Quem é o autor da iniciativa que criou a primeira Igreja Luciferiana do Rio Grande do Sul

Mestre Lukas de Bará da Rua ficou conhecido pela instalação da primeira imagem para Lúcifer no Estado e batalha judicial para liberação de alvará

11 set 2026 - 19h13
Resumo
Mestre Lukas, líder religioso de Gravataí (RS) com 24 anos de atuação na quimbanda, fundou a primeira Igreja Luciferiana do estado e ergueu a maior estátua de Lúcifer do país. Apesar de enfrentar ameaças de morte, preconceito e um imbróglio judicial com a prefeitura local, ele defende a laicidade do Estado e a liberdade de culto. O líder esclarece que seu culto a Lúcifer não se liga ao mal bíblico, promovendo acolhimento social e persistindo firmemente no combate à intolerância religiosa.

Natural de Gravataí (RS), Mestre Lukas de Bará da Rua, mais conhecido como Mestre Lukas, com 24 anos de atuação religiosa tornou-se nacionalmente reconhecido por suas iniciativas pioneiras em prol da quimbanda e do luciferianismo e contra a intolerância religiosa.

Foto: Divulgação / Porto Alegre 24 horas

Autor da iniciativa que criou a primeira Igreja Luciferiana do Rio Grande do Sul, também o santuário com a maior estátua para Lúcifer do país (em imbróglio judicial com a Prefeitura de Gravataí), o líder religioso soma mais de 13 mil atendimentos no Brasil e exterior.

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Confira entrevista exclusiva com o autor da iniciativa.

1. Em que momento você percebeu que a espiritualidade teria um papel central em sua vida?

Eu comecei minha movimentação religiosa sendo católico. Frequentava as igrejas católicas, fazia as novenas, participava das correntes de oração, fiz catequese, crisma, primeira comunhão. Mas depois de um tempo comecei a sentir falta de alguma coisa que não encontrava dentro da igreja. Então comecei a questionar.

Notei que a religião de matriz africana ia fazer parte da minha vida no momento que eu estava passando por uma dificuldade muito grande e não encontrava respostas na igreja. Um dia, em casa, angustiado, ouvi um tambor e visitei uma terreira. Ali eu senti uma energia diferente. Fui conhecendo essa casa, participando, e foi onde acabei me iniciando. Comecei a ver a religião sem preconceitos, uma religião que acolhe todo mundo, que abre as portas, não importa a sua sexualidade, não importa se você tem dinheiro ou não. Eu vi que aquilo ali fazia sentido para mim.

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2. Como foi seu primeiro contato com a quimbanda e com as demais tradições que hoje fazem parte da sua trajetória?

No primeiro contato com a quimbanda ficamos meio apreensivos, porque sempre se ouve falar muito mal dos exus e das pombagiras. Então, no primeiro contato você tem medo de fazer alguma coisa errada e ser punido, né? Mas quando você começa a conhecer, você vê que é só uma questão de preconceito mesmo. A quimbanda é maravilhosa, ela ergue as pessoas, abre caminhos, ajuda a se libertar de vícios. Quando você conhece a quimbanda a fundo, você começa a entender a força que tem a ancestralidade.

3. Qual foi o maior preconceito ou resistência que você precisou enfrentar ao longo dessa trajetória?

Muitos casos de intolerância já presenciamos no nosso templo e também em outros templos. A nossa luta contra a intolerância religiosa resiste justamente porque estamos cansados dessas perseguições. Quando fundei, junto ao Tata Hélio, o santuário de Lúcifer, muitos ameaçaram a nossa integridade física, dizendo que iam entrar e botar fogo em nós, que iam pendurar nossas cabeças… Também tive uma advogada que se negou a assinar a ata de fundação da nossa ordem religiosa, pois era uma ordem de Lúcifer e ela era cristã.

Entendemos, mas isso também é um preconceito, né? Nós temos pessoas evangélicas que prestam serviços para o nosso templo e conseguimos ter respeito e uma boa convivência, mas tem pessoas muito radicais e isso não combina com nenhuma religião.

