A coprodução ítalo-brasileira "Retorno a Buenos Aires", dirigida por Marco Bechis, estreou no Festival de Veneza na disputa pelo Leão de Ouro. O drama acompanha Mariano (Adriano Giannini), que volta à Argentina após 33 anos para testemunhar contra os militares que o torturaram durante a ditadura. Inspirado pelas vivências do diretor como ex-preso político, o longa aborda os traumas duradouros da repressão e traça paralelos entre a coragem das testemunhas do passado e vítimas de guerras atuais.
Quase 30 anos depois de abordar a ditadura militar argentina em "Garage Olimpo", o diretor ítalo-chileno Marco Bechis retoma o tema com "Retorno a Buenos Aires", exibido nesta sexta-feira (11) no Festival de Cinema de Veneza.
A coprodução ítalo-brasileira integra a competição oficial e disputa o Leão de Ouro, prêmio principal de um dos festivais mais prestigiosos do cinema mundial.
O longa demonstra como os danos causados pela guerra se tornam ainda mais devastadores com o passar do tempo e também marca um dos papéis mais desafiadores da carreira do ator italiano Adriano Giannini.
Ambientado em Buenos Aires, em 2008, o filme acompanha Mariano Guerra (Giannini), que retorna à Argentina depois de 33 anos na Itália para depor no julgamento dos ex-militares responsáveis por seu sequestro, tortura e escravização durante a ditadura.
O retorno, compartilhado com outras vítimas do regime, está longe de representar uma simples viagem ao passado. Os sobreviventes são alojados em instalações improvisadas do Ministério da Justiça, em um ambiente marcado pela tristeza, pelo medo e pela incerteza.
A experiência os obriga a confrontar lembranças que muitos tentaram manter reprimidas durante décadas.
O momento mais difícil, porém, é o depoimento diante dos próprios algozes. As vítimas precisam encarar os acusados e correr o risco de ter suas histórias contestadas ou até de serem responsabilizadas criminalmente.
"Retorno à Argentina 50 anos depois com uma história que não é minha, mas que nasce de uma ferida que conheço bem", afirma Bechis.
O diretor também foi sequestrado durante a ditadura argentina e explica que optou pela ficção para abordar uma experiência cuja dimensão, segundo ele, nem sempre pode ser transmitida apenas pela memória.
Para Bechis, a retomada do episódio histórico também serve para refletir sobre conflitos contemporâneos. O cineasta relaciona a trajetória dos sobreviventes argentinos às vítimas de guerras em diferentes partes do mundo, citando Gaza, a Ucrânia e países africanos afetados por conflitos.
A questão central, de acordo com o diretor, é a passagem de sobrevivente a testemunha. "Quantos desses sobreviventes conseguem dar o passo para se tornar testemunhas?", questiona.
Para ele, o processo é fundamental para que os crimes sejam reconhecidos, e os responsáveis, julgados. Giannini, por sua vez, considera Mariano um personagem particularmente complexo, marcado por conflitos internos, medo, vergonha e culpa. O ator afirma que a experiência de trabalhar com Bechis foi essencial para encontrar o personagem.
"Foi um papel desafiador repleto de conflitos, medo, vergonha e culpa", relata. Segundo Giannini, o conhecimento pessoal do diretor sobre o período ajudou a criar uma conexão mais profunda durante as filmagens.
Bechis exigiu que ambos abandonassem "máscaras e artifícios" para buscar uma relação genuína que servisse de apoio à construção do personagem. O elenco inclui ainda Ana Celentano, Verónica Gerez, Olivia Nuss, Adrián Fondari, a brasileira Paula Cohen e Marcelo Chaparro.