Oferecimento

'A Terra do Meu Pai' transforma as ruínas da guerra em um drama íntimo

Novo longa de Paweł Pawlikowski (Guerra Fria) explora a impossibilidade de voltar para casa e constrói um retrato sensível sobre as feridas deixadas pela guerra na Alemanha

19 out 2026 - 16h15
Resumo
Em exibição na Mostra de SP e premiado em Cannes, "A Terra do Meu Pai", dirigido por Paweł Pawlikowski, acompanha o escritor Thomas Mann e sua filha Erika pela Alemanha devastada de 1949. Filmado em preto e branco e formato 4:3, o drama intimista retrata o retorno do autor após o exílio, enfrentando o ressentimento dos compatriotas e o distanciamento familiar. Representante polonês no Oscar, a obra destaca atuações de Hanns Zischler e Sandra Hüller em uma reflexão sobre culpa, trauma e identidade.

Em exibição na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, A Terra do Meu Pai pode mudar a forma como você enxerga a história alemã. Este drama contido em preto e branco, de apenas 82 minutos, troca os grandes discursos políticos por um retrato das feridas mais íntimas de uma nação destruída.

'A Terra do Meu Pai', em exibição na Mostra de Cinema de SP
'A Terra do Meu Pai', em exibição na Mostra de Cinema de SP
Foto: Reprodução/TMDB / Rolling Stone Brasil

A Terra do Meu Pai se passa no verão de 1949, quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Na trama, o escritor Thomas Mann (Hanns Zischler) retorna à Alemanha natal para receber um prêmio literário e leva consigo sua filha, Erika (Sandra Hüller). A viagem parte de Frankfurt, que está sob domínio estadunidense, até a Weimar, na zona de ocupação soviética. De volta ao lar após 16 anos de exílio nos EUA, Mann é forçado a confrontar não apenas os conflitos de uma nação dividida, mas também as fraturas de sua própria família.

Publicidade

Vencedor do prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, o longa é dirigido por Paweł Pawlikowski (Guerra Fria) e é distribuído no Brasil pela MUBI em parceria com a Imovision. A produção também foi selecionada pela Polônia como representante oficial do país na disputa pelo Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional.

A Terra do Meu Pai se afasta dos padrões mais convencionais dos filmes de época para entregar um estudo melancólico sobre a impossibilidade de encontrar pertencimento em um país que já não existe da mesma maneira antes. O longa explora, em especial, a culpa e o ressentimento que os personagens enfrentam. 

Quando Thomas Mann retorna para a Alemanha, em vez de ser recebido de braços abertos como uma voz que se opôs ao nazismo, ele enfrenta certa hostilidade dos compatriotas, que o consideram um "covarde" por abandonar sua nação no pior momento. Enquanto isso, os filhos do escritor se sentem sem pátria ou identidade, evidenciando que a reconstrução afetiva é ainda mais complexa do que a reconstrução das cidades.

A divisão ideológica da Guerra Fria, por sua vez, não se manifesta apenas nos discursos políticos, mas também nos longos silêncios do filme. A relação entre pai e filha acrescenta uma dimensão íntima a esse cenário: enquanto atravessam um território marcado pela destruição, os dois também parecem incapazes de superar as distâncias emocionais que os separam. O passado é como um elemento tóxico que contamina todos os vínculos.

Publicidade

A Terra do Meu Pai também questiona se erudição, arte literatura têm alguma utilidade para curar os traumas e reconstruir a dignidade de um povo devastado. O trabalho de Thomas Mann sobreviveu ao colapso político do país, mas não pôde impedi-lo nem remediar os danos que restaram.

O poder da estética

Em A Terra do Meu Pai, a fotografia em preto e branco, assinada por Łukasz Żal, trabalha em conjunto com a proporção de tela 4:3 para transpor a atmosfera de isolamento e desilusão do pós guerra. Mesmo nas cenas de estrada, com Thomas e Erika a bordo do Buick preto, há uma certa rigidez visual; o espectador não tem aquela sensação de liberdade e as paisagens abertas de um típico road movie. 

Pawlikowski retrata a Alemanha de 1949 como um cenário fantasmagórico. Essas escolhas estéticas e narrativas podem tornar o filme frio demais em alguns momentos, e o espectador precisa se acomodar ao ritmo mais lento. Mas, ao mesmo tempo, a contenção é uma das maiores forças de A Terra do Meu Pai: o cineasta não precisa recorrer a grandes cenas dramáticas para evidenciar a tragédia. A tragédia está nas ausências. 

Esta versão bastante particular e densa de um road movie culmina em um dos finais mais arrebatadores do ano: um momento catártico entre pai e filha, antes separados por uma barreira que parecia intransponível. A Terra do Meu Pai serve como um lembrete de que talvez seja impossível voltar para casa — não porque ela desapareceu do mapa, mas porque as pessoas (e ela) já não são mais os mesmos. 

Publicidade

Com alguns (bem posicionados) toques de comédia, o longa também prova que Sandra Hüller — que já entregou atuações fantásticas em Anatomia de uma Queda (2023), A Zona de Interesse (2023) e no queridinho Devoradores de Estrelas (2026) — é uma das melhores atrizes da atualidade. 

Rolling Stone Brasil
Fique por dentro das principais notícias de Entretenimento
Ativar notificações