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4. Ao longo de mais de duas décadas de atuação, qual foi a transformação ou a história mais marcante que você testemunhou?

Nesses 24 anos atendendo já vi muitos casos de pessoas que chegaram aqui chorando, sem emprego, endividadas, que não viam mais sentido na vida, depressivas, com vícios e que, através da espiritualidade, conseguiram reverter a situação. A religião é maravilhosa. Sempre digo que, antes de falar de qualquer religião, você precisa frequentar um templo, porque quando você sente a energia você sabe que aquilo é real e transformador.

5. Como surgiu a ideia de construir uma estátua e uma igreja para Lúcifer no Rio Grande do Sul?

Construir uma estátua para Lúcifer e ter um santuário para Lúcifer surgiu como forma de agradecimento por tudo o que ele representa na minha vida. Fiz minha pactuação em 2018 e de lá para cá a minha vida mudou muito. Hoje eu sou uma pessoa mais próspera, tenho mais tranquilidade e consigo ajudar as pessoas ao meu redor, tudo porque Lúcifer me proporciona isso. Ter um santuário e uma imagem para ele é uma forma de agradecimento e reverência, além de dar a chance de que outras pessoas também conheçam.

6. Para muitas pessoas, a imagem de Lúcifer ainda está diretamente associada ao mal. O que você gostaria que uma pessoa que olha para a estátua pela primeira vez entendesse sobre o que vocês cultuam?

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Quando uma pessoa olha a imagem de Lúcifer e já vê o mal, é porque ela está associando Lúcifer ao diabo da Bíblia. O nosso Lúcifer não é o diabo. E, se vocês olharem a Bíblia, você não vai encontrar nenhuma morte atribuída a ele. Quando alguém se aproxima do nosso santuário, a única coisa que eu gostaria é que elas viessem com o coração aberto, para conhecer, e depois saírem falando aquilo que viram e vivenciaram.

7. Quando essa ideia surgiu, você imaginou que teria tanta represália por parte dos órgãos públicos? Se o símbolo escolhido fosse outro, você acredita que a reação do Poder Público teria sido a mesma?

Jamais pensei que em um país em que a Constituição diz que todos têm direito ao culto e que o Estado é laico, nós teríamos tanta repercussão negativa por parte do Poder Público. Em Gravataí temos vários sítios e em muitos deles existem imagens no jardim de Jesus, de Nossa Senhora… Muitos deles se reúnem para retiros espirituais, fazem correntes de oração, e eu não vejo a Prefeitura pedir alvará para nenhuma dessas reuniões. Mas, por ser Lúcifer, mesmo sendo um sítio privado (em que deixamos claro que não é aberto ao público), ainda existe essa proibição.

8. Já houve algum momento em que você pensou em desistir da luta contra a intolerância religiosa?

Não, em momento algum. A luta contra a intolerância religiosa precisa continuar. Toda vez que alguém diz que vai atentar contra a minha vida, sempre penso que se for para morrer em nome do meu sagrado, que assim seja. Vou continuar lutando sempre por aquilo que me ergue, aquilo que me faz bem, que ajuda as pessoas. Tenho certeza que depois de mim outros virão e vamos continuar lutando. Se hoje estou aqui é porque os meus ancestrais também lutaram. Então não posso pensar em desistir de maneira alguma. Desistir seria não honrar toda a luta dos ancestrais.

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9. O que você gostaria que as pessoas que têm preconceito contra as religiões não-cristãs entendessem?

O meu maior sonho é que os cristãos seguissem a mensagem de Jesus. Jesus sempre pregou o amor, sempre pregou o entendimento, e não pregava o ódio. Eu gostaria também que os cristãos, antes de atacar a religião dos outros, entendessem um pouco mais sobre a origem da religião deles. Vejo muitas pessoas falando mal do noltismo, de Lúcifer, da quimbanda, sem nunca terem tido contato. Isso não faz sentido.

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