Zizi Possi dá opinião polêmica sobre artistas da nova geração: 'Falta de comprometimento'
Ao afirmar que não se identifica com os artistas da nova geração, Zizi Possi reacende o debate sobre profundidade artística e as transformações da indústria da música
O que faz um artista ser realmente relevante? O número de seguidores nas redes sociais? A quantidade de visualizações? O sucesso nas plataformas de streaming? Ou existe algo mais profundo por trás de uma trajetória artística? Essa foi a reflexão provocada por Zizi Possi durante sua participação no 33º Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira.
Aos 70 anos, a cantora não escondeu sua visão crítica sobre parte da produção musical contemporânea e chamou atenção ao afirmar que não se identifica com os artistas da nova geração. A declaração rapidamente repercutiu porque toca em um debate que vai muito além da música: a forma como a sociedade atual mede valor, reconhecimento e sucesso.
O choque entre diferentes gerações da música
Cada geração costuma enxergar a arte a partir das referências que ajudaram a moldar sua trajetória. Para artistas que construíram carreiras em uma época em que discos, apresentações ao vivo e anos de amadurecimento eram considerados etapas fundamentais do processo, a velocidade do mercado atual pode causar estranhamento.
Questionada sobre quais nomes da nova geração chamavam sua atenção, Zizi foi direta. "Nenhum. Infelizmente. Eu adoraria gostar, mas não gosto", disse, em entrevista à Quem. A sinceridade da resposta chamou atenção justamente por ir na contramão de um discurso mais diplomático, comum em eventos do meio artístico. Mas, para além da crítica em si, a cantora trouxe um argumento que merece reflexão.
Quando os números se tornam mais importantes que a obra
Segundo Zizi, parte do problema está na forma como o sucesso passou a ser medido. "Tem uma coisa que é uma falta de comprometimento com aquilo que se faz, sabe, e, às vezes, tenho a impressão de que a quantidade de gente que vai na live é mais importante do que aquilo que a pessoa está fazendo."
A observação dialoga com uma realidade que ultrapassa o universo musical. Vivemos em uma cultura cada vez mais orientada por métricas. Curtidas, compartilhamentos, seguidores, visualizações e engajamento se transformaram em indicadores de valor não apenas para artistas, mas para profissionais de diversas áreas.
O desafio é que popularidade e qualidade nem sempre caminham juntas. Enquanto algumas obras ganham enorme alcance em poucos dias, outras levam anos para serem reconhecidas. E isso gera uma pergunta importante: será que estamos consumindo aquilo que realmente nos toca ou apenas aquilo que aparece primeiro diante dos nossos olhos?
"Muitas farinhas no mesmo saco"
Durante a entrevista, Zizi também lamentou aquilo que considera uma certa homogeneização do mercado musical. "Para mim, enquanto cantora, assim, sendo egoísta, não particularmente, é genial, porque a gente não tem outro momento do ano onde haja uma premiação, ou seja, um reconhecimento pelo trabalho musical da gente. Música, infelizmente, está num momento muito difícil de reconhecimento. Parece muitas farinhas no mesmo saco."
A expressão usada pela cantora revela uma preocupação comum entre artistas de gerações mais antigas: a sensação de que diferentes propostas artísticas passaram a ser avaliadas pelos mesmos critérios de popularidade. Na prática, isso pode dificultar o reconhecimento de trabalhos mais autorais, experimentais ou voltados para nichos específicos.
A arte precisa agradar a todos?
Naturalmente, a fala de Zizi também abre espaço para uma visão oposta. A nova geração cresceu em um cenário completamente diferente daquele vivido por artistas consagrados nas décadas anteriores. Hoje, as redes sociais permitem que músicos independentes alcancem milhões de pessoas sem depender das estruturas tradicionais da indústria.
Muitos dos artistas mais ouvidos atualmente construíram suas carreiras justamente graças a essas novas ferramentas. Por isso, talvez a discussão não esteja em determinar qual geração produz a melhor música, mas em compreender que os critérios de sucesso mudaram. O que antes era medido por vendas de discos, hoje é medido por alcance digital. E o que antes dependia da aprovação de gravadoras, hoje pode surgir diretamente da conexão com o público.
O que permanece quando as tendências passam?
Apesar das transformações tecnológicas e das mudanças no mercado, existe um elemento que continua atravessando gerações: a capacidade de uma obra permanecer relevante ao longo do tempo.
Ao comentar a homenagem a Cazuza durante o prêmio, Zizi destacou justamente essa característica. "Ele é atemporal. Você pega uma música hoje que ele escreveu nos anos 1990, e é impressionante como é atual."
Talvez seja esse o ponto central da discussão. Enquanto tendências surgem e desaparecem rapidamente, algumas obras continuam encontrando espaço na vida das pessoas décadas depois de terem sido criadas.
E a pergunta que fica não é apenas sobre a música da nova geração, mas sobre toda produção artística contemporânea: o que estamos criando hoje ainda será capaz de emocionar alguém daqui a 30 anos? A resposta, provavelmente, só o tempo poderá dar.
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