Tainá Mosca destaca papel da imunologia na avaliação do acidente vascular cerebral
Tainá Mosca destaca papel da imunologia na avaliação do acidente vascular cerebral
Sob orientação da imunologista Tainá Mosca, da FCMSCSP, um estudo premiado associou a relação neutrófilo-linfócito, obtida em hemogramas simples, à gravidade inicial do AVC isquêmico. Ao integrar imunologia e neurologia, a pesquisa demonstra o potencial de marcadores inflamatórios acessíveis para complementar o diagnóstico e o prognóstico clínico de pacientes, reforçando o valor de dados laboratoriais rotineiros no enfrentamento de um dos maiores desafios da saúde pública global.
O acidente vascular cerebral continua entre os maiores desafios da saúde pública mundial. Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde indicam que, em 2021, foram registrados cerca de 11,9 milhões de novos casos e 93,8 milhões de pessoas viviam com as consequências da doença. Além da prevenção e do atendimento rápido, uma frente de investigação ganha espaço: compreender como a resposta imunológica pode ajudar a caracterizar a gravidade do quadro desde as primeiras horas.
Entre os marcadores estudados está a relação entre neutrófilos e linfócitos, calculada a partir de células presentes no hemograma. O indicador desperta interesse por ser relativamente acessível e por refletir alterações inflamatórias do organismo. Seu uso, porém, exige cautela: associações observadas em estudos não transformam o índice, isoladamente, em teste diagnóstico ou prognóstico definitivo. A interpretação precisa considerar o quadro clínico, o momento da coleta e outros fatores que podem modificar a contagem de leucócitos.
A imunologista Tainá Mosca, professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, participou da orientação de um estudo que avaliou essa relação em pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico. O trabalho analisou 194 pacientes e encontrou associação entre a avaliação imunológica inicial e a gravidade do AVC. Apresentada no XIV Congresso Paulista de Neurologia, em 2023, a pesquisa recebeu o prêmio de Melhor Trabalho de Apresentação em Pôster na categoria dedicada aos desafios em neurologia e casos clínicos. A distinção ganha peso por reconhecer uma investigação construída na interface entre duas áreas complexas - imunologia e neurologia - e evidencia a capacidade de Mosca de conduzir formação científica com aplicação em problemas clínicos de grande impacto.
"A inflamação faz parte da resposta do organismo à lesão isquêmica, e os neutrófilos participam ativamente dessa dinâmica. Quando estudamos a relação entre diferentes populações celulares, buscamos identificar sinais que possam complementar a avaliação do paciente. O ponto central é não tratar um marcador isolado como resposta pronta, mas compreender o que ele acrescenta quando analisado junto com dados clínicos, neurológicos e laboratoriais", afirma Tainá.
O interesse pelo tema acompanha a dimensão global da doença. A OMS calcula que o risco de uma pessoa sofrer AVC ao longo da vida aumentou 50% nas últimas duas décadas e que um em cada quatro adultos poderá apresentar o evento. Nesse quadro, instrumentos que contribuam para reconhecer padrões de gravidade e organizar prioridades de investigação podem ter valor clínico e científico, desde que sejam submetidos a validação consistente e reproduzidos em populações diferentes.
A relação neutrófilo-linfócito não é específica do AVC. Ela pode variar em infecções, doenças inflamatórias, uso de medicamentos e outras condições. Por isso, pesquisas na área procuram delimitar em quais circunstâncias o indicador é informativo, quais pontos de corte fazem sentido e se a associação permanece após o controle de variáveis clínicas. Essa etapa separa um achado promissor de uma ferramenta efetivamente incorporada à assistência.
"A pesquisa translacional precisa fazer a ponte entre uma pergunta biologicamente plausível e uma utilidade demonstrável para o cuidado. Isso passa por amostras bem caracterizadas, métodos transparentes, comparação com parâmetros já estabelecidos e acompanhamento dos desfechos. A premiação reconheceu um resultado relevante, mas também sinalizou a necessidade de continuar investigando o comportamento dessas células no AVC", acrescenta a pesquisadora.
A contribuição de Mosca vai além do estudo premiado. Em uma trajetória contínua de aproximadamente duas décadas na FCMSCSP, ela avançou da docência como professora instrutora à posição de professora assistente e à coordenação da disciplina de Imunologia para Medicina e Enfermagem. Também atua como professora e orientadora no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Saúde, acompanhando pesquisadores da iniciação científica ao doutorado. Sua produção reúne dezenas de artigos, capítulos de livros e participação na avaliação de teses e dissertações, com uma agenda científica concentrada na imunidade inata e na atividade de neutrófilos em diferentes condições clínicas. Essa combinação de liderança acadêmica, investigação e formação de novos cientistas dá dimensão ao reconhecimento conquistado no congresso.
Ao aproximar imunologia e neurologia, estudos desse tipo ampliam a compreensão sobre a fase aguda do AVC e abrem caminho para novas perguntas sobre inflamação, gravidade e recuperação. O avanço depende de colaboração multidisciplinar e de evidências acumuladas, mas a pesquisa premiada mostra como informações presentes em exames rotineiros podem orientar hipóteses relevantes para um problema que afeta milhões de pessoas.
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