Clássico de Goliarda Sapienza chega ao Brasil 20 anos após virar best-seller

'A Arte da Alegria' é visto como uma 'grande injustiça literária' da Itália

18 ago 2026 - 14h19
(atualizado às 15h24)

O livro "A Arte da Alegria", da italiana Goliarda Sapienza, é tido pelos tradutores da edição brasileira, o baiano Igor de Albuquerque e a friulana Valentina Cantori, como uma "grande injustiça literária".

A escritora Gogliarda Sapienza morreu sem nunca ter visto 'A Arte da Alegria' publicada na íntegra
A escritora Gogliarda Sapienza morreu sem nunca ter visto 'A Arte da Alegria' publicada na íntegra
Foto: ANSA / Ansa - Brasil

Recém-lançada pela Autêntica Contemporânea, a obra, hoje considerada um clássico europeu e fenômeno internacional com mais de 1 milhão de exemplares vendidos, foi recusada por editoras italianas durante muito tempo, vindo a ser publicada de forma integral no país somente em 1998, dois anos após a morte da autora. No entanto, o reconhecimento global só veio em 2005, quando o livro foi lançado na França.

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Autêntica, com espírito libertário e distante dos círculos literários da época, a siciliana Goliarda escreveu "A Arte da Alegria" entre 1967 e 1976. Com cerca de 640 páginas na edição brasileira e com uma forte carga erótica "do começo ao fim", ela narra a história de Modesta, que, no interior da Sicília, desafia as convenções morais, políticas e religiosas nas primeiras décadas do século 20.

"A autora ouviu inúmeras desculpas sobre a falta de enquadramento da obra nos padrões editoriais da época", explicou Cantori. Segundo a tradutora, não apenas o conteúdo do manuscrito, "com uma personagem ambígua, que experimenta uma sexualidade variada e se mostra manipuladora", mas também "a extensão do texto e seu estilo não homogêneo de escrita" estavam entre os motivos para "o silenciamento na Itália durante décadas".

Na visão de Albuquerque, "como se trata de uma obra muito audaciosa em todos os sentidos, parece que também faltou audácia das editoras em apostar no material".

Porém, não satisfeita com as negativas do mercado editorial "e sempre acreditando em seu trabalho e na personagem Modesta", Goliarda cometeu um ato extremo: furtou joias da casa de uma amiga em Roma, em 1980, para vendê-las e, com o dinheiro, pagar pela impressão das cópias de "A Arte da Alegria".

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O episódio, narrado no filme "Fuori" (2025), de Mario Martone, custou à escritora dois meses de detenção no presídio feminino de Rebibbia, ainda que a experiência no cárcere tenha lhe inspirado um novo romance, "L'università di Rebibbia".

Para o lançamento da edição no Brasil, os tradutores trabalharam durante dois anos sobre o texto original, no qual encontraram "muitos elementos biográficos", ainda que não se trate de uma "autoficção".

"Encontramos muitos nomes que também estão na biografia da autora", disse a tradutora italiana. "Modesta tem uma vida completamente diferente da de Goliarda, mas por ser um livro siciliano, há muitos elementos da vida e da política locais", completou Albuquerque.

Goliarda faleceu em 1996, aos 72 anos, sem nunca ter visto o livro reconhecido por completo - houve uma edição reduzida em 1994, publicada pela Stampa Alternativa. Porém seu segundo marido, o ator Angelo Pelegrino, continuou a lutar pela publicação integral do material na Itália, conquistada postumamente. 

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