21ª CineOP amplia debate sobre memória, IA e políticas públicas para o cinema brasileiro

Ao longo de seis dias, evento consolidou Ouro Preto como espaço de formulação de políticas públicas voltadas à preservação, à educação e à história do cinema brasileiro

1 jul 2026 - 08h37

A 21ª CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto chegou ao fim reforçando sua vocação como um dos principais espaços brasileiros de reflexão sobre o futuro do audiovisual. Mais do que uma programação de filmes, o festival consolidou debates que aproximaram preservação, educação, história e tecnologia, reunindo pesquisadores, realizadores, arquivistas, gestores públicos e educadores para discutir políticas capazes de garantir que a memória do cinema brasileiro permaneça acessível às próximas gerações.

21ª CineOP amplia debate sobre memória, IA e políticas públicas para o cinema brasileiro
21ª CineOP amplia debate sobre memória, IA e políticas públicas para o cinema brasileiro
Foto: Leo Lara/Universo Produção / Rolling Stone Brasil

Sob o tema "Memória Viva do Cinema Brasileiro", a edição defendeu a preservação como uma estratégia para compreender o passado e projetar o futuro. Para a coordenadora geral da mostra, Raquel Hallak, preservar o cinema significa preservar a própria identidade do país. "A 21ª CineOP reafirmou que preservar o cinema é preservar a nossa capacidade de lembrar, compreender quem somos e imaginar o futuro. Encerramos esta edição com a convicção de que o patrimônio audiovisual brasileiro precisa permanecer no centro das políticas culturais e da vida da sociedade", afirmou. O pensamento foi reforçado pelo escritor Frei Betto, que sintetizou um dos principais conceitos discutidos ao longo da programação: "O papel do cinema, e eu diria de toda a arte, é manter viva a memória".

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Grande parte dessas discussões ocorreu durante o 21º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, que colocou em pauta temas como o depósito legal audiovisual e a necessidade de ampliar as políticas públicas de preservação. Entre os questionamentos levantados esteve a representatividade dos acervos brasileiros. "Que memória a gente vai levar para o futuro?", provocou Daniela Mazzilli, diretora da Cinemateca Capitólio, ao defender mecanismos capazes de preservar também produções independentes, regionais e periféricas.

As rápidas transformações tecnológicas também ocuparam posição central na programação. Em diferentes mesas, a inteligência artificial deixou de ser tratada apenas como uma ferramenta e passou a ser discutida sob a ótica da soberania nacional e da gestão dos dados culturais. Sheila Mueller, diretora-geral adjunta do Arquivo Nacional, resumiu o desafio ao afirmar que o Brasil precisa decidir "se o Estado brasileiro vai participar dessa transição como sujeito ou se será objeto dela". Ao mesmo tempo, especialistas apresentaram experiências que utilizam IA para transcrição de documentos, organização de acervos e ampliação do acesso ao patrimônio audiovisual.

Outro destaque da edição foi a divulgação da tradicional Carta de Ouro Preto, documento elaborado a partir das discussões do Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros. O texto propõe medidas como o fortalecimento do depósito legal, investimentos em infraestrutura pública para armazenamento de acervos digitais, regulamentação profissional dos preservadores audiovisuais e diretrizes éticas para o uso da inteligência artificial. A carta também defende que o arquivo audiovisual seja compreendido como um elemento de soberania nacional, identidade e produção de conhecimento, além de apresentar uma moção específica pela preservação do acervo do projeto Vídeo nas Aldeias, considerado fundamental para a memória dos povos originários.

A educação audiovisual também ganhou espaço de destaque durante o XVIII Fórum Latino-Americano de Educação, Cinema e Audiovisual (Rede Kino). Professores, pesquisadores e realizadores defenderam uma formação crítica que reconheça o cinema como linguagem, patrimônio cultural e instrumento de cidadania. A Carta da Rede Kino reforçou a necessidade de regulamentar a Lei nº 13.006/2014, implementar o Programa Nacional de Cinema nas Escolas, ampliar a formação de professores e incluir o cinema de forma explícita na futura reformulação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O documento também alertou para os riscos da crescente dependência de plataformas digitais estrangeiras e defendeu o desenvolvimento de tecnologias públicas nacionais voltadas à educação.

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Na temática histórica, a programação reafirmou que preservar também significa revisar narrativas e ampliar perspectivas. Filmes restaurados, obras contemporâneas e debates evidenciaram a importância de incorporar experiências historicamente invisibilizadas à memória do cinema brasileiro. A Mostra Histórica, dedicada aos primeiros filmes dirigidos por mulheres no país, contribuiu para ampliar o olhar sobre diferentes trajetórias e contextos de produção, enquanto o lançamento do livro Memória Viva do Cinema Brasileiro, publicação comemorativa dos 20 anos da CineOP, registrou parte das reflexões acumuladas pelo evento ao longo de sua trajetória.

Rolling Stone Brasil
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