O outono em Paris reforça a cidade como centro da moda com exposições que vão além das passarelas para explorar seu impacto social, histórico e artesanal. A temporada destaca a fotografia de Rafael Pavarotti e Irving Penn, o papel dos trajes na identidade de grandes artistas e a evolução dos calçados. O artesanato é celebrado nos 90 anos da chapelaria Maison Michel, enquanto o Palais Galliera aborda a emancipação feminina no século XIX através da apropriação do vestuário masculino por mulheres.
Silvano Mendes, da RFI em Paris
Após um primeiro semestre marcado por exposições como Azzedine Alaïa et l'Afrique e a retrospectiva dedicada a Gianni Versace, o outono parisiense aposta em mostras que exploram a moda por novos ângulos. Museus e instituições deixam em segundo plano a celebração dos estilistas para investigar o papel social das roupas, os ofícios que sustentam a indústria e as personalidades que ajudaram a moldar sua história.
O sucesso de exposições como Louvre Couture, no museu do Louvre, em 2025, e Africa Fashion, no museu do Quai Branly este ano, mostra o crescente interesse do público por esse tipo de evento e incentiva os curadores a renovar constantemente suas abordagens.
As mais visuais
A fotografia ocupa lugar central nessa temporada de exposições parisienses dedicadas à moda. Enquanto o Museu de Artes Decorativas apresenta o trabalho do brasileiro Rafael Paravotti a partir de 2 de outubro, a Maison Européenne de la Photographie (MEP), que celebra seus 30 anso de existência, dedica uma grande retrospectiva a Irving Penn a partir de 30 de setembro.
Com Penn x Fashion, a instituição revisita a trajetória do fotógrafo americano que, por quase seis décadas, ajudou a moldar a imagem da moda contemporânea. Além de seu estilo, por meio de parcerias marcantes, como a colaboração de longa data com o estilista japonês Issey Miyake, Penn ajudou a elevar a fotografia de moda ao patamar da expressão artística.
A mais poética
No discreto Museu Bourdelle, L'Étoffe d'artiste : De Rosa Bonheur à Sonia Delaunay (Tecido de Artista: De Rosa Bonheur a Sonia Delaunay) analisa os guarda-roupas de pintores, escultores e fotógrafos. A exposição mostra como, a partir da segunda metade do século XIX, os artistas passaram a construir conscientemente sua imagem pública.
Dos aventais de ateliê às boinas de pintores, a roupa e os acessórios se tornaram parte da identidade criativa.
A mais acessível
A loja de departamentos Printemps dedica sua nova exposição ao universo dos calçados. Instalada sob a cúpula histórica da loja no boulevard Haussmann, Pas à pas : la chaussure sous tous les angles (Passo a Passo: O Sapato sob Todos os Ângulos) tem entrada gratuita e forte vocação pedagógica.
Organizada em torno de onze temas, a mostra acompanha a evolução dos sapatos ao longo da história, das criações que valorizam a silhueta aos tênis, passando pelas sapatilhas de dança e os sapatos para os mais fetichistas. O resultado é um panorama acessível e lúdico de um dos itens mais importantes do vestuário.
A mais artesanal
Até 13 de dezembro, o 19M apresenta Métamorphoses, les chapeaux de la Maison Michel (Metamorfoses, os Chapéus da Maison Michel). A exposição celebra os 90 anos da tradicional chapelaria francesa e destaca tanto a diversidade dos modelos quanto as técnicas envolvidas em sua fabricação.
A mostra dialoga com a missão do 19M, espaço criado pela maison Chanel para preservar e valorizar ofícios artesanais ligados à moda. Além disso, a escolha é simbólica, já que Gabrielle Chanel iniciou a carreira como modiste, nome francês dado aos criadores de chapéus.
A mais engajada
Já o Palais Galliera, museu da moda de Paris, apresenta Un Vestiaire à soi : Féminités dissidentes au XIXe siècle (Um guarda-roupa para si: feminilidades dissidentes no século XIX). A exposição examina como mulheres do século XIX se apropriaram de códigos do vestuário masculino.
Trajes de equitação, roupas para a prática do ciclismo, chapéus e gravatas revelam mulheres que, segundo a curadora Marine Kisiel, "transgridem o sistema binário". Elas encontravam na moda "meios para se emancipar, expressar sua capacidade de ação e sua vontade de participar de uma sociedade que por muito tempo as excluiu ou as confinou ao espaço da intimidade e da vida doméstica", explica. Uma mostra histórica, mas que trata temas bastante contemporâneos.