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Conheça Kolomenskoye, a Versalhes de Moscou

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Arturo Escarda

No coração da maior cidade da Europa, onde hoje convivem mais de 12 milhões de pessoas, um oásis de natureza, história e arquitetura russa se estende às margens do rio Moscova em seu caminho rumo ao sul de Moscou: Kolomenskoye, reserva natural e conjunto histórico-arquitetônico.

Kolomenskoye é local de peregrinação de russos que desejam fertilidade
Kolomenskoye é local de peregrinação de russos que desejam fertilidade
Foto: Yulia Pasichnaya / EFE

Em Kolomenskoye passaram sua infância alguns dos maiores czares da história russa, como Pedro I e aqui viveram alguns de seus anos mais gloriosos os monarcas da velha Rússia, aquela que não tinha dirigido ainda seu olhar para a Europa.

Lugar sagrado para muitos russos, como era também para a realeza que durante séculos viveu a cavalo entre estas terras e seus aposentos do Kremlin, Kolomenskoye é berço de mitos e lendas, testemunha de grandes vitórias e dolorosas derrotas.

Um passeio pelas reviravoltas e labirintos da história de um grande império que se alimentou das raízes de uma pequena cidade-estado: a Moscou feudal de Ivan Kalita, grande duque russo que estabeleceu sua residência de verão e campo de caça neste local.

Pouco ou nada resta hoje daquela época obscura. Somente seis carvalhos que têm quase os mesmos anos que a própria cidade. Do alto dos seus mais de 850 anos, um entre tantos bosques se espalham pelos 390 hectares da reserva.

Hoje, Kolomenskoye é um grande atrativo para locais e estrangeiros. O percurso por seu extenso território discorre sobre algumas das obras-primas dos arquitetos russos, capazes de construir torres defensivas, palácios e igrejas sem quase usar pregos e serras, há quatro séculos.

No centro da reserva, uma igreja do século XVI, edificações do século XVII e outras dos séculos XVIII e XIX se abrem aos olhos do visitante no mesmo espaço. Riqueza, variedade de estilos e tempos históricos que chegaram até nossos dias graças a gerações de monarcas russos, que nunca abandonaram este lugar.

Outono de ouro em Moscou, primeiros dias de outubro. Os últimos dias ensolarados deliciam os moscovitas, que desfrutam da explosão de cores na natureza desta bela paragem, um lugar divino consagrado a Deus e levantado por um grande czar que quis agradecer o nascimento de outro ainda maior.

Ascensão e sonho de uma camponesa

"Vinte anos teve que esperar o grande duque de Moscou Basilio III pelo nascimento de um herdeiro, que no final seria de um segundo casamento", contou Olga Kichina, guia de Kolomenskoye.

Tantas vezes tinha pedido ao céus sem que suas orações fossem ouvidas que "prometeu a Deus que construiria uma grande igreja se Ele lhe desse um filho", acrescentou Olga.

Nasceu então um dos maiores, embora também um dos mais temidos monarcas russos, Ivan, o Terrível. Em agradecimento ao milagre foi levantado, sobre um monte destas terras, um dos primeiros templos de pedra da Rússia, a Igreja da Ascensão de Nosso Senhor, declarada em 1994 Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

O templo, construído em 1532 por um arquiteto italiano, é muito diferente das clássicas igrejas ortodoxas russas, reconhecíveis por suas cúpulas e pela riqueza e o ouro que as enfeita. A igreja da Ascensão de Nosso Senhor poderia ser uma igreja europeia e católica. Seu autor, segundo Olga, "fez uma longa viagem antes de chegar a Moscou, e se inspirou em dezenas de igrejas medievais e renascentistas europeias que encontrou pelo caminho. Daí o caráter único desta obra protegida".

Em seu interior, guarda a reprodução de um tesouro artístico e cultural, o Ícone de Nossa Senhora Soberana, achado aqui em 1917, nos tempos da grande agitação revolucionária.

Sua história já é lenda, e assim a guia a contou. "No final do inverno de 1917, uma camponesa que nunca tinha visto este tempo teve o mesmo sonho três vezes, um sonho no qual se via entrando em uma igreja branca, onde entre lixo e escombros encontrava uma grande relíquia."

"Assustada pela repetição da visão, a mulher procurou o pároco de uma capela próxima, que a levou até a Ascensão, onde no porão encontraram o ícone, sujo e escurecido. Ao limpá-lo, viram que era uma imagem de Nossa Senhora, sentada no trono do céu, com o Menino Jesus nos joelhos, e com o cetro e o globo terrestre em suas mãos", acrescentou Olga.

Mas não termina aí a história, porque segundo dizem, o ícone foi achado no mesmo dia em que o último czar russo, Nicolau II, abdicou do trono. "A Rússia já não tem monarcas, nem os terá jamais, nossa czarina agora é Nossa Senhora. Assim foi interpretado este achado", disse a guia.

