Sono, alimentação e exercício: a base para prevenir doenças
Apesar do avanço das canetas emagrecedoras, os três ainda são a base para uma boa saúde
Especialista explica como o sono influencia o metabolismo, o peso e a prevenção de doenças
A busca pela longevidade e pela prevenção de doenças crônicas passa, obrigatoriamente, pelo equilíbrio de três pilares fundamentais: o sono, a alimentação balanceada e a prática regular de exercícios físicos. Leonardo Kyrillos, médico pós-graduado em nutrologia e medicina esportiva, alerta que, embora o avanço da medicina tenha trazido recursos inovadores para o controle do peso, como as "canetas emagrecedoras", o uso isolado de medicações sem a manutenção desses hábitos básicos é insuficiente para garantir a saúde integral.
Além da balança
O emagrecimento saudável vai muito além da perda de peso na balança. "A obesidade é uma doença crônica, progressiva e multifatorial, influenciada por genética, comportamento, alimentação, sono, saúde emocional, nível de atividade física, ambiente e metabolismo. Os medicamentos ajudam principalmente no controle do apetite, da fome hedônica, da saciedade e do controle glicêmico, mas não substituem hábitos de vida saudáveis. Quando o paciente perde peso sem mudar a alimentação, se mantém sedentário e não melhora a qualidade do sono, ele pode até diminuir o número na balança, mas continua metabolicamente doente", explica Leonardo.
A base de tudo: o trio da prevenção
A pirâmide da qualidade de vida é sustentada pela harmonia entre o descanso, a nutrição e a atividade física. O sono não é apenas um momento de repouso. Ele é um aliado direto na prevenção da obesidade, na melhoria do condicionamento físico e na redução da resistência à insulina.
De acordo com o médico, dormir bem influencia praticamente todos os sistemas do organismo, já que é durante o sono que ocorre a regulação hormonal, recuperação muscular, consolidação da memória, equilíbrio do sistema imunológico e controle do metabolismo.
A privação de sono aumenta a produção de cortisol, o "hormônio do estresse". E altera hormônios relacionados à fome e saciedade, aumentando a grelina, que estimula o apetite, e reduzindo a leptina, responsável pela sensação de saciedade. "Por isso, quem dorme mal tende a sentir mais fome, buscando a energia que não foi recuperada durante o sono na comida. Além disso, dormir pouco está associado a maior risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares. Assim como pior desempenho físico, redução da recuperação muscular e da cognição e piora da saúde mental", alerta.
Impacto negativo de poucas horas de sono
Ainda segundo ele, estudos mostram que dormir menos de seis horas regularmente pode reduzir a sensibilidade à insulina e aumentar marcadores inflamatórios mesmo em pessoas jovens e saudáveis:
"A resistência à insulina acontece quando as células do organismo passam a responder menos à ação da insulina, obrigando o corpo a produzir quantidades cada vez maiores desse hormônio para manter a glicose, o "açúcar no sangue" sob controle.
Esse processo está diretamente ligado ao desenvolvimento de diabetes tipo 2. Reduzir a resistência à insulina significa melhorar a capacidade do organismo de utilizar glicose de maneira eficiente, exigindo menos insulina para funcionar adequadamente".
Além disso, exercícios físicos exercem efeitos que nenhuma medicação consegue reproduzir completamente, como:
- Aumento da massa muscular;
- Melhora da capacidade cardiovascular;
- Fortalecimento ósseo;
- Melhora da saúde mental;
- Aumento da sensibilidade à insulina.
"As principais diretrizes nacionais e internacionais reforçam que o tratamento da obesidade deve ser multidisciplinar, envolvendo alimentação, exercício, sono, saúde mental e acompanhamento médico contínuo", explica o médico.
Da mesma forma, uma alimentação colorida e nutritiva é o combustível necessário para o bom funcionamento dos sistemas imunológico e digestivo, elevando também a qualidade do humor e do metabolismo. Quando somada aos exercícios físicos — que atuam como uma "fábrica" de hormônios como serotonina e endorfina —, o corpo alcança um estado de bem-estar físico e mental que vai muito além da perda de peso.
O papel das "canetas emagrecedoras" e a ciência
As populares "canetas emagrecedoras" (análogos de GLP1, como a semaglutida, tirzepatida e a liraglutida) possuem uma eficácia inegável no tratamento da obesidade. Em muitos casos, essas medicações auxiliam de forma tão significativa que podem eliminar a necessidade de intervenções mais invasivas, como cirurgias bariátricas, ao promoverem saciedade e reduzirem a fome em cerca de 40%.
"No entanto, é importante esclarecer que a cirurgia bariátrica continua sendo uma ferramenta extremamente eficaz e, em alguns casos, necessária. Ainda assim, mesmo após a cirurgia, os pilares permanecem os mesmos: alimentação adequada, exercício físico, sono de qualidade e acompanhamento multiprofissional. Sem isso, inclusive, é frequente a recuperação do peso pelo paciente após um período da operação", esclarece o médico.
Apesar da eficácia, a ciência reforça que essas medicações não fazem milagres sozinhas. De acordo com uma pesquisa publicada na revista científica Obesity Pillars em junho de 2025, a perda de peso rápida e intensa sem o devido suporte pode levar a quadros graves de deficiência nutricional. O estudo, que analisou 461 mil adultos, revelou que 12,7% dos pacientes desenvolveram carências de vitaminas e minerais em apenas seis meses de tratamento, chegando a 22,4% após um ano.
Riscos e acompanhamento médico
A pesquisa da Obesity Pillars destacou que as deficiências mais comuns ocorrem na Vitamina D, no ferro e nas vitaminas do complexo B. Isso acontece porque a redução drástica na ingestão de alimentos, causada pelo esvaziamento gástrico mais lento e pela saciedade prolongada, compromete a absorção de nutrientes essenciais para as funções metabólicas e musculares.
"Essas medicações não são isentas de efeitos colaterais e, dependendo da droga utilizada, podem causar náuseas, vômitos, perda excessiva de massa muscular, desnutrição, alterações gastrointestinais, cálculos biliares, pancreatite (raramente) e deficiências nutricionais. Existe ainda um risco silencioso: emagrecer perdendo músculo em vez de gordura. Sem acompanhamento médico também podem passar despercebidas doenças associadas, como hipotireoidismo, apneia do sono, diabetes, compulsão alimentar e alterações hormonais. O objetivo não é apenas perder peso, mas sim emagrecer/perder gordura, melhorando a composição corporal, saúde metabólica, capacidade física e longevidade", considera.
Portanto, o uso de medicamentos para redução de peso deve ser sempre acompanhado por profissionais de saúde. Não adianta buscar o caminho mais curto se o básico — comer bem, exercitar-se e dormir com qualidade — for negligenciado. Afinal, a verdadeira saúde é o resultado de um corpo são e uma mente sã em pleno equilíbrio.
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