Conheça o ginecologista francês Jean‑Marc Ayoubi, pioneiro do transplante de útero na França

O ginecologista e obstetra francês Jean‑Marc Ayoubi, chefe do setor de Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Reprodutiva do Hospital Foch, em Suresnes, na região parisiense, é pioneiro no transplante de útero na França. A ex‑campeã francesa de nado sincronizado Déborah Berlioz foi a primeira mulher a se beneficiar da cirurgia. Ela recebeu o útero da mãe e deu à luz duas meninas, Misha e Maxine, que nasceram em 2021 e 2023.

3 mar 2026 - 13h42

Taíssa Stivanin, da RFI Brasil em Paris

Antes de começar a entrevista, o ginecologista francês Jean‑Marc Ayoubi pede um minuto para verificar uma mensagem no celular: ele acaba de receber uma foto das duas filhas de Déborah. Misha, a mais velha, completou cinco anos no dia 12 de fevereiro, poucos dias antes da reportagem.

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O nascimento das duas crianças é o resultado de cerca de 15 anos de pesquisa e da proeza de uma equipe médica formada por cerca de 20 profissionais franceses, liderada pelo ginecologista. O objetivo: realizar o sonho de ser mãe para mulheres que sofrem com a síndrome de Rokitansky, ou seja, que nascem sem útero — uma condição rara que atinge uma a cada 5 mil pessoas.

Jean‑Marc Ayoubi chegou ao Hospital Foch em 2006. Na época, o estabelecimento francês já era conhecido pelas cirurgias de transplante renal. "O ambiente era propício ao transplante de útero. Descobri no setor de ginecologia que existe um acompanhamento para mulheres que não têm útero de nascença, ou sofreram uma hemorragia ou tiveram um câncer ainda jovens. Essas pacientes se sentiam extremamente infelizes por não terem útero e não poderem ter filhos", conta.

O mesmo setor do hospital também atendia pacientes que desejavam fazer a transição de gênero. "Logo que cheguei, atendi duas pacientes: uma era infeliz e sofria porque não tinha útero, e outra, que se sentia tão infeliz quanto ela, mas porque tinha um útero", conta.

Diante dessa situação paradoxal, o especialista pensou na possibilidade de transplantar úteros saudáveis nas mulheres que nasceram sem o órgão. O projeto de pesquisa foi criado, aperfeiçoado e recebeu as autorizações necessárias para ser colocado em prática, primeiramente em animais.

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Entre 2006 e 2007, Jean‑Marc Ayoubi conheceu o médico sueco Mats Brännström, pioneiro no procedimento. Juntos, eles elaboraram um projeto que, na França, esbarrou na obtenção de diversas autorizações para utilizar doadoras vivas. Segundo ele, foram necessários dez anos para que tivessem início os transplantes.

Durante esse período, a equipe do Hospital Foch continuou a realizar testes com animais, a desenvolver a técnica por cirurgia robótica e a selecionar as pacientes. Os cem critérios de inclusão na pesquisa são rígidos e incluem compatibilidade e a existência ou não de patologias crônicas, por exemplo. A equipe se reuniu com mais de 450 casais para incluir somente cerca de 30 na pesquisa.

O projeto também despertou o interesse do hospital e dos profissionais de saúde de diferentes setores do estabelecimento, que se uniram em uma força‑tarefa para levar a iniciativa adiante.

Em 2019, o ginecologista pôde finalmente realizar o primeiro transplante em Déborah Berlioz, selecionada entre centenas de pacientes. O procedimento foi agendado para ser realizado com o apoio da equipe sueca, em um domingo, no hospital francês, e durou 21 horas. "Começou às 7h da manhã e terminou à 1h. Foi uma mistura de alegria e de alívio. Apesar da exaustão, foi uma alegria imensa", relembra Jean‑Marc Ayoubi.

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Após a operação, a transferência do embrião, obtido por meio de fertilização in vitro, foi feita com sucesso e Déborah ficou imediatamente grávida. Sua trajetória, entretanto, foi marcada por alguns percalços: o procedimento aconteceu durante a pandemia de Covid‑19 e a nadadora usava um medicamento imunossupressor para evitar que o útero fosse rejeitado pelo organismo.

Esse tipo de medicamento facilita infecções virais e bacterianas. Déborah, que vivia em Cannes, no sul do país, não podia sair de casa. Durante todo o ano de 2020, entre lockdowns e restrições sanitárias, o ginecologista viajava até a cidade com um aparelho de ecografia portátil para acompanhar a paciente e fazer os exames necessários no hotel onde ele ficava hospedado.

"A gravidez foi normal e, no sexto mês, ela veio morar ao lado do hospital para o acompanhamento da gestação. Ela deu à luz às 34 semanas de gravidez, uma menininha, Misha, que nasceu com muita saúde, em plena forma."

Déborah teve um segundo bebê em 2023 e, após o nascimento das duas crianças, o útero foi retirado para possibilitar a interrupção da medicação imunossupressora, que deve ser usada para evitar a rejeição.

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"É um prazer imenso ver a felicidade dessa família, ver a felicidade dessa paciente, que lutou muito. É importante homenageá‑la. É uma campeã, uma guerreira. É preciso ser resistente para viver o que ela viveu; é preciso ter o espírito de um combatente. Como ela era campeã francesa de nado sincronizado, tinha o hábito de competir, de gerenciar a pressão e a ansiedade, isso nos ajudou muito. Ela transmite uma calma inacreditável."

Três francesas que nasceram sem o órgão já puderam realizar o sonho de ser mãe graças à técnica. Segundo o ginecologista francês, o transplante de útero já é praticado em cerca de 30 países, incluindo o Brasil.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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