Feridas e manchas podem indicar ISTs: saiba quando buscar ajuda
Feridas na boca, manchas nas mãos e até dor de garganta podem ser sinais de uma IST. Médico de família explica por que a aparência da lesão não é suficiente para o diagnóstico e quando procurar ajuda.
Infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) podem se manifestar além da região genital, surgindo na boca, garganta, mãos e pés como feridas, manchas e verrugas. Como muitas infecções são assintomáticas ou confundidas com problemas de pele comuns, a avaliação médica e a testagem após relações desprotegidas são cruciais. O uso de testosterona em homens trans não previne ISTs nem gravidez, e alterações como a ejaculação retrógrada demandam investigação profissional sem autodiagnósticos.
Feridas na boca, manchas nas mãos e até dor de garganta podem ser sinais de uma IST. Médico de família explica por que a aparência da lesão não é suficiente para o diagnóstico e quando procurar ajuda.
Quando o assunto é infecção sexualmente transmissível (IST), a maioria das pessoas imagina que os primeiros sinais vão aparecer só na região genital. Mas essa ideia não é verdadeira. Lesões, feridas, manchas e alterações na pele podem surgir em diferentes partes do corpo, dependendo da prática sexual e do contato durante a relação.
Boca, lábios, língua, garganta, região ao redor do ânus, nádegas, virilha, mãos e pés estão entre os locais que também podem apresentar manifestações de uma IST. O alerta é do médico de família e comunidade Mosiah Machado, docente da disciplina de Saúde Digital do Centro Universitário Cesuca, na Grande Porto Alegre.
Segundo o Ministério da Saúde, as ISTs podem se manifestar de formas variadas, incluindo corrimentos, feridas, verrugas, dor pélvica e aumento de gânglios linfáticos. Entender esses sinais ajuda a buscar avaliação médica mais rápido, sem depender só do que aparece na genital.
Quais sinais de IST merecem atenção?
Alguns sinais no corpo merecem atenção especial, segundo Mosiah Machado. Feridas ou úlceras que aparecem sem explicação, principalmente quando não causam dor, estão entre os primeiros sinais de alerta.
Outros sinais importantes incluem:
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Pequenas bolhas agrupadas e dolorosas
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Verrugas novas na pele
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Manchas espalhadas pelo corpo
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Secreções genitais ou anais
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Dor ou secreção na região retal
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Feridas persistentes na boca
A sífilis é um exemplo comum. A doença costuma começar com uma ferida geralmente única e indolor. Depois, pode provocar manchas pelo corpo, inclusive nas palmas das mãos e plantas dos pés. Essa ferida inicial, chamada de cancro duro, pode surgir no pênis, na vulva, na vagina, no colo uterino, no ânus, na boca ou em outros locais da pele.
O herpes se comporta de forma diferente. A infecção costuma provocar pequenas bolhas que se rompem e formam feridas dolorosas. Já o HPV pode causar verrugas genitais ou perianais, que às vezes lembram uma pequena couve-flor.
Gonorreia e clamídia também merecem atenção redobrada. As duas infecções podem atingir a garganta e o reto e, em muitos casos, não apresentam sintoma nenhum. Isso torna ainda mais importante não confiar apenas na ausência de sinais visíveis.
Como diferenciar IST de outros problemas de pele
A aparência de uma lesão isoladamente não é suficiente para confirmar ou descartar uma IST, alerta o médico. Muitas condições comuns da pele podem ser confundidas com sinais de infecção sexualmente transmissível.
Uma espinha ou foliculite, por exemplo, costuma estar relacionada a um folículo piloso inflamado. Já um pelo encravado geralmente aparece após a depilação, sem relação com contato sexual.
A afta segue outro padrão. Ela geralmente é dolorosa, ocorre dentro da boca e tende a desaparecer espontaneamente em uma ou duas semanas. Uma lesão relacionada a uma IST, por outro lado, pode persistir, aumentar de tamanho, formar bolhas ou úlceras e aparecer acompanhada de outros sinais no corpo.
Por isso, diante de qualquer dúvida sobre uma lesão persistente, a orientação é buscar avaliação profissional em vez de tentar identificar o problema pela aparência.
Por que testar mesmo sem sintomas visíveis?
Muitas ISTs são assintomáticas, ou seja, não causam nenhum sinal perceptível. Por isso, não é preciso esperar o aparecimento de feridas, corrimentos ou outros sinais para procurar atendimento.
