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Taxistas têm menor risco de morrer de Alzheimer; entenda o que pode estar por trás

Estudos sugerem que o exercício constante de navegação e raciocínio espacial pode estimular regiões do cérebro afetadas pela doença

20 ago 2026 - 19h13
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Resumo
Pesquisas indicam que taxistas e motoristas de ambulância têm menor risco de morrer por Alzheimer, apontando a navegação espacial constante como fator protetor. Ao exigir a criação de mapas mentais, a atividade estimula o hipocampo, área ligada à memória e afetada precocemente pela doença. Esse exercício contínuo reforça a reserva cognitiva e a plasticidade cerebral, sugerindo que desafiar a orientação espacial pode ajudar a manter circuitos neurais ativos contra o declínio cognitivo.

Encontrar um endereço, escolher entre diferentes caminhos, perceber que uma rua está bloqueada e rapidamente pensar em uma rota alternativa. Para os taxistas, essas decisões fazem parte da rotina. Mas todo esse esforço de orientação pode ter efeitos que vão além de chegar ao destino: pesquisas sugerem uma possível relação entre o uso frequente da navegação espacial e um menor risco de morrer por doença de Alzheimer.

Taxistas apresentaram menor risco de morrer de Alzheimer em estudo; entenda como este trabalho pode estimular o cérebro
Taxistas apresentaram menor risco de morrer de Alzheimer em estudo; entenda como este trabalho pode estimular o cérebro
Foto: Reprodução: Canva/pixelshot / Bons Fluidos

Um estudo publicado em 2024 chamou atenção justamente por essa associação. Ao analisar quase 9 milhões de certidões de óbito nos Estados Unidos, entre janeiro de 2020 e dezembro de 2022, pesquisadores descobriram que taxistas e motoristas de ambulância apresentavam uma das menores proporções de mortes por Alzheimer entre 443 profissões avaliadas.

Depois de considerar fatores como idade, sexo, etnia e escolaridade, aproximadamente 1 em cada 100 profissionais dessas duas categorias morreu em decorrência da doença. Na população analisada como um todo, a proporção foi de cerca de 1 em 60.

O mais curioso é que a diferença não apareceu da mesma maneira entre todos aqueles que trabalham dirigindo. Motoristas de ônibus e pilotos de avião, por exemplo, não apresentaram vantagem semelhante. Uma das hipóteses é que o diferencial não esteja simplesmente em dirigir, mas na necessidade constante de descobrir caminhos e atualizar mentalmente a própria localização.

Navegar pela cidade é um exercício para o cérebro?

Para entender a possível relação, é preciso olhar para uma região cerebral chamada hipocampo. Ela desempenha um papel importante tanto na memória quanto na capacidade de orientação espacial - e também está entre as primeiras áreas afetadas pela doença de Alzheimer.

Não por acaso, dificuldades para se orientar, reconhecer trajetos e encontrar caminhos podem surgir entre os sinais iniciais da doença, às vezes antes mesmo de problemas evidentes de memória.

Quando alguém precisa navegar constantemente por uma cidade, o cérebro realiza uma série de operações. É necessário saber onde se está, lembrar onde fica o destino, relacionar diferentes pontos de referência e modificar o trajeto diante de imprevistos.

Em outras palavras, não basta repetir um caminho decorado. É preciso construir e atualizar continuamente uma espécie de mapa mental. É justamente esse esforço frequente que pode ajudar a explicar por que determinadas profissões chamaram a atenção dos pesquisadores.

Taxistas de Londres já haviam revelado mudanças no cérebro

A relação entre navegação e cérebro não é uma descoberta recente. Um conhecido estudo publicado em 2000 analisou taxistas licenciados de Londres e encontrou diferenças estruturais em seus cérebros quando comparados aos de pessoas que não exerciam a profissão.

Tornar-se taxista na capital inglesa exige um treinamento particularmente complexo. Os candidatos precisam aprender mais de 25 mil ruas em uma área de aproximadamente 6 milhas ao redor de Charing Cross. O processo, conhecido como The Knowledge ("O Conhecimento"), costuma levar entre três e quatro anos.

Os pesquisadores identificaram nesses profissionais maior quantidade de matéria cinzenta no hipocampo posterior, região associada à formação e ao armazenamento de mapas espaciais em grande escala. Mais interessante ainda: essa diferença estava relacionada ao tempo de experiência. Quanto mais anos dirigindo pelas ruas da cidade, maior tendia a ser o volume dessa região.

O achado ajudou a demonstrar algo importante sobre a plasticidade cerebral. Mesmo na vida adulta, determinadas estruturas podem apresentar alterações associadas às demandas e experiências repetidas ao longo do tempo.

