A 61ª Bienal de Arte de Veneza começa oficialmente no próximo sábado (9), na esteira das controvérsias por conta das participações da Rússia e de Israel no evento, que motivaram a incomum decisão do júri, presidido pela brasileira Solange Farkas, de renunciar às vésperas do início da edição de 2026.
A crise na mais importante exposição artística do mundo se desenrolou em meio à continuação da invasão russa à Ucrânia, que completou quatro anos em fevereiro passado e segue sem um cessar-fogo no horizonte, e reacendeu o debate sobre o papel da arte em um cenário geopolítico conturbado.
No início de março, poucos dias após o quarto aniversário da guerra no leste europeu, a Rússia demonstrou interesse em participar da Bienal neste ano, depois de ter sido vetada por artistas e pela própria organização em 2022 e 2024 devido ao conflito.
O país governado por Vladimir Putin está entre os 30 que são proprietários de pavilhões fixos nos "Jardins" da Bienal de Veneza. Os espaços são construídos e geridos com recursos de seus Estados, que escolhem os artistas participantes e financiam a programação cultural. Há dois anos, a Rússia alugou seu pavilhão à Bolívia.
Mas desta vez, os organizadores da mostra aceitaram o pedido russo e autorizaram sua participação, apesar da posição contrária do governo da premiê da Itália, Giorgia Meloni, uma das líderes ocidentais mais firmes no apoio a Kiev.
"O pavilhão russo será aberto devido à escolha livre e autônoma da Bienal de Veneza, que somos obrigados a respeitar", declarou há algumas semanas o ministro da Cultura, Alessandro Giuli, que chegou a pedir que a representante do governo italiano no Conselho de Administração da Bienal de Veneza, Tamara Gregoretti, renunciasse ao cargo, mas a funcionária se negou a acatar a sugestão.
Além disso, o prefeito de Veneza, Luigi Brugnaro, ameaçou fechar o estande russo caso houvesse "propaganda bélica", enquanto o poder Executivo da União Europeia manifestou a intenção de suspender o repasse de uma verba de 2 milhões de euros ao evento.
Os organizadores sempre sustentaram que a participação de Moscou segue "o absoluto respeito às normas", mas isso não foi suficiente para acalmar os ânimos: na semana passada, o júri internacional responsável pelo Leão de Ouro renunciou ao cargo após tentar vetar a Rússia e Israel, nações cujos líderes são alvos de mandados de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes contra a humanidade, de concorrer a prêmios na mostra.
A saída dos jurados foi a gota d'água para Giuli enviar, no último dia 29, inspetores do governo à Bienal.
Depois de uma vistoria "minuciosa", os técnicos apontaram em um relatório de sete páginas que a Rússia "nunca recebeu um convite formal" para participar, assim como "não assinou o documento que rege o procedimento de participação", diferentemente de "outros países que possuem pavilhões".
"A Bienal não promove a participação dos Estados; são eles que decidem participar", respondeu a organização, acrescentando que os jurados corriam "risco pessoal" de sofrer "ações judiciais" pela decisão de vetar Rússia e Israel na premiação ? antes disso, o artista israelense Belu-Simion Fainaru havia notificado a Bienal de Veneza sobre uma ação por danos morais por discriminação.
O relatório dos inspetores do governo italiano destacou também que "a Rússia, com base nas sanções vigentes, não poderá obter autorizações para abrir seu pavilhão ao público". Dessa forma, o estande ficará inacessível durante a mostra, entre 9 de maio e 22 de novembro.
Antes disso, Moscou iniciou nesta terça-feira (5) uma vernissage apenas para convidados, e as performances artísticas gravadas até a próxima sexta (8) serão exibidas em um telão durante todo o período da exposição.
A Rússia também poderá concorrer aos novos prêmios criados pela Bienal após a renúncia do júri, os "Leões dos Visitantes", que serão designados apenas no fim do evento, com base no voto popular.