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Nana Caymi lança álbum dedicado à obra do pai
Sábado, 05 de outubro de 2002, 17h35
Nana Caymmi, 61 anos, estreou como cantora em 1961, numa gravação do Acalanto que o pai Dorival, 88, tinha composto (inspirado na canção folclórica Boi da cara preta) para niná-la no berço quando ela tinha seis meses de idade. Agora, a primogênita de Dorival e Stella Maris retribui o carinho dando à luz O mar e o tempo (Universal), seu primeiro disco inteiramente dedicado à obra de Caymmi. Entre sambas-canções e canções praieiras, o mergulho musical e afetivo transborda saudade. O projeto nasceu como uma versão musical do livro Dorival Caymmi - O mar e o tempo (Editora 34, 2001), da jornalista Stella Caymmi, filha de Nana, lançado em dezembro de 2001. Enquanto acompanhava a preparação da biografia do pai, Nana escolhia músicas do compositor para um CD que deveria vir encartado no livro. Mas a obra não ficou pronta no prazo, a idéia foi descartada e o disco vem ao mundo agora, avulso, com produção do velho colaborador da cantora José Milton e arranjos de Cristóvão Bastos e Dori Caymmi. Três faixas (Peguei um ita no norte, Festa de rua, Santa Clara clareou) contam com um coro feminino formado pelas filhas, sobrinhas e netas da cantora (Stella, Denise, Juliana, Marina, Alice, Carolina e Dora). Samba-canção Como o próprio Dorival diz, com naturalidade, que o melhor intérprete das próprias músicas é ele mesmo, a filha sempre teve muita parcimônia em gravá-lo. Em 20 discos solo e 40 anos de carreira, foram apenas 22 as composições de Caymmi que Nana gravou sozinha e outras tantas participando de trabalhos alheios. "Só quando meu pai parou de cantar, eu me senti à vontade para fazer esse disco", ela revela. As 14 faixas trazem releituras - Não tem solução (parceria de Caymmi com Carlos Guinle), que Nana registrou no primeiro disco, e Adeus, gravada por ela para a Odeon no início da carreira - e composições que a cantora nunca tinha interpretado em disco. O samba-canção urbano, gênero ao qual, ao lado do bolero, Nana tem dedicado a vida artística, comparece com as duas canções já citadas e Você não sabe amar (Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima). De resto, o disco conta com versões revigorantes de composições que estão entre as mais famosas do autor - Saudade da Bahia e Saudade de Itapuã - e outras, menos conhecidas, que também falam de nostalgia, como O bem do mar, a já citada Peguei um ita no norte, Cantiga e E eu sem Maria (parceria com Alcyr Pires Vermelho). A saudade também inspira a letra do samba-canção Desde ontem, escrito por Caymmi nos anos 50 e que permaneceu inédito até a pesquisa de Stella para a biografia. "Era uma música que eu conhecia mais por causa de minha mãe do que de meu pai, que quase não a cantava. Até pensei que fosse uma parceria dele com alguém", diz Nana. Felizmente resgatada do passado para se tornar mais um clássico do mestre de Itapuã, Desde ontem é uma jóia belíssima, que traz incrustada uma definição sucinta e precisa do que é saudade: "Desde ontem que eu não vejo meu amor/até parece um ano de sofrimento e dor/poucas horas e parecem tanto anos/anos de desenganos, horas de amargor". Caymmi é o mar, a música são suas ondas e tempo é tudo de que a arte genuína precisa para se manifestar. No futuro, o Caymmi mais popular Como as composições gravadas em O mar e o tempo são, em sua maioria, pouco conhecidas do grande público, Nana planeja fazer futuramente outros discos só com a parte mais popular da obra de Caymmi - da qual são exemplos História de pescadores, O mar, Samba da minha terra, Dora, Dois de fevereiro, Rosa morena, entre tantas obras-primas. A cantora também sonha em gravar um disco todo dedicado à obra de Antonio Carlos Jobim (1927-1994). "Sei do Tom que ninguém canta", vangloria-se Nana, que antes de O mar e o tempo tinha feito um único disco inteiro com a obra de um autor (A noite do meu bem - As canções de Dolores Duran, de 1994). Ela ainda não tem uma previsão de quando vem a Salvador lançar o novo CD, mas o repertório do disco já foi apresentado ao vivo no Rio de Janeiro e vai fazer parte do show-homenagem a Jorge Amado que Nana divide com Danilo e Gal Costa, nos próximos dias 9, 10 e 11, em São Paulo. Ficha Disco: O mar e o tempo Artista: Nana Caymmi Produção: José Milton Gravadora: Universal Preço: R$27 (em média)
Wladimir Cazé / Correio da Bahia
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