A história por trás da Praça do Forró de São Miguel Paulista
Apelido do local, na zona leste de São Paulo, surgiu na década de 1980 e marca a presença nordestina no bairro
Quem usa transporte público na zona leste de São Paulo, sabe que, para chegar de ônibus até a estação São Miguel Paulista, da Linha 12-Safira da CPTM, é preciso pegar uma lotação que passe pela Praça do Forró. Mas oficialmente a cidade não tem nenhuma praça com esse nome.
Esse, na verdade, é o “apelido” da Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, onde fica a Capela de São Miguel Arcanjo. Para entender por que o local ficou conhecido por esse nome, é preciso voltar para a década de 1960, quando a região recebia milhares de migrantes.
Na época, nordestinos buscavam o bairro para trabalharem na Companhia Nitro Química, indústria inaugurada em 1940. Sem muitas opções de lazer, as famílias dos trabalhadores costumavam se reunir na área verde aos fins de semana para tocar sanfona e dançar forró.
A produtora cultural Alzira Viana, 74, ainda se lembra da primeira vez que parou para dançar no local, ainda na infância. Ela voltava com o pai do mercado, quando viu um senhor tocando sanfona para os filhos.
“Vamos passar lá para ver”, disse a menina. Minutos depois, ela conheceria o sanfoneiro Luiz de Nazaré e, posteriormente, faria parte de uma tradição que tomou conta daquele lugar por muitos anos: o arrasta-pé na praça.
Naquele período, a área ainda não tinha calçamento e os encontros aconteciam de forma espontânea. “Quando chovia, a gente dançava no barro. Tirava o chinelo e dançava com o pé no chão”, lembra Alzira, que ficou conhecida como uma das “fundadoras da praça”, por sua presença nos forrós do local.
As festas foram ganhando volume e organização a partir da década de 1970, quando o MPA (Movimento Popular de Arte), grupo de artistas da região, passou a montar palcos improvisados e levar caixas de som e microfones para as apresentações.
Na década de 1980, uma parceria do MPA com a Prefeitura de São Paulo colocaria o nome “Praça do Forró” de vez na boca da população.
O projeto foi organizado pela Paulistur, empresa de turismo da cidade (atual SPTuris), e levou à criação de “praças musicais” em alguns bairros de São Paulo. A ideia era usar manifestações artísticas já existentes para revitalizar espaços públicos.
Assim, o bairro da Aclimação, que recebia shows de rock, ganhou uma “Praça do Rock”; o de Pinheiros ganhou a “Praça do Choro”, e São Miguel Paulista ficou com a “Praça do Forró”.
Morador de São Miguel desde criança, Valdecir Câmera, 62, mais conhecido como Valter Passarinho, conta que o título gerou conflitos no bairro. “O pessoal não queria que chamasse de Praça do Forró para [conseguir] dar mais sentido para a questão da igreja do que à cultura popular”, explica.
Em 1992, a gestão da prefeita Luiza Erundina inaugurou um palco no local para as apresentações. O espaço tinha o desenho de um chapéu de couro e recebeu grandes artistas, como o mestre Dominguinhos. Mas os embates contra o forró foram ganhando força com o passar dos anos.
O projeto com a participação da prefeitura acabaria pouco tempo depois e uma restauração da Capela de São Miguel culminaria com a derrubada do palco de chapéu de couro.
Em 2007, uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo anunciaria que a prefeitura decretou o fim do forró no local com a justificativa de preservar a capela.
Na época, o subprefeito Décio José Ventura prometeu destinar um novo espaço público para o forró no bairro, o que até hoje não aconteceu. Para ele, “as duas destinações da praça [fé e forró] eram incompatíveis”.
Coordenadora cultural da Capela, Juliana Pessoa, 38, acredita que as manifestações culturais e de fé podem, sim, dividir o espaço da praça. Ela afirma que apresentações poderiam, inclusive, trazer mais interesse para a população local sobre a história da capela.
“Infelizmente, apesar de toda a importância da Capela, tem muita gente que ainda não conhece a história, sobretudo os moradores daqui. Às vezes vem muita gente de fora, mas os moradores têm bastante resistência”, conta Juliana.
Ela afirma, contudo, que é favorável ao nome oficial da praça. “Padre Aleixo foi uma figura muito importante para a história da Capela e de São Miguel. Ele foi um visionário ao construir a Catedral de São Miguel, que é outro patrimônio do bairro”, explica.
Para Alzira, que viu o movimento de forró surgir em São Miguel, a retomada das manifestações artísticas no local é um sonho que ela tem lutado para realizar.
“Não vou morrer sem ver a praça com o forró [de volta]. Faço forró para tudo quanto é lugar do interior de São Paulo, mas a Praça do Forró é a que marcou a minha vida”, finaliza a produtora cultural.