Viver em lugares complexos também pode fazer diferença

Não são apenas as profissões que exigem navegação que despertam interesse científico. O próprio ambiente em que uma pessoa vive pode exigir mais ou menos de sua capacidade de orientação.

Em 2023, pesquisadores analisaram dados de mais de 22,5 mil pessoas e utilizaram um modelo de aprendizado de máquina para investigar a relação entre a complexidade dos ambientes e as taxas de Alzheimer. Considerando características espaciais dos locais, o modelo conseguiu prever quais CEPs apresentavam taxas mais altas da doença com 84% de precisão.

Pessoas que viviam em regiões espacialmente mais complexas - com redes densas de ruas, muitos cruzamentos, diferentes pontos de referência e várias possibilidades de caminho - apresentavam menor probabilidade de desenvolver Alzheimer.

Outro estudo posteriormente relacionou ambientes geograficamente mais complexos a maior volume em regiões cerebrais envolvidas na navegação. Uma das hipóteses é que precisar construir mapas mentais frequentemente mantenha determinados circuitos cerebrais em atividade. Curiosamente, são justamente alguns desses sistemas que podem ser atingidos nas fases iniciais do Alzheimer.

E trabalhar com mapas no computador?

A descoberta também desperta uma questão interessante: é necessário caminhar ou dirigir por uma cidade para obter esse tipo de estímulo ou trabalhar mentalmente com mapas teria efeito semelhante? Profissionais como cartógrafos, urbanistas e especialistas em sistemas de informação geográfica (SIG) passam boa parte do dia lidando com relações espaciais complexas.

Eles podem, por exemplo, combinar mapas de regiões sujeitas a enchentes com informações populacionais, interpretar imagens de satélite ou analisar a relação entre acidentes e características das estradas. Para isso, precisam considerar simultaneamente diferentes localizações, escalas e camadas de informação.

Existe, porém, uma diferença. Enquanto o taxista observa o espaço a partir de sua própria posição na rua, quem trabalha com mapas digitais costuma enxergá-lo de cima. Essa segunda forma de representação é conhecida como raciocínio alocêntrico.

O hipocampo participa da construção de mapas espaciais a partir dessas diferentes perspectivas. Mas ainda não está claro se passar horas raciocinando sobre mapas em uma tela produz efeitos semelhantes aos da navegação por um ambiente real.

O que isso tem a ver com a reserva cognitiva?

Segundo Hatim Sharif, do portal The Conversation, as descobertas fazem parte de uma discussão maior sobre a chamada reserva cognitiva. O conceito procura explicar por que pessoas com alterações cerebrais semelhantes podem apresentar níveis bastante diferentes de comprometimento cognitivo.

Ao longo da vida, atividades intelectualmente estimulantes podem ajudar o cérebro a desenvolver maneiras mais eficientes ou alternativas de realizar determinadas tarefas. Isso não significa criar uma proteção absoluta contra demências, mas pode contribuir para que algumas pessoas lidem melhor com alterações cerebrais por mais tempo.

Estudos já vêm relacionando ocupações mentalmente complexas a um declínio cognitivo mais lento e a um risco menor de demência, mesmo quando diferenças de escolaridade são consideradas. Nesse contexto, a navegação espacial chama atenção por exercitar justamente o hipocampo, tão importante para a memória e tão vulnerável ao Alzheimer.

Então usar mapas previne Alzheimer?

Ainda não é possível chegar a essa conclusão. Os estudos encontraram associações, mas isso não significa que dirigir um táxi, morar em um bairro cheio de ruas ou começar a estudar mapas seja capaz de impedir o desenvolvimento da doença.

No estudo das profissões, por exemplo, outros fatores relacionados ao estilo de vida e às características de quem escolhe determinado trabalho também podem influenciar os resultados.

Da mesma forma, ainda são necessárias pesquisas para compreender quanto do possível benefício está relacionado especificamente à navegação e qual intensidade ou frequência de estímulo poderia fazer diferença.

O que os achados mostram é algo mais amplo: o cérebro adulto continua respondendo às atividades que realizamos repetidamente, e desafiar nossa capacidade de orientação pode ser uma das maneiras de manter determinados circuitos ativos.

Como o raciocínio espacial pode ser treinado, compreender melhor essa relação pode, no futuro, ter implicações que ultrapassam as profissões de taxistas, cartógrafos ou urbanistas. Se novas pesquisas confirmarem um efeito protetor, atividades que desafiam nossa capacidade de construir e atualizar mapas mentais poderão ganhar espaço nas discussões sobre envelhecimento e saúde cerebral.

Bons Fluidos
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