Reduzir emissões da aviação evitaria prejuízos bilionários ao clima

2 nov 2026 - 14h01
Resumo
A aviação responde por mais de 5% do aquecimento global, gerando prejuízos anuais de 2,85 trilhões de euros ao clima e à saúde. Além do CO2 fóssil, os rastros de condensação têm forte impacto no aquecimento terrestre. Esse cenário pode ser mitigado com a otimização de rotas de voo e o avanço dos combustíveis sustentáveis (SAF e sintéticos). Especialistas e entidades defendem o fim de subsídios fiscais ao setor e a inclusão dos custos climáticos nas passagens para acelerar a descarbonização.

Altas emissões de CO2 fazem da aviação um dos meios de transporte mais prejudiciais ao clima. Mudanças nas rotas de voo e combustíveis sustentáveis podem reduzir drasticamente esses danos.A aviação responde por mais de 5% do aquecimento global causado pela atividade humana.

Aviões provocam todos os anos danos ao clima e à saúde avaliados em cerca de R$ 17,3 trilhões
Aviões provocam todos os anos danos ao clima e à saúde avaliados em cerca de R$ 17,3 trilhões
Foto: DW / Deutsche Welle

Devido às suas emissões, as aeronaves provocam todos os anos danos ao clima e à saúde avaliados em cerca de 2,85 trilhões de euros (R$ 17,3 trilhões), segundo estimativas da Agência Federal do Meio Ambiente da Alemanha (UBA).

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Atualmente, quem paga essa conta é a sociedade como um todo. Se os danos fossem efetivamente incluídos no preço das passagens, um passageiro teria de pagar, segundo a UBA, um adicional de 1,4 mil euros por um voo só de ida de Berlim para Nova York. No caso de um voo de Berlim para Istambul, o acréscimo seria de cerca de 330 euros.

A boa notícia é que as emissões na aviação podem ser reduzidas de maneira significativa, e isso é possível por meios relativamente simples e de baixo custo.

Rotas de voo otimizadas evitam danos graves ao clima

Na aviação, os chamados "efeitos não relacionados ao CO2" são particularmente prejudiciais ao clima. Eles têm um impacto climático duas vezes mais nocivo do que o próprio CO2 emitido durante os voos. Por causa disso, a aviação gera impactos climáticos muito maiores do que se costuma imaginar.

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Os efeitos não relacionados ao CO2 podem surgir durante a queima de querosene em grandes altitudes, quando o vapor de água gerado pelas turbinas durante a combustão pode ser especialmente prejudicial ao clima ao se transformar em cristais de gelo, visíveis no céu como rastros de condensação.

Com frequência, esses rastros se dissipam rapidamente, não representando, portanto, um problema para o clima. Contudo, se as aeronaves atravessarem camadas de ar particularmente frias e úmidas, os rastros de condensação podem persistir por várias horas. Nesses casos, formam-se extensas nuvens finas - semelhantes a véus - que impedem a dissipação do calor da Terra para o espaço e intensificam o aquecimento global.

No entanto, é possível muitas vezes evitar a formação desses rastros de condensação de longa duração. Isso ocorre quando as aeronaves voam em altitudes mais baixas ou através de camadas atmosféricas com temperaturas mais elevadas e menor umidade.

Segundo especialistas, com ajustes adicionais nas rotas de voo, os efeitos não relacionados ao CO2 poderiam até ser totalmente evitados. Essas indicações aparecem em "inúmeros estudos", afirma à DW o pesquisador atmosférico Volker Grewe, do Centro Aeroespacial Alemão (DLR).

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De acordo com cálculos de pesquisadores, rotas de voo otimizadas poderiam evitar danos climáticos de até 1,9 trilhão de euros.

Rotas aéreas favoráveis ao clima na Europa a partir de 2028?

Na Europa, o setor de aviação já está integrado ao sistema de comércio de emissões. Atualmente, as companhias aéreas pagam entre 70 e 80 euros por tonelada de CO2 emitida. Desde 2025, além dessas emissões, os efeitos não relacionados ao dióxido de carbono de todos os voos também estão sendo registrados em um banco de dados.

Até o final de 2027, deverá ser apresentada uma proposta sobre como incentivos financeiros podem levar as companhias aéreas a utilizar, com maior frequência, rotas aéreas mais favoráveis ao clima. Também deverão ser definidas regras para a gestão do tráfego aéreo. A implementação gradual poderá começar em 2028.

Segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), o setor de aviação deve reduzir suas emissões a um nível líquido zero até 2050. O CO2 é gerado durante a queima de querosene de origem fóssil.

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De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), a queima de querosene libera, atualmente, quase um bilhão de toneladas de CO2 por ano. Segundo estimativas da Agência Federal do Meio Ambiente da Alemanha, isso resulta em danos à saúde e ao clima a longo prazo, estimados em cerca de um trilhão de euros.

Uma estratégia fundamental é a substituição do querosene fóssil por combustíveis de aviação sustentáveis (SAF, na sigla em inglês). Essa medida permite uma redução significativa das emissões de CO2.

Segundo a Iata, os SAF de origem biológica (Bio-SAF) produzidos a partir de óleos de cozinha usados, gorduras animais ou resíduos agrícolas, podem reduzir as emissões de CO2 em até 80% em comparação com o querosene fóssil.

Combustíveis sintéticos ajudam a reduzir custos

Ainda mais favoráveis ao clima são os combustíveis sintéticos, conhecidos como E-SAF, que podem ser produzidos a partir de eletricidade renovável, água e CO2, o que os torna praticamente neutros em termos climáticos.

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A União Europeia (UE) pretende incentivar, por meio de legislação, a produção de SAF de origem biológica e sintética, estabelecendo cotas obrigatórias de mistura.

Paralelamente, busca-se reduzir as emissões de CO2 por voo. Em 2025, a participação do SAF no querosene de aviação na UE era de quase 3%. A partir de 2030, esse percentual deverá subir para, no mínimo, 6%. Até 2050, está previsto um aumento de pelo menos 70%.

Segundo um relatório da Agência Europeia de Segurança na Aviação (EASA), vários países também estabeleceram metas e requisitos para adição obrigatória de SAF ao combustível convencional. Entre eles estão Brasil, Canadá, China, Índia, Indonésia, Japão, Malásia, Singapura, Coreia do Sul, Tailândia, Chile e Turquia.

Fatores econômicos também podem acelerar essa transição. O E-SAF está se tornando cada vez mais barato, graças à energia solar de baixo custo e aos avanços tecnológicos. Segundo um estudo, em 2040, o custo de um litro de combustível sintético poderá ser de apenas cerca de um euro - valor pouco superior ao do querosene fóssil, que atualmente custa cerca de 0,87 euro por litro na Europa.

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Como políticas públicas podem promover uma aviação mais sustentável

Até o momento, a aviação não conseguiu reduzir o impacto climático total de suas operações. Embora a participação de combustíveis sustentáveis esteja aumentando - com avanços obtidos por meio da mistura de SAF -, o tráfego aéreo continua a crescer.

Portanto, a medida mais eficaz para o clima continua sendo evitar viagens aéreas sempre que possível. Os governos dispõem de diversas estratégias para isso. A França, por exemplo, proíbe desde 2023 voos domésticos de curta distância caso o destino possa ser alcançado em viagens de trem com duração de menos de 2,5 horas.

Em Amsterdã, vigora desde maio de 2026 uma proibição de publicidade para voos em espaços públicos. O objetivo é reduzir o incentivo para que turistas e cidadãos reservem viagens aéreas.

O preço é um fator fundamental para um sistema de transporte mais sustentável. Em muitos países, as viagens aéreas estão isentas de impostos sobre valor agregado e sobre energia. Isso pode fazer com que uma viagem de avião seja mais barata do que uma viagem de trem. A diferença de preço leva muitas pessoas e empresas a optar pelo meio de transporte mais prejudicial ao clima.

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Na Alemanha, segundo a Agência Federal do Meio Ambiente, esses benefícios fiscais para voos somam cerca de 12 bilhões de euros por ano. Por isso, a agência recomenda a eliminação desse subsídio, defendendo um tratamento igualitário para os diferentes meios de transporte. A receita fiscal adicional gerada poderia ser utilizada para financiar medidas que tornem o transporte aéreo menos prejudicial ao clima.

Além disso, a UBA recomenda que os custos ambientais e climáticos sejam incorporados de forma mais expressiva aos preços. Dessa forma, as companhias aéreas teriam incentivos financeiros para escolher rotas mais favoráveis ao clima, economizar combustível, utilizar aeronaves mais eficientes e empregar combustíveis sustentáveis.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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