A testagem é especialmente importante em três situações:
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Depois de uma relação sexual sem preservativo ou outra exposição de risco
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Quando um parceiro ou parceira recebe diagnóstico de uma IST
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Em situações que demandem rastreamento periódico de rotina
O Ministério da Saúde reforça que, diante de suspeita de IST ou relação sexual desprotegida, a orientação é procurar o posto de saúde mais próximo para diagnóstico. No caso de exposição recente ao HIV, a recomendação é buscar atendimento rapidamente, já que a PEP (profilaxia pós-exposição) deve ser iniciada o quanto antes, no máximo em até 72 horas.
"'Não tenho nada visível' não significa necessariamente que não exista uma infecção", reforça Mosiah Machado.
Testosterona protege contra IST em homens trans?
A saúde sexual também envolve cuidados específicos para homens trans que fazem terapia hormonal. Segundo Mosiah Machado, a testosterona pode provocar aumento do clitóris e alterações na sensibilidade. A menstruação geralmente diminui ou cessa, mas também podem ocorrer redução da lubrificação vaginal, ressecamento, afinamento e maior fragilidade da mucosa.
Um dos principais esclarecimentos do médico é que a testosterona não funciona como anticoncepcional. Mesmo sem menstruar, uma pessoa que mantém útero e ovários pode eventualmente ovular e engravidar.
Além disso, a testosterona não protege contra HIV, sífilis, gonorreia, clamídia, HPV ou outras ISTs. A prevenção deve considerar as práticas sexuais e os órgãos envolvidos. Isso pode incluir preservativos, lubrificação, vacinação contra HPV e hepatite B e, quando indicada, PrEP.
Os cuidados ginecológicos também continuam necessários, de acordo com os órgãos presentes no corpo. Pessoas que possuem colo do útero devem manter o rastreamento do câncer cervical conforme as recomendações aplicáveis. Sangramentos persistentes, ou que retornam depois de um período sem menstruação, também merecem investigação médica.
Para Mosiah Machado, um dos erros mais comuns é acreditar que o uso de testosterona elimina a necessidade de acompanhamento ginecológico. O cuidado deve considerar os órgãos presentes, as cirurgias realizadas e as práticas sexuais de cada pessoa.
O que é o orgasmo seco?
Outro tema que ainda gera dúvidas é a ejaculação retrógrada. A condição acontece quando, durante o orgasmo, o sêmen segue para a bexiga em vez de sair pela uretra.
Isso ocorre quando o mecanismo que normalmente fecha o colo da bexiga durante a ejaculação não funciona de forma adequada. Depois, o sêmen é eliminado junto com a urina e, em geral, não causa danos à bexiga.
As principais causas da ejaculação retrógrada
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Cirurgias da próstata ou do colo da bexiga
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Alterações neurológicas, como neuropatia relacionada à diabetes ou lesões da medula
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Uso de alfabloqueadores para sintomas urinários relacionados à próstata
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Alguns antidepressivos, que também podem interferir no mecanismo ejaculatório
O sinal mais característico é o orgasmo com pouco ou nenhum sêmen, conhecido como "orgasmo seco". Algumas pessoas também percebem que a primeira urina depois do orgasmo fica mais turva. A confirmação pode ser feita, quando necessário, pela pesquisa de espermatozoides na urina após o orgasmo.
A condição ajuda a esclarecer uma diferença importante. Ejaculação, orgasmo e ereção não são a mesma coisa! A pessoa pode continuar tendo ereção e sensação de orgasmo mesmo sem exteriorizar o sêmen.
O principal impacto da ejaculação retrógrada costuma estar relacionado à fertilidade, já que pouco ou nenhum sêmen chega ao exterior, embora a produção de espermatozoides continue ocorrendo. A condição não deve ser confundida com esterilidade.
Na maioria dos casos, o tratamento não é necessário quando a pessoa não está incomodada e não deseja ter filhos. A avaliação médica é indicada quando a alteração surge sem explicação, persiste, aparece após uma cirurgia ou medicamento, preocupa em relação à fertilidade ou causa impacto significativo na vida sexual. Quando houver suspeita de que um medicamento seja responsável, ele não deve ser interrompido por conta própria.
"A informação correta é uma das principais ferramentas para cuidar da saúde sexual. Muitas situações podem não apresentar sinais evidentes, enquanto outras manifestações podem ser confundidas com problemas comuns. Por isso, diante de uma exposição de risco, de uma alteração persistente ou de qualquer dúvida, o mais seguro é procurar avaliação profissional em vez de tentar fazer um diagnóstico pela aparência", orienta o docente da disciplina de Saúde Digital do Centro Universitário Cesuca.
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