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Testículos de porco, erva-dos-gatos e outros remédios estranhos para infertilidade na Idade Média

Consumir genitais de animais associados ao sexo e à reprodução era a recomendação dos médicos da época - profissionais já entendiam na época que o problema afetava tanto mulheres quanto homens.

31 jul 2017
13h36
atualizado às 13h43
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Para tratar a infertilidade masculina, nada melhor do que comer testículos de porco ou de cervo. Primeiro, você precisa deixá-los secar. Depois, deve moê-los até que fiquem com a textura de um pó muito fino, para então misturá-los com vinho, deixando o sabor mais agradável.

Essa e outras poções feitas com ervas naturais, como a erva-dos-gatos, eram algumas das receitas mais comuns recomendadas pelos médicos da Idade Média para resolver esse problema.

Segundo Catherine Rider, professora de história da Universidade de Exeter, no Reino Unido, os tratamentos indicados pelos antigos textos médicos indicam que ao menos os profissionais da Europa Ocidental não atribuíam automaticamente à mulher as dificuldades para engravidar.

Rider, que publicou seu estudo na revista Social History of Medicine (História Social da Medicina), publicada pela Universidade de Oxford, analisou vários textos em inglês e em latim, a língua usada por universitários ou pessoas com um nível elevado de educação na época.

Para sua surpresa, descobriu que as referências a esse assunto eram numerosas.

"Quando você estuda a forma como as crônicas falam de reis e rainhas, vê que eles tendem a assumir que o problema é das mulheres. Mas é diferente nos textos médicos", disse a especialista à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"O que me surpreendeu foi descobrir que havia tanta discussão sobre os homens que podiam ter relações sexuais, mas não conseguiam engravidar (mulheres)", conta ela.

"Eu achava que, se um casal podia ter relações sexuais, mas não conseguia engravidar, eles assumiriam (na época) que o problema era da mulher."

A prova dos vermes

Para identificar qual dos dois era estéril no casal, os médicos submetiam seus pacientes a uma série de exames - todos envolviam urina.

O mais mencionado nos textos da época determinava que o homem e a mulher urinassem em recipientes. Em cada pote, colocava-se um punhado de aveia e deixavam a substância ali por um período de 10 a 14 dias.

O pote com mais vermes apontaria qual dos dois tinha problemas reprodutivos.

Medicina ou magia?

A receita para as mulheres era semelhante à dos homens. Mas, em vez de testículos, usavam-se os órgãos genitais femininos dos mesmos animais.

Além dessas misturas, os médicos receitavam medidas não muito diferentes das que podemos ouvir hoje em dia: não beber muito, manter um peso corporal médio (nem muito gordo, nem muito magro) e, sobretudo por causa do efeito no esperma dos homens, fazer nem muito nem pouco sexo.

Preparação de vinho
Preparação de vinho
Foto: BBCBrasil.com

Seriam então as poções de animais mais uma apelação às forças mágicas do que ao poder da medicina?

"É uma área bastante cinza. Mas ainda que a lógica que fundamenta essas recomendações pareça mágica para um público moderno, eles teriam considerado o aspecto medicinal", diz Rider.

"Elas aparecem nos livros junto aos remédios de ervas, que são baseados em conhecimentos científicos medievais sobre a teoria dos quatro humores", acrescenta.

Essa teoria à qual a professora se refere afirma que o corpo humano é composto de quatro substâncias básicas chamadas de humores, cujo equilíbrio indica o estado de saúde da pessoa.

"A ideia é que os remédios de ervas ajudam a manter o corpo são e, portanto, em um estado melhor para se reproduzir", diz a pesquisadora.

Infelizmente, não há registro de que alguma dessas práticas tenha surtido o efeito desejado.

"É muito decepcionante. Os textos dizem 'faça isto ou aquilo' e parecem muito convencidos de que, se alguém quer engravidar, eles funcionam, mas nunca dão exemplos dos resultados", diz Rider.

"Muito raramente dizem se ajudaram muitas pessoas, mas também notam que a infertilidade é muito difícil de tratar."

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