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Em "Amor Possível", o amor é a última trincheira contra o capital

Entre referências a "A Liberdade é Azul", o cineasta sul-coreano opõe um casal operário à sedução de um casal milionário.

28 out 2026 - 10h01
Resumo
Em "Amor Possível", o cineasta Lee Chang-dong aborda a luta de classes na Coreia do Sul ao retratar o encontro entre uma documentarista rica e a família de um operário demitido. Inspirado por Kieślowski, o filme escancara o abismo social e a sedução do capital, destacando o adoecimento da classe trabalhadora. A obra inova ao transferir a resistência política para a intimidade do lar, onde o afeto e a união conjugal tornam-se a última trincheira contra a opressão e o assédio dos mais abastados.

Em "Amor Possível", o cineasta Lee Chang-dong presta tributo a "A Liberdade é Azul", de Krzysztof Kieślowski, em diversos momentos: no nome Blue, dado ao cachorro da personagem Ye-ji (Cho Yeo-jeong), e no corte de cabelo dela, semelhante ao de Juliette Binoche no cult dos anos 1990. O azul também invade figurinos e cenários, e o pôster do longa de Kieślowski aparece pendurado em uma sala durante uma cena. Não se trata, contudo, de citações gratuitas. O roteiro, assinado pelo próprio Chang-dong ao lado de Jungmi Oh, também se debruça sobre a ideia de liberdade, mas aqui ela assume a forma da batalha pelo direito de sobreviver e de ter um emprego em uma sociedade sul-coreana mergulhada em plena luta de classes.

Imagem: Divulgação/Netflix
Imagem: Divulgação/Netflix
Foto: Divulgação/Netflix / Woo! Magazine

Na trama, Ye-ji é uma aspirante a documentarista que pretende realizar um filme sobre os trabalhadores demitidos de uma grande fábrica em Seul. Para isso, decide acompanhar a família de Ho-seok (Sul Kyung-gu), uma das mais afetadas pelo desemprego repentino, sobretudo porque ele foi figura central do movimento grevista deflagrado após o anúncio das demissões. A partir daí, entram em cena Mi-ok (Jeon Do-yeon, já cotada ao Oscar graças à excelente atuação), esposa do operário, e o filho pequeno do casal. Soma-se a eles o marido da cineasta, o atraente e milionário Sang-woo (Zo In-sung). A propósito, o magnetismo dele e o de Ye-ji são decisivos para convencer o casal mais humilde a permitir que suas vidas e histórias sirvam de matéria-prima para o documentário.

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Na verdade, em "Amor Possível", o encanto dos personagens abastados também atrai o público, pois quem vive em um ambiente dominado pela cruel propaganda capitalista já cobiçou um corpo esteticamente atraente e a chance de possuir casas, carros e roupas de grife. Tal fortuna, como afirma o próprio Sang-woo, é o que permite desfrutar da liberdade de caminhar por uma praia privativa e refletir sobre a vida. A cena atinge em cheio o espectador brasileiro, que habita um país no qual parte expressiva dos políticos da extrema direita deseja privatizar o litoral e convertê-lo em resorts para estrangeiros endinheirados. Mi-ok, assim como quem assiste, é fisgada por essa miragem de felicidade comprada e acaba persuadindo o marido a protagonizar o documentário.

Imagem: Divulgação/Netflix
Foto: Divulgação/Netflix / Woo! Magazine

Chang-dong tece, portanto, uma narrativa envolvente para escancarar a disparidade social de seu país, reflexo do que ocorre no mundo, e mostrar como o proletariado costuma ser a parte mais sacrificada. Os ricos até podem ter boas intenções, como a cineasta, mas, quando um projeto ao qual dedicam seu tempo fracassa, simplesmente retornam às mansões e seguem adiante. Os mais pobres, por sua vez, raramente dispõem de uma segunda chance para mudar de rumo e acabam adoecendo ao longo da jornada contra o capital, como acontece com o operário Ho-seok, que mergulha na depressão e carrega uma perigosa raiva enraizada.

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Ainda que "Amor Possível" não traga novidade temática, já que muitos filmes políticos atuais abordam o conflito entre classes, a obra se destaca pela maneira como o expõe. A câmera se interessa pelas relações interpessoais e pelo atrito entre os estratos sociais, e trata o amor do casal mais pobre como uma barreira contra o assédio do outro par, que em determinado momento ameaça conduzi-los ao abandono da monogamia. A resistência deles, portanto, não nasce de uma revolução social e política, mas de uma insurgência no âmbito sentimental. Em outras palavras, o afeto entre os dois, antes sufocado pelo silêncio e pelas palavras não ditas, desperta quando um inimigo poderoso tenta seduzi-los a renunciar à família que construíram. A força do filme está justamente nesse deslocamento do olhar, que troca os atos revolucionários das ruas pela intimidade do lar.

"Amor Possível" foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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Vídeo: Reprodução/Youtube (@NetflixBrasil)

Imagem do Filme "Amor Possível": Divulgação/Netflix

Publicado originalmente na Woo! Magazine.

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