. Os primeiros 40 minutos do longa nos apresentam esse contexto, enquanto o restante da trama leva o casal ao momento mais delicado de sua história, diante do fato de que não podem ser tudo um para o outro.
É o capítulo mais maduro da história. Com o roteiro de Oseman e a direção de Wash Westmoreland (do premiado Para Sempre Alice), Heartstopper ganha aspectos clássicos de uma história "coming of age", algo como "chegada da idade", quando a passagem para a vida adulta leva a uma jornada de amadurecimento inevitável.
Mas é difícil não notar como a produção perde força como filme. Não está claro se a decisão de encerrar a trama como longa-metragem veio dos criadores ou do estúdio, mas uma das belezas da série foi justamente ampliar a narrativa dos quadrinhos de Oseman com enredos secundários que elevaram a história.
Aqui, porém, há pouco espaço para os dramas de Darcy (Kizzy Edgell), Tara (Corinna Brown), Tao (William Gao) e Elle (Yasmin Finney) - e mesmo quando há espaço, eles são pouco desenvolvidos. Os problemas de Tao e Elle, em especial, parecem servir apenas como espelho de Nick e Charlie, e não como uma narrativa propriamente importante para o filme.
A melhor cena de Elle é também a mais explicitamente política de toda a franquia: "O mundo me odeia agora. O governo está tirando meus direitos e tudo pelo que lutamos. Só quero ser eu mesma. Ser livre. Ser feliz", diz a garota, ao pedir que Charlie a acompanhe na Parada do Orgulho LGBT.
Em maio de 2025, semanas antes das filmagens do longa, a Suprema Corte do Reino Unido decidiu que mulheres trans não se enquadravam na definição legal de mulheres prevista na legislação britânica sobre igualdade. Na cena seguinte ao discurso de Elle, os protagonistas de Heartstopper aparecem marchando pelos direitos trans.
Por momentos como esse, e muitos outros, não seria um exagero dizer que Heartstopper é o romance adolescente mais importante dos últimos anos. Poucas produções inspiraram tantas pessoas a serem elas mesmas com orgulho e com a crença de que a felicidade é possível.
Enquanto personagens secundários perdem destaque no filme, Nick e Charlie ganham protagonismo total. O longa é uma adaptação direta do sexto e último volume dos quadrinhos, que acaba de chegar às livrarias pela Seguinte, mas torna a jornada final muito mais intensa e emocionante para o espectador.
E se as primeiras críticas costumavam argumentar que a história era pouco realista, a produção evoluiu de maneira natural com a idade de seus personagens (inclusive nas cenas de sexo, muito mais presentes no longa).
Fato é que, em toda sua trajetória, Heartstopper se manteve fiel à sua essência. Quando chegamos aos minutos finais, a conclusão é agridoce: por um lado, parece que há potencial para mais. Por outro, são poucos os criadores que entendem perfeitamente quando é a hora de encerrar uma história. Por sorte, Alice Oseman sempre soube.