2026 começa: o que é o tempo e o quanto é verdadeira a crença de que só existe o presente?

A mudança de ano nos lembra da passagem implacável do tempo. Mas você já parou para pensar no que é o tempo de verdade, além do que os relógios e calendários nos dizem?

5 jan 2026 - 07h33
(atualizado às 08h27)
O que é realmente o tempo?
O que é realmente o tempo?
Foto: Getty / BBC News Brasil

2026 já tomou o lugar de 2025 — mais uma mudança de calendário que nos lembra da implacável passagem do tempo.

Mas você já parou para pensar no que é o tempo, além do que nos dizem relógios e calendários?

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Reflita um pouco. Em nossa experiência como seres humanos, percebemos o tempo como uma sequência de eventos.

Ou seja: um futuro que se torna presente e um presente que se transforma em passado.

Sentimos que o presente é tudo o que existe, mas ele é efêmero, desaparecendo a cada segundo que passa.

Consideramos o passado como algo que deixou de existir e está se afastando de nós rumo ao esquecimento, embora parte dele permaneça em nossas memórias.

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E acreditamos que o futuro é algo potencial que ainda não aconteceu e promete caminhos alternativos.

Mas o que há de verdade em tudo isso? O tempo é algo real ou uma mera ilusão? Ou uma mistura dos dois?

Prepare-se, porque o que a física clássica e a atual dizem sobre isso pode causar perplexidade, já que colocam em questão algumas das crenças mais difundidas sobre o tempo.

Tempos distintos?

Albert Einstein (1879-1955) mudou para sempre nossa visão do universo
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Chamkaur Ghag, renomado astrofísico da University College London (UCL), afirma que os físicos ainda não chegaram a um acordo sobre o que é o tempo.

"Mas há consenso em aceitar o que a teoria da relatividade de Albert Einstein afirma. Ela apresenta um universo onde espaço e tempo são inseparáveis e se influenciam mutuamente, e onde os fenômenos são percebidos de forma diferente, dependendo do estado de movimento do observador", explica Ghag à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

O tempo é relativo, explica Ghag: se dilata à medida que um corpo se move mais rápido em relação a outros.

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Assim, quanto mais próximo um objeto (ou um indivíduo) chega da velocidade da luz, mais perceptível se torna a desaceleração do tempo.

Segundo Einstein, o tempo também passa mais lentamente quando um corpo experimenta uma força gravitacional maior.

No filme Interestelar (2014), de Christopher Nolan, há uma cena que ilustra isso bem: o protagonista desce a um planeta sujeito a uma gravidade intensa devido à sua proximidade com um buraco negro.

Quando ele retorna à nave principal depois do que lhe parece pouco mais de uma hora, encontra um tripulante para quem se passaram 23 anos.

A dilatação do tempo foi verificada experimentalmente nas últimas décadas usando relógios atômicos ultraprecisos e modernos aceleradores de partículas.

Isso foi corroborado pela detecção de ondas gravitacionais geradas por distorções no espaço-tempo.

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São vários os triunfos para as ideias de Einstein.

Matthew McConaughey e Anne Hathaway atuam no filme Interestelar, onde é retratada a influência da gravidade no tempo a que os indivíduos são submetidos
Foto: Divulgação / BBC News Brasil

"Outro princípio aceito pelos físicos é que o tempo avança e nunca retrocede", diz Ghag.

No entanto, uma nova — e controversa — corrente na física, conhecida como teoria pós-quântica da gravidade clássica, adiciona ainda mais complexidade à noção de tempo, imbuindo-a de um grau de aleatoriedade.

De acordo com essa teoria, a passagem do tempo pode oscilar aleatoriamente em certas partes do universo, explica Jonathan Oppenheim, pesquisador do Instituto de Ciência e Tecnologia Quântica da UCL e defensor dessa teoria revolucionária.

"Essas flutuações ocorrem devido à interação entre o mundo quântico, que tem um comportamento estranho e imprevisível, e a estrutura do espaço-tempo, que é governada por regras previsíveis", esclarece Oppenheim à BBC News Mundo.

