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Música de Chico Buarque sobre jovem criminoso poderia ser rap

Compositor que completa 80 anos cantou a vida de um “guri” pobre que abraçou o crime e, ao morrer, virou manchete de jornal

19 jun 2024 - 13h28
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Resumo
Meu Guri se junta a outras músicas brasileiras que abordaram aspectos caros às letras de rap, neste caso crime e morte. Anos depois, o encontro de Chico Buarque com Emicida cantando Senzala e Favela, para homenagear Wilson das Neves, tem raízes históricas e culturais.
Chico Buarque é conhecido pelas músicas políticas e românticas, mas não esqueceu da vida sofrida do jovem de quebrada
Chico Buarque é conhecido pelas músicas políticas e românticas, mas não esqueceu da vida sofrida do jovem de quebrada
Foto: Fernando Frazão/AB

Na lista de músicas e músicos brasileiros que ajudaram a fertilizar a DNA do rap nacional, deveria constar Meu Guri, de Chico Buarque, que completa 80 anos.

Ela narra em longa letra a vida curta de um jovem pobre que abraçou o crime e acabou morto, virando manchete de jornal. Você, certamente, ouviu essa história muitas vezes depois, rimada por manos e minas.

A letra de Chico Buarque toca em aspectos que seriam fundamentais para o rap, a começar pelo protagonista, um jovem pobre que nasceu no morro com “cara de fome”. A mãe não tinha nem nome para lhe dar – “mais um filho pardo sem pai”, como em Negro Drama, e em tantos outros raps.

Hábil, como Chico Buarque sempre foi, em assumir a voz feminina, a letra de Meu Guri é narrada pela mãe. Seu filho chega dos corres cheio de correntes de ouro e enche ela de presentes, na linha do “meu sonho é jogar na seleção e dar uma casa pra minha mãe”.

A letra é pródiga em listar o que o "guri" obtém: além de correntes de ouro, bolsa com tudo dentro, até documento, para a mãe, finalmente, se identificar; e ainda pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador. O mano virou ladrão, com enorme apetite.

Guri e mãe trocam presentes e carinhos, ela cochila e, quando acorda, o mano já foi pro corre, a mãe nem percebeu. Apesar de machista, o respeito à mãe é uma característica fundante do conteúdo das letras de rap.

Como o destino no crime é cadeia ou caixão, uma hora a casa cai. Chico Buarque – ou melhor, a voz narrativa feminina do poema – resume exemplarmente, em dois versos, o destino trágico do guri.

Ele “chega estampado, manchete, retrato/ Com venda nos olhos, legenda e as iniciais”. A mãe não entende o alvoroço. O impacto da magistral construção dessa personagem feminina se dá porque ela não entende o tamanho do B.O. do mano – para usar uma expressão do mundo criminal muito citada no rap.

Presume-se que a foto do jornal mostra o filho morto no mato. Então quase morremos de aperto no coração quando a mãe diz achar que ele está rindo, “está lindo de papo pro ar” – um “superstar do Notícias Populares”, cantariam, na década seguinte, Racionais e tantos outros.

Em retrospectiva, Jair Rodrigues cantando “deixa que digam, que pensem, que falem” instituiu a levada, o flow; Legião Urbana contribuiu com Faroeste Caboclo, longa letra, para os padrões da época, sobre Santo Cristo, do crime; e o Visão do Corre está incluindo, por conta própria, Meu Guri.

O encontro de Chico Buarque com Emicida cantando Senzala e Favela, para homenagear Wilson das Neves, de alguma forma estava previsto.

Fonte: Visão do Corre
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