Ao descer pelas escadas do templo, uma edificação atrativa convida adentrar na floresta que surge depois de seu arco. Entre suas árvores se escondem os seis carvalhos milenares e outra igreja.

São as portas do Palácio Real de Alexei Mikhailovich (segundo czar da dinastia Romanov) que, em meados de século XVII, deu a Kolomenskoye o status da residência real.

O palácio de madeira foi queimado, mas foi reconstruído há alguns anos, de acordo com os planos originais. Agora já não está atrás das majestosas portas, mas em outro extremo de Kolomenskoye. Hoje, atravessar o arco é se aprofundar em um mundo de beleza natural, não menos impressionante do que foi um dia a residência dos czares.

As pedras da fertilidade
Seguindo o caminho marcado pelos carvalhos se chega a um lugar muito mais antigo que todo vestígio humano desta reserva. Um longo despenhadeiro cujas histórias eram contadas para as crianças em tempos nos quais a Rússia era ainda terra de povos quase primitivos. Aqui, ao despenhadeiro de Volos, se vem para ouvir mitos dos primeiros habitantes eslavos que habitaram seus arredores.

Entre as duas ladeiras percorre um lento riozinho, e andando pelo caminho que corre ao seu lado, coberto por folhas de outono e salpicado de pontes de madeira, aparece o lugar que há séculos atrai mulheres e homens. Eles chegam para pedir à natureza o mesmo que tantas vezes tinha pedido a Deus o pai de Ivan, o Terrível. Duas pedras da fertilidade, uma feminina e outra masculina, atraem milhares de crentes.

"Os antigos eslavos acreditavam na existência de três reinos divinos. E agora descemos ao reino inferior, o reino de Volos, onde se encontram as duas pedras que, segundo antigas crenças, ajudam homens e mulheres a superar a infertilidade", explicou Olga.

"Os eslavos acreditavam que as pedras eram um nexo entre os mundos. Uma fronteira entre este mundo e aquele do qual viemos e para o qual iremos."

E assim, acredita-se que estas pedras, que segundo os cientistas chegaram a Moscou na era glacial, são o "melhor lugar para pedir a chegada de um ser que terá que vir do outro lado".

Museu da arquitetura de madeira
Em uma terra afastada e de florestas do extremo norte da Rússia, na região de Arjanguelsk, onde a noite polar se instala no inverno durante três meses, os mestres carpinteiros levantaram em 1685 uma igreja de madeira que mais tarde acolheria uma assombrosa mostra do gênio popular russo.

Ali, sobre um afluente do grande rio Dvina, rezaram durante dois séculos os habitantes de 12 aldeias que habitavam a inóspita região. Povos quase não descritos pelos historiadores que somavam em seus melhores tempos menos de mil habitantes.

Em algum momento de meados do século XIX, um artista desconhecido pintou com invejável maestria os quatro apóstolos evangelistas nas telas que cobriam o teto do templo. Essas telas, testemunhas e protagonistas do gênio anônimo, podem ser admirados hoje em Kolomenskoye, da mesma forma que a Igreja de São Jorge, transferida para Moscou.

Da mesma forma que seus fiéis e os povos que a rodeavam, a Igreja de São Jorge se perdeu no tempo e na história, primeiro como templo de Deus após a Revolução Russa, e mais tarde de forma quase definitiva.

As terras sobre as quais se levantava foram declaradas inúteis pelo Governo soviético nos anos 60. No meio século seguinte, esquecida por todos, foi se cobrindo de mofo. Isolada de toda presença humana, ficava a mais de 40 quilômetros do povoado mais próximo, em uma paragem à qual na primavera só se pode chegar por água e o resto do ano a pé ou de trator.

Estava condenada a desaparecer, até que em 2003 foi redescoberta por um pintor da Academia das Artes da Rússia e transferida para Kolomenskoye para ser restaurada. Hoje é a pérola do Museu da Arquitetura de Madeira, que sobre o solo da reserva revela a seus hóspedes outras obras da tradicional arte arquitetônica russa do século XVII.

Agrupados no mesmo espaço, entre outras edificações, estão a Torre da Fortaleza da Irmandade (1631), habitada há séculos pelos cossacos russos que conquistaram terras no Extremo Oriente siberiano, além do lago Baical, e também a Torre da Fortaleza de Soma (1680), forte para os lanceiros e arqueiros de Pedro I em sua guerra contra os suecos pelo domínio sobre o norte russo.

Olhando para cima, se veem as portas da reserva de Kolomenskoye: as atuais, as de nosso tempo. A algumas centenas de metros, se estende a grande cidade, que lembra aqui sua história e respira entre estas árvores.

EFE   
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