A busca por indícios de vida — e vida inteligente, capaz de criar tecnologia — em outros planetas pode estar a algumas décadas de encontrar respostas.
Professor do Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Rochester, em Nova York, nos EUA, o astrofísico Adam Frank lidera as pesquisas para mapear essas "tecnoassinaturas" no Universo. Além desse trabalho, também é uma figura pop: como divulgador científico, escreve livros de sucesso, já participou de um documentário da Netflix e foi consultor científico da Marvel para o filme Doutor Estranho.
Frank é um dos destaques do São Paulo Innovation Week, evento que será realizado de 12 a 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap. O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos - os ingressos já estão à venda e os assinantes do jornal têm desconto.
O cientista conversou com a reportagem sobre o motivo de o investimento público ser a "galinha dos ovos de ouro" da inovação, os riscos de uma inteligência artificial que nos torna "mais rasos" e como a crise climática deve ser lida sob a ótica da astrobiologia: não como uma missão para "salvar" a Terra, mas como uma questão de sobrevivência de uma civilização que deve aprender a conviver com as regras físicas do planeta.
Leia a entrevista completa abaixo.
A humanidade especula há milhares de anos sobre a vida em outros planetas. Quão perto estamos de saber se há vida fora da Terra?
Como você disse, essa pergunta tem 2.500 anos. É possível ver os gregos antigos discutindo sobre isso: Aristóteles tinha uma opinião e Demócrito, outra. É realmente uma das questões mais antigas da história. E a resposta pode ser "não"; pode ser que busquemos em milhares de estrelas e não encontremos nada. Isso não significaria que não existe vida, mas que ela não é comum. Ou pode ser que, de fato, encontremos algo.
O extraordinário é que esta geração, os jovens de hoje, provavelmente estará viva quando começarmos a ter respostas. É incrível estarmos a 10, 20 ou 30 anos de ter a tecnologia e a base teórica para observar planetas distantes, mundos alienígenas, e procurar por vida neles.
O conhecimento e a tecnologia nessas áreas têm se desenvolvido mais rapidamente nas últimas décadas?
O que eu chamo de "revolução dos exoplanetas" começou em 1995. Quando eu era estudante de pós-graduação, não conhecíamos nenhum planeta orbitando outras estrelas. Era perfeitamente possível que o Sistema Solar fosse uma raridade e que planetas fossem difíceis de se formar. Em vez disso, a partir de 1995, descobrimos que há muitos deles. Planetas existem aos montes.
Hoje sabemos que, ao olhar para o céu noturno, cada estrela possui sua própria família de planetas. Esse conhecimento tem, no máximo, 30 anos. Aconteceu agora, durante as nossas vidas. Mais do que isso: a capacidade de procurar evidências indiretas de vida (fora da Terra) é algo muito novo, de talvez 15 anos para cá.
Como essa evidência indireta é coletada?
Não conseguimos tirar uma foto do planeta; ele é muito distante e escuro. O que fazemos é analisar a luz que atravessa sua atmosfera. Quando um planeta orbita sua estrela, às vezes ele passa entre ela e nós. Nesse momento, parte da luz estelar atravessa a atmosfera do planeta e é absorvida. A luz que chega até nós carrega uma espécie de "impressão digital" dos elementos químicos ali presentes. Assim, descobrimos do que a atmosfera é feita e se existem substâncias que só poderiam estar lá por causa da vida.
Existem as bioassinaturas — rastros de uma biosfera, como florestas ou plâncton. E pode haver tecnoassinaturas — rastros de tecnologia de uma civilização. Eu liderei o primeiro grupo a receber uma verba da Nasa para buscar tecnoassinaturas em atmosferas; focar em vida tecnológica inteligente tem sido uma parte central do nosso trabalho.
Você defende que o financiamento público é a galinha dos ovos de ouro para a ciência. Esse modelo está em crise atualmente nos EUA, com os cortes federais a instituições como a Nasa?
Com certeza. A ciência dos EUA está sob enorme pressão. Se algo não mudar, a história dirá que este foi o maior exemplo de uma nação dando um "tiro no pé" sem motivo algum.
A excelência científica não é eterna. Em 1600, para estar na fronteira da ciência, você iria para a Itália. Em 1700, com o fim dos Médici e do financiamento, o destino seria Inglaterra ou França. Em 1900, seria a Alemanha, berço da mecânica quântica e da relatividade. Em 1965, seriam os Estados Unidos.
A nação na vanguarda é aquela que apoia a ciência. As ações do atual governo estão desmantelando partes importantes da ciência americana ou impondo restrições tão desnecessárias que corremos o risco de perder a liderança. O que ocorre hoje é uma ameaça. Outra pessoa assumirá o posto, porque a ciência vai continuar. Só pode não ser mais os EUA, o que seria um erro terrível (para nós).
Em países em desenvolvimento, como o Brasil, como convencer a sociedade de que o investimento em áreas de pesquisa abstrata, como a astrofísica, é o que gera inovação para as próximas décadas?
É preciso mostrar como algo tão abstrato quanto a astronomia gera consequências práticas e econômicas enormes.
Entre o fim dos anos 80 e início dos 90, um laboratório de astronomia tentava criar uma forma de transmitir imagens, já que a área depende muito delas. Isso contribuiu diretamente para a criação da internet — o melhor exemplo de como a ciência básica gera trilhões em crescimento econômico. Muitos dos algoritmos atuais nasceram ali.
Outro exemplo é o laser: em 1960, ocupava uma sala inteira e as pessoas perguntavam para que servia. Pense em quantas vezes você cruza com um laser hoje. São trilhões de dólares vindos de pesquisa básica financiada pelo governo. Mesmo para países com orçamentos menores, o retorno sobre o investimento é extraordinário. Além disso, a ciência básica permite parcerias internacionais que sempre rendem frutos no longo prazo.
Acha que essas parcerias são o caminho para países com menos recursos fortalecerem a ciência e a inovação?
Sim, com certeza. Já colaborei diversas vezes com cientistas brasileiros. A ciência brasileira tem um impacto real; vocês exportam e também mantêm ótimos pesquisadores. O Brasil é um país grande e tem todos os argumentos (para formar parcerias). Vocês podem ser uma potência neste século; imagino o Brasil se tornando uma verdadeira força científica.
Em seu novo livro, O Ponto Cego, escrito com o brasileiro Marcelo Gleiser e com o filósofo Evan Thompson, você argumenta que a ciência esqueceu de integrar a experiência humana. Essa crítica se aplica a grandes desenvolvimentos tecnológicos atuais, como a inteligência artificial?
Totalmente. Nas piores facetas da IA — o exagero do marketing e as consequências econômicas devastadoras — há uma incapacidade de reconhecer o que nos torna humanos.
Os debates sobre sistemas que se tornariam superinteligências e nos substituiriam são pura fantasia. Essas máquinas são réplicas medíocres; não chegam nem perto de nós. Mas, como bilionários estão empurrando essas tecnologias goela abaixo sem estarem devidamente testadas, acabaremos nos rebaixando ao nível delas. O risco não é a IA subir acima de nós, mas sermos forçados a descer ao nível raso e "menos que humano" delas, tornando nossa experiência de mundo muito mais plana e pobre.
Este é um caso onde as pessoas deveriam decidir que tipo de tecnologia querem, em vez de aceitá-la apenas porque alguém quer lucrar. Como cidadãos, temos o direito de dizer: "Há coisas ótimas nessa tecnologia e queremos usá-las para isso, mas, fora isso, não". Nós é que devemos dizer aos tecnólogos o que queremos. Não vão conseguir ganhar dinheiro com o que não queremos, que achem outra forma.
E, na sua perspectiva, não é isso que está acontecendo agora?
Não. Há um ciclo interminável de hype forçando a adoção dessas tecnologias. O que eu, Marcelo e Evan Thompson defendemos no livro é que estamos no limiar de uma nova visão da natureza, onde nós, seres humanos, somos inseparáveis do Universo.
A ideia de que o Universo não tem sentido e somos apenas "átomos vazios colidindo no vácuo" é um erro enorme. Não é isso que a ciência nos diz. Nossos sistemas tecnológicos, econômicos e políticos precisam refletir essa visão de que a vida e a biosfera são centrais. Esse é o ponto de partida, não uma visão fantasiosa e externa de perfeição.
Você sugere que a crise climática atual não é algo único: do ponto de vista da astrobiologia, qualquer população ou civilização tecnológica que tenha vivido nesse planeta ou em outros, com uso intensivo de energia, deve ter enfrentado algo semelhante. Como essa perspectiva nos ajuda a encarar os desafios atuais?
Essa perspectiva astrobiológica ajuda a redefinir o debate. Sabemos há décadas que estamos empurrando a Terra para um novo estado climático. Lyndon Johnson foi o primeiro presidente americano a mencionar isso, em 1964. Faz tanto tempo e, como se vê, não fizemos praticamente nada. Provavelmente ultrapassaremos o limite de 1,5°C. Algo está errado.
Como civilização, sabemos do problema, mas não agimos. Isso revela algo disfuncional na história que contamos a nós mesmos. Quando falamos de clima, falamos da física de um planeta. Planetas têm regras: se você extrai muita energia para construir uma civilização, haverá uma reação. O planeta responderá a esse uso de energia mudando o clima.
Imagine que existam milhares de planetas com civilizações. A mudança climática pode ser um processo genérico pelo qual todos passaram. Apenas os que foram inteligentes o suficiente para mudar seu comportamento sobreviveram e construíram uma civilização duradoura.
A inovação tecnológica pode nos salvar dessa enrascada?
Precisamos de uma mudança sistêmica. A inovação ajuda e faz parte da solução, mas não faz tudo. Alguns aspectos dependem puramente do nosso comportamento. Precisamos de mudanças fundamentais para retomar uma relação de parceria com a biosfera.
Hoje, nos afastamos da biosfera e fingimos que a Terra é um lixão onde podemos descartar tudo sem consequências. Aprendemos que a biosfera não tolera isso.
Outro ponto dessa perspectiva: temos a ideia de que precisamos "salvar a Terra". Não é isso. A Terra não é um coelhinho fofo; pense nela como uma deusa furiosa. Se a pressionarmos demais — e já estamos fazendo isso — veremos seu lado perverso. Nosso trabalho não é salvar a Terra, mas sim parar de irritá-la, porque ela nos sacudirá como pulgas em um cão. Essa visão muda o debate: não se trata de direita contra esquerda ou empresas contra ambientalistas. Trata-se de sobrevivência.