Fundado em 2011, o Letterboxd tornou-se uma popular rede social de cinema que reúne cinéfilos e astros de Hollywood. Diante do alto engajamento e de receitas com assinaturas e anúncios, gigantes como Netflix, A24, Sony e The New York Times avaliam a compra da plataforma. O negócio pode movimentar mais de US$ 250 milhões, cifra que equivale a quase 20 vezes o lucro obtido pela empresa no último ano e consolida a valorização do serviço após a venda de parte de suas ações em 2020.
Reunindo tanto amantes do cinema quanto membros da indústria, como os diretores Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores) e Kleber Mendonça Filho (Bacurau) e as atrizes Anne Hathaway (A Odisseia), Ayo Edebiri (O Urso) e Iman Vellani (Ms. Marvel), o Letterboxd, fundado em 2011, ganhou popularidade nos últimos anos e, com o crescimento de sua base de usuários, passou a atrair o interesse de empresas como Netflix, A24 e Sony, que avaliam a possibilidade de comprar a plataforma.
Quatro anos depois de ter sua porcentagem vendida para uma empresa canadense de tecnologia, a Tiny, a plataforma vem despertando o interesse de possíveis compradores atraídos pelo engajamento do site e pelo dinheiro gerado por assinaturas e publicidades.
Diversas empresas já demonstraram interesse na compra do Letterboxd, entre elas A24, Sony Pictures Entertainment, Netflix e o The New York Times. Qualquer acordo envolvendo a plataforma pode avaliá-la em mais de US$ 250 milhões, valor que representa quase 20 vezes o lucro registrado pelo Letterboxd no último ano.
A plataforma foi fundada pelos designers neozelandeses Matthew Buchanan e Karl von Randow, que sentiam falta de comunidades on-line que discutissem sobre cinema. O site, simples e elegante, é baseado em listas de filmes, resenhas e um diário pessoal onde os usuários podem acompanhar os filmes que já assistiram ou que seus colegas já viram.
O sucesso vem muito da plataforma criar um senso de comunidade e pertencimento dentro do aplicativo, com "desafios" que incentivam os usuários do site a assumir um papel mais ativo em relação aos filmes assistidos. Um deles é o "Horror x 52", no qual os usuários registram diferentes tipos de filmes de terror assistidos ao longo de um ano. Outro é o Criterion Challenge, que incentiva fãs do Letterboxd a assistir a dezenas de filmes da Criterion Collection, uma seleção prestigiada de obras contemporâneas e clássicas de diversas partes do mundo.
Além dos desafios e das listas públicas, a seção de resenhas dos longas-metragens se tornou quase um campeonato de piadas, em que as avaliações mais engraçadas acumulam mais curtidas. E não faltam exemplos. "Descanse em paz,
Odisseu, você definitivamente teria amado o Google Maps", diz uma avaliação de 4,5 estrelas de
A Odisseia(2026), publicada neste ano.
Diferentemente do jornalismo e de outras formas de crítica audiovisual, as resenhas do
Letterboxdnão têm compromisso com a formalidade ou com a objetividade: são espaços em que os usuários podem expressar livremente suas opiniões, com pouca interferência dos modelos tradicionais de crítica. Somado a isso, a plataforma mantém, por enquanto, um caráter independente, já que não é controlada por nenhum grande grupo da indústria do entretenimento.
Os usuários do Letterboxd têm gostos variados e abraçam igualmente blockbusters, filmes independentes e produções em língua estrangeira. "As coisas ficaram estranhas", escreveu Rian Johnson, diretor de Entre Facas e Segredos (2019), na introdução de uma lista com dez musicais dos anos 1970. A seleção é apenas uma entre milhões de listas que formam um cânone cada vez maior de identidades representadas nas telas — como "Desejo Queer", geografias como "Os melhores filmes Iranianos" e experiências como "Filmes para assistir pós-termino".
Essa combinação de comunidade, interesses particulares e um espaço divertido fez o número de usuários crescer continuamente nos últimos anos, enquanto as bilheterias de Hollywood se recuperam no período pós-pandemia e estúdios independentes como A24 e Neon —responsável pela distribuição internacional de O Agente Secreto (2025) — vivem um período de expansão.
O Letterboxd depende principalmente de conteúdo produzido pelos próprios usuários, como resenhas, avaliações e sinopses, que não geram custos para a empresa. A maioria dos usuários utiliza a plataforma gratuitamente, mas o site também oferece um modelo de assinatura com dois planos pagos — "Pro" (US$ 19 por ano) e "Patron" (US$ 49 por ano) — que dão acesso a uma série de recursos adicionais, como a possibilidade de escolher pôsteres personalizados para os perfis. A Tiny não divulga dados detalhados sobre sua base de assinantes. A empresa também comercializa espaços publicitários no site.
O modelo de assinaturas não é exclusivo do Letterboxd, a Sony já conquistou mais de 21 milhões de assinantes pagantes em seu serviço de streaming de animes, Crunchyroll, e oferece um passe de temporada para sua rede de cinemas Alamo Drafthouse. O serviço de assinatura da A24, AAA24 (all-access A24), dá aos assinantes acesso exclusivo a novos produtos, uma revista impressa trimestral e ingressos de cinema; a empresa não divulga o número de assinantes. A A24 também produz conteúdos como podcasts e newsletters voltados para os fãs. Já o The New York Times tem 13,35 milhões de assinantes que pagam para ter acesso a notícias, jogos, receitas e recomendações de produtos.
Um possível conflito de interesses
A qualidade mais rentável da plataforma é justamente sua independência e uma eventual aquisição por uma grande empresa do setor poderia colocar essa característica em xeque, especialmente caso a nova proprietária tivesse interesse em promover seus próprios filmes e produções dentro do Letterboxd.
O histórico de outras plataformas do setor também levanta questões semelhantes. O site de avaliações Rotten Tomatoes fez parte da NBCUniversal durante anos, e alguns críticos questionaram essa estrutura de propriedade por considerá-la problemática. Já o IMDb pertence à gigante do comércio eletrônico Amazon.
FONTE: The New York Times LEIA TAMBÉM: 'Cidade de Deus' é o 10º em lista de melhores filmes de todos os tempos do Letterboxd