Itália discute proibição do consumo de carne de cavalo, um clássico da culinária

Projeto de lei quer reconhecer equinos como animais de estimação

19 fev 2026 - 13h52
(atualizado às 14h58)

A carne equina "ferve" no Parlamento da Itália com um projeto de lei que visa vetar sua produção e seu consumo, declarando cavalos, asnos e mulas como animais de estimação. O debate ocorre em meio ao crescimento da consciência pela causa animal, ao mesmo tempo em que a gastronomia italiana foi reconhecida como patrimônio imaterial da Unesco.

Grelha com polpetas de carne de cavalo em Catânia, na Sicília
Grelha com polpetas de carne de cavalo em Catânia, na Sicília
Foto: ANSA / Ansa - Brasil

"Hoje, os equinos ainda são explorados de todas as formas, e muitas vezes o destino final de suas jornadas é o matadouro", afirmou a autora da proposta, deputada Michela Vittoria Brambilla, do partido Noi Moderati.

Publicidade

"Esta proposta é uma oportunidade extraordinária para promover uma mudança cultural que já está no coração da maioria dos italianos", acrescentou a política, que também é ativista da causa animal.

De fato, a produção de carne equina para consumo humano tem diminuído na Itália nos últimos anos. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (Istat), os abates caíram de mais de 70 mil por ano em 2012 para cerca de 22 mil em 2024.

Em maio passado, o Ipsos revelou que somente 17% dos consumidores italianos de carne equina afirmam ingerir o alimento ao menos uma vez por mês. Para quem não a consome, 42% disseram sentir empatia por essas espécies, enquanto 31% consideram esses animais como de estimação.

O texto que circula pela Comissão de Agricultura da Câmara traz 13 artigos centrados em proibições no abate equino; na venda e consumo dessa carne; no uso desses animais em performances perigosas ou estressantes; assim como na exploração excessiva, uso em experimentos científicos e atividades contrárias à dignidade ou às capacidades físicas de todas as espécies equinas.

Publicidade

A visão da associação de empresas do setor agroalimentar Fiesa-Confersercenti é a mesma dos parlamentares contrários ao projeto de lei.

"Uma escolha deste tipo [a aprovação da proposta], claramente motivada por ideologia, teria um impacto tangível em tradições muito enraizadas e em partes da economia local", destacou a Fiesa-Confersercenti em comunicado.

Por mais que a instituição reconheça que "o consumo de carne de cavalo diminuiu ao longo do tempo", ele ainda "continua sendo a base de um patrimônio gastronômico que se estende por toda a Itália, de norte a sul, e que hoje corre o risco de ser apagado".

"Estamos falando de preparações e conhecimentos que são parte integrante do patrimônio cultural alimentar da culinária italiana, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade", argumentou a associação na nota, citando alguns pratos típicos locais feitos com a carne equina: o famoso ensopado "pastissada de caval", de Verona; o empanado da Emilia-Romagna conhecido como "faldìa"; a carne cozida com molho "pezzetti di cavallo alla pignata" de Salento; e as "polpete" da Catânia, sem se esquecer dos salames.

Se a carne de cavalo é apreciada de norte a sul na Itália, na cidade de Catânia, na Sicília, ela é ainda mais. Ali as polpetas estão presentes em todos os restaurantes, com os jovens deixando os fast-foods para ir a pequenos estabelecimentos onde almôndegas e fatias de carne de cavalo são servidas em sanduíches.

Publicidade

"Embora o respeito pelos animais de estimação seja compreensível, não podemos globalizar tradições e costumes ancestrais, sacrificando-os no altar de um suposto conformismo, inclusive gastronômico", afirmou o prefeito de Catânia, Enrico Trantino.

Já o presidente regional da Confagricoltura, Rosario Marchese Ragona, questionou: "Comer carne de cavalo em alguns lugares faz parte da cultura. E se amanhã proibissem o abate de coelhos?" - outro animal que também faz parte da tradição gastronômica italiana.

Segundo Dario Pistorio, presidente da Fipe Confcommercio Catânia, "existem 300 estabelecimentos relacionados a esse tipo de carne na cidade", como restaurantes, estandes de comida de rua e churrascarias.

"E pelo menos três em cada dez turistas que visitam a cidade já comeram carne de cavalo como prato típico", revelou Pistorio.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se