Muito antes de se tornar padre, Fábio de Melo já convivia com sinais da depressão.
“Fui um menino muito triste, melancólico, às vezes sombrio e era um traço da minha personalidade com o qual eu convivi durante muito tempo até perceber que tinha nome”, revelou na Globo.
A dedicação à vida religiosa e a fama pela carreira artística, com milhões de fãs a segui-lo presencialmente e na internet, não impediram o agravamento da doença. E os sintomas pioraram após a morte da mãe.
Aos 55 anos, o sacerdote e cantor convive com os altos e baixos inerentes a uma pessoa depressiva. Toma medicação e vai ao divã.
“Faço o processo terapêutico-químico. Tenho muita dificuldade com a terapia falada, porque eu não sei se me investiguei demais ao longo da vida e tenho uma sensação de que eu não estou procurando respostas mais, estou preferindo conviver com a pergunta”.
Antes dele, o Brasil se espantou com o efeito devastador do mesmo transtorno mental na vida de outro padre famoso, Marcelo Rossi.
“Em 1º de outubro de 2013 foi o dia em que tomei consciência de que eu precisava me cuidar”, disse ele em uma missa no fim do ano passado. “Eu perdi até o gosto da comida.”
“Deus permitiu que eu fosse no fundo do fundo do fundo do poço. Confesso que não acreditava em depressão, achava frescura. Deus permitiu que eu experimentasse e compreendesse.”
O religioso acredita que um acidente doméstico que o impediu de fazer exercícios físicos por meses e o ganho de peso que feriu sua vaidade foram os gatilhos para a deterioração de seu estado emocional.
Em depoimento a ‘O Globo’, o padre Reginaldo Manzotti, também ele uma referência católica na mídia, contou a respeito do contato com a depressão.
“Tive problemas sérios e, por um período de tempo, me senti apático, desmotivado, sem ânimo ou vigor”, lembrou.
“Pode-se dizer que foram momentos depressivos. Procurei ajuda, fiz terapia e foi de grande importância esse processo para elaborar e compreender o que estava passando. Sou um grande defensor desse acompanhamento.”
Em uma pregação, Manzotti conscientizou o público sobre a doença. “A depressão pode vir do desemprego, do luto, de traumas psicológicos”, disse. “Pode ser leve, moderada ou grave.”
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que uma em cada cinco pessoas já sentiu, sente ou ainda vai sentir sintomas da depressão. A projeção é de que será a doença mais comum no planeta em 2030.
Parte numerosa dos 800 mil suicídios ocorridos anualmente é consequência desse transtorno. No Brasil, em média, 38 pessoas tiram a própria vida a cada dia.
A maioria, do sexo masculino. Eles representam mais de 70% dos casos. Ou seja, quase 10 mil homens se suicidam anualmente.
De acordo com profissionais da saúde, muitos deles têm transtornos mentais nunca diagnosticados. O machismo resistente na sociedade dificulta o pedido de socorro.
As situações relatadas pelos padres Fábio de Melo, Marcelo Rossi e Reginaldo Manzotti servem de alerta: a depressão não escolhe profissão, status econômico, fé ou visibilidade pública.
Trata-se de uma condição séria, muitas vezes silenciosa, que exige atenção, acolhimento e tratamento adequado.
Atenção: em caso de sofrimento emocional, você pode ligar gratuitamente para 188. Os atendentes do CVV (Centro de Valorização da Vida) estão disponíveis 24 horas para conversar, sem julgamentos ou críticas, respeitando os sentimentos de quem procura ajuda. Busque também tratamento especializado com psicólogo ou psiquiatra para garantir sua saúde mental.