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Ver vídeos curtos e rápidos pode causar prejuízo à saúde dos olhos

Pesquisa feita com jovens adultos mostra que o hábito de passar muito tempo consumindo esses conteúdos eleva o risco de fadiga ocular

9 jan 2026 - 10h12
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Um estudo realizado na Índia alerta sobre o impacto na saúde ocular do tipo de conteúdo consumido no celular. Ao comparar leitura de e-books, vídeos convencionais e vídeos curtos e dinâmicos populares nas redes sociais, os pesquisadores observaram que esses últimos sobrecarregam mais os olhos, provocando maior oscilação no tamanho da pupila e redução da frequência de piscadas, sinais comuns de fadiga ocular digital.

Publicada no Journal of Eye Movement Research, a pesquisa acompanhou 30 jovens adultos durante uma hora de uso contínuo do smartphone. Os pesquisadores criaram um sistema portátil para medir em tempo real a taxa de piscadas, o intervalo entre elas e o diâmetro da pupila. O equipamento tinha uma câmera infravermelha acoplada a um microprocessador e registrou as alterações oculares sem interferir no uso natural do celular.

Ao longo do experimento, os pesquisadores perceberam que houve queda significativa na taxa de piscadas em todas as atividades analisadas: durante a leitura, ao assistir a vídeos mais longos e ao consumir Reels (como são chamados os vídeos curtos no Instagram). Esse comportamento faz com que os olhos permaneçam abertos por mais tempo, favorecendo o ressecamento e o cansaço visual. Além disso, enquanto o diâmetro da pupila se manteve relativamente estável durante a leitura e os vídeos longos, nos conteúdos curtos e rápidos houve variações mais intensas.

"A fadiga ocular, clinicamente chamada de astenopia, é um conjunto de sintomas que surge quando o sistema visual fica sobrecarregado por esforço contínuo, especialmente em tarefas de perto. Ela está associada à redução da frequência de piscadas, ao esforço de foco e a fatores como brilho excessivo e iluminação inadequada", explica o oftalmologista Lucas Zago, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.

É o caso dos vídeos curtos, diariamente consumidos em redes sociais como Instagram, TikTok e YouTube. "Eles são compostos por mudanças rápidas e constantes de brilho, contraste e imagens. Isso exige uma adaptação contínua do sistema visual, fazendo com que a pupila se contraia e dilate o tempo todo. Esse esforço repetido favorece o surgimento da fadiga ocular, diferentemente de conteúdos mais estáticos, como a leitura", afirma Zago.

Na prática clínica, esse padrão já é bem conhecido. "Temos observado um aumento de pacientes com queixas visuais associadas ao uso intenso de redes sociais. Alguns centros, inclusive, têm chamado esse conjunto de sintomas de uma espécie de reel vision syndrome", relata o oftalmologista.

Um problema cada vez mais comum

A ideia de investigar os impactos do uso do celular na saúde ocular partiu de uma constatação cada vez mais preocupante: o smartphone deixou de ser um acessório e passou a ocupar lugar central na vida cotidiana das pessoas. Em 2023, mais de 68% da população mundial já possuía um aparelho.

No Brasil, a dependência é ainda maior: em 2024, 167,5 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais tinham um celular para uso pessoal, o que representa quase nove em cada 10 pessoas nessa faixa etária (88,9%). É o que revela a última edição da PNAD Contínua sobre Tecnologia da Informação e Comunicação, pesquisa anual conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Esse uso gera diversos incômodos. Na pesquisa indiana, 60% dos participantes relataram desconforto ocular, dor no pescoço ou fadiga nas mãos, e 83% associaram o tempo excessivo de tela a ansiedade, distúrbios do sono ou exaustão mental.

Em relação aos olhos, os efeitos não são apenas momentâneos. "No curto prazo, podem surgir ardor, lacrimejamento, visão borrada e dor de cabeça. No longo prazo, especialmente em pessoas predispostas, a redução frequente das piscadas pode piorar quadros de olho seco e comprometer a lubrificação ocular", alerta Lucas Zago.

Embora muitos sintomas sejam passageiros, é importante ficar atento aos sinais de alerta. "Sensação leve de cansaço, ressecamento discreto ou visão embaçada que melhora após uma pausa costumam ser temporários", explica o oftalmologista. "Já dor ocular intensa, vermelhidão persistente, sensibilidade exagerada à luz, visão dupla ou dor de cabeça frequente justificam uma avaliação oftalmológica."

Como proteger os olhos

Entre as principais recomendações está seguir a regra 20-20-20: a cada 20 minutos, olhar por 20 segundos para um ponto a cerca de 20 pés de distância (cerca de seis metros). Outras medidas indicadas são ajustar o brilho da tela ao ambiente, evitar o uso do celular no escuro, manter distância adequada dos olhos e lembrar de piscar com mais frequência. Em alguns casos, o uso de lágrimas artificiais pode ajudar, desde que com orientação médica.

Os pequenos merecem atenção especial. "O sistema visual e o sistema nervoso central das crianças ainda estão em desenvolvimento. Aquelas abaixo de 2 anos não devem ter nenhuma exposição a telas, e o uso excessivo está associado a maior risco de desenvolvimento e progressão da miopia", adverte o médico do Einstein. Por isso, atividades ao ar livre e o uso consciente das telas devem ser sempre estimulados.

Estadão
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