A forma como consumidores pesquisam antes de comprar pode ganhar uma nova dinâmica com a entrada de anúncios no ChatGPT. Depois de mecanismos de busca e redes sociais se consolidarem como caminhos para descobrir produtos e serviços, a OpenAI começa a explorar a publicidade integrada às conversas com inteligência artificial. A mudança abre espaço para que ofertas comerciais apareçam enquanto o usuário explica uma necessidade, tira dúvidas e compara alternativas.
Para Hugo Silveira, empreendedor, estrategista de crescimento e cofundador do Grupo HRZ, holding especializada em crescimento empresarial, a principal transformação não está apenas no surgimento de outra plataforma para anúncios. "O consumidor não quer somente encontrar informação. Ele quer resolver um problema com rapidez. Quando a inteligência artificial participa da pesquisa, organiza alternativas e aproxima possíveis soluções, a jornada de compra pode ficar mais curta e objetiva. Isso muda a lógica da publicidade digital", afirma.
Como a mudança pode afetar o consumidor
Hoje, alguém interessado em trocar de celular, por exemplo, pode pesquisar modelos no Google, visitar diferentes lojas, assistir a vídeos, consultar avaliações e comparar preços antes de escolher. Em uma conversa com inteligência artificial, parte desse processo pode acontecer no mesmo ambiente.
O usuário pode informar quanto pretende gastar, quais recursos considera importantes e como pretende utilizar o aparelho. A ferramenta consegue, então, organizar essas informações e apresentar alternativas compatíveis com os critérios apresentados. Com a publicidade inserida nesse ambiente, ofertas comerciais também podem passar a fazer parte dessa experiência.
Para Iury Borges, estrategista de vendas, criador do método Venda 10X e sócio-diretor do Grupo HRZ, a diferença está principalmente no contexto em que a marca encontra o consumidor. "Nas redes sociais, muitas vezes o anúncio encontra alguém que ainda nem estava pensando em comprar. Na busca, encontra uma pessoa procurando alguma coisa. Dentro de uma conversa com inteligência artificial, a marca pode encontrar um consumidor que já explicou o problema, o orçamento e o que espera da solução. É uma intenção muito mais contextualizada", destaca.
Publicidade dentro da conversa exige transparência
A inserção de anúncios em ferramentas utilizadas para buscar informações torna mais sensível a separação entre recomendação e publicidade. "Existe uma linha que precisa ficar muito clara. Uma coisa é a inteligência artificial indicar uma alternativa porque considera aquela resposta relevante. Outra é uma empresa pagar para aparecer naquele espaço. Para o consumidor confiar nesse ambiente, ele precisa conseguir distinguir uma coisa da outra", ressalta Hugo Silveira.
O que muda para as empresas
Para os anunciantes, a novidade pode representar mais do que simplesmente adicionar outra plataforma ao planejamento de mídia. A diferença está na possibilidade de alcançar consumidores a partir do contexto apresentado durante a conversa.
Uma loja de móveis, por exemplo, pode deixar de disputar somente pesquisas genéricas por "sofá" e passar a encontrar um consumidor que procura um modelo para apartamento pequeno, já informou uma faixa de preço e precisa receber o produto em determinado prazo.
João Vinas, engenheiro, empresário e especialista em CRM, automação comercial e inteligência artificial aplicada a vendas, sócio do Grupo HRZ, avalia que essa dinâmica pode aproximar publicidade e intenção comercial.
"Não estamos falando apenas de mais um lugar para exibir anúncio. Se esse modelo evoluir, a marca poderá aparecer quando o consumidor já estiver explicando exatamente o problema que precisa resolver. Isso exige informação organizada, oferta coerente e capacidade de continuar essa jornada depois do clique", afirma.
Empresas terão de preparar suas informações
A mudança também pode aumentar a importância da presença digital das marcas fora das campanhas publicitárias. Sites atualizados, informações claras sobre produtos, preços, características, políticas comerciais e conteúdos capazes de responder às dúvidas dos consumidores tendem a ganhar relevância em um ambiente mediado por inteligência artificial.
"Não basta investir em mídia. As empresas precisarão construir autoridade, organizar melhor suas informações e produzir conteúdo capaz de responder às dúvidas reais do consumidor. A inteligência artificial tende a valorizar relevância e confiabilidade", explica João Vinas.
O que observar antes de investir
Apesar das possibilidades, os especialistas recomendam cautela antes de direcionar uma parcela relevante do orçamento de publicidade para o novo ambiente.
Custo de aquisição de clientes, qualidade dos contatos gerados, taxa de conversão e retorno sobre investimento estão entre os indicadores que deverão ser acompanhados à medida que os formatos publicitários amadureçam e haja maior volume de dados sobre seu desempenho.
"A plataforma ainda passa por um processo natural de amadurecimento. As empresas precisam acompanhar a evolução da mensuração, entender os formatos disponíveis e avaliar se esse canal realmente faz sentido para seus objetivos de negócio", aponta João Vinas.
Na avaliação dos especialistas, a tendência não é necessariamente de substituição das plataformas existentes. Google, Meta e OpenAI podem ocupar momentos distintos da decisão de compra.
"O maior erro seria enxergar os anúncios no ChatGPT simplesmente como substitutos das plataformas atuais. Estamos falando do surgimento de outro ambiente, baseado na intenção manifestada durante uma conversa. Para as empresas, o desafio será entender qual papel cada canal desempenha e quanto efetivamente contribui para gerar negócio", conclui Hugo Silveira.
Por Carolina Lara