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Isso explicaria curiosidades do nosso cosmos, como que uma partícula possa estar em dois lugares ao mesmo tempo ou estar conectada a outra partícula a milhões de anos-luz de distância.

Uma ilusão?

O movimento dos corpos e a força da gravidade não afetam apenas o espaço: podem fazer com que o tempo passe mais rápido ou mais devagar
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas será que o tempo é mais do que tempo relativo com um toque de acaso?

No livro Uma Breve História do Tempo, o renomado físico britânico Stephen Hawking mencionou a existência do "tempo psicológico".

Segundo Chamkaur Ghag, do University College London, isso se refere à forma como nosso cérebro processa a relatividade temporal.

"Por alguma razão que a neurociência ainda não explicou, uma parte da nossa psique interpreta o fluxo do tempo em termos de passado, presente e futuro."

"Estamos presos a um cérebro limitado que entende algo tão complexo quanto o tempo dessa maneira... O que podemos fazer? Este é um campo de estudo fascinante com muito mais a explorar", afirma o físico.

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A questão, então, passa a ser: como funcionam no universo as categorias que conhecemos como passado, presente e futuro?

Um lugar para o passado

Uma das noções mais intrigantes é a de que, em teoria, nosso passado continua a existir em algum lugar do universo.

"Como espaço e tempo são inseparáveis e interagem, cada evento em nossas vidas ocorre em um espaço-tempo diferente, mesmo que aconteça no que acreditamos ser o mesmo lugar", explica Ghag.

"É como se nossa existência fosse uma sucessão de instantâneos."

Para ajudar você a entender, caro leitor, pense, por exemplo, no que você está fazendo agora: lendo este texto, talvez no seu celular.

Mas o seu "eu" atual não ocupa mais o mesmo espaço-tempo que ocupava um segundo atrás. Aquele que você deixou para trás continua a existir em outro plano, mesmo que você não possa vê-lo.

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E assim acontece a cada segundo que passa.

Ghag explica que, se soubéssemos as coordenadas exatas dos eventos do nosso passado e fosse possível viajar até esses pontos — algo altamente improvável —, poderíamos encontrar nossos "eus" do passado.

Fascinante, não é? Ou aterrorizante?

O presente: nossa percepção de eventos simultâneos em um instante
Foto: Getty / BBC News Brasil

Em relação ao presente, a física atual sustenta que o que chamamos de "agora" é o conjunto de eventos que, em nossa percepção humana, ocorrem simultaneamente em um dado instante.

No entanto, como o tempo pode dilatar, passar em ritmos distintos para diferentes observadores e até mesmo apresentar oscilações aleatórias, também é possível que o presente seja uma "duração" em vez de um momento.

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Isso o tornaria um tanto menos fugaz do que pensamos.

Futuro certo ou incerto?

E quanto ao futuro, agora que um novo ano está começando? Vale a pena fazer uma lista de resoluções para os próximos 12 meses se considerarmos que o futuro depende da nossa liberdade de escolha?

Ou o futuro é predeterminado, o que invalidaria o livre-arbítrio — mas, ao mesmo tempo, facilitaria a previsão do que está por vir?

É aqui que os físicos se sentem mais desorientados quando se fala sobre o tempo.

"Alguns dizem que podemos influenciar o futuro escolhendo entre diferentes caminhos", diz Ghag.

"Mas suponha que o livre-arbítrio também estivesse sujeito à relatividade. Teoricamente, se você conhecesse todas as trajetórias possíveis das mentes e dos fenômenos, poderia prever o futuro."

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Claro, isso criaria um paradoxo, como explica o físico da UCL: "O conhecimento do que vai acontecer acaba alterando o que vai acontecer."

"A verdade é que a física ainda não tem uma resposta clara sobre o que é o futuro", admite Ghag.

Entretanto, o cientista destaca que a esperança e o desejo de mudança nos seres humanos continuam a ser alimentados pela ideia de que o amanhã pode ser moldado — inclusive o ano que acabou de